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Title: Aves Migradoras
Author: Almeida, José Valentim Fialho de, 1857-1911
Language: Portuguese
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FIALHO D'ALMEIDA


AVES MIGRADORAS

4.o Milhar



LISBOA
LIVRARIA CLÁSSICA EDITORA
DE A. M. TEIXEIRA & C.a (FILHOS)
_Praça dos Restauradores, 17_
1922


PORTO--Imprensa Portuguesa
Rua Formosa, 116



AVES MIGRADORAS


--Mas tu és minha amiga, balbuciava a creatura querendo tomar-lhe as
mãos n'uma supplica desolada. Devias ter dó d'esta fatalidade que me
leva ao encontro de Ruy. Oh, tu não sabes! A idéa d'elle tira-me o
somno, embebeda-me, convulsiona-me, vai commigo a toda a parte. Tu ao
menos tiveste familia, irmãos, alguem. A mim nunca ninguem me quiz. Os
garotos puxavam-me os cabellos, meu pai batia-me em estando
embriagado. Aos dez annos puzeram-me fóra, que fosse trabalhar. E
andei descalça atraz dos porcos, ia aos sabbados pedir esmolas ás
portas dos ricos. Um verão agarram-me a furtar uvas n'uma vinha: o
vinheiro era um bruto, jogou-me um tiro; e cheia de sangue, quasi
morta, uns cavadores que passavam, foram levar-me a casa da
minha madrasta. Mas á embocada da aldeia, como eu ia estendida n'uma
padiola de ramos, a senhora marqueza viu-me passar da sua janella, e
por caridade, recolheu-me. Alli se fôra creando, a fazer companhia ao
menino. Ruy n'esse tempo era um despota, obrigava-a a saltar muros, a
pendurar-se de cordas, a fazer de cavallo. E batia-lhe. Em compensação
Luiza adorava-o com um amor de cadella agradecida. Do fundo da sua
humildade, nascia-lhe um deslumbramento inexplicavel, uma curiosidade,
uma cegueira de Ruy. E nervosa, franzininha, como a figura d'uma
borboleta na melancholia pallida d'um sonho, adquirira já
precocidades: e os seus grandes olhos remordiam na belleza do
pequenito, substractos de muitissimas aspirações. Na quinta, os
trabalhadores ás vezes perguntavam-lhe:

--Queres ser amiga além do menino?

Ella abria os seus olhos vorazes, dizendo com a cabeça que sim.
Entrementes o pequeno ia crescendo. Era alto, delgado, divinamente
perfeito. Tinha já essa attitude desinteressada d'enthusiasmos,
indifferente aos impulsos fortes, desdenhosa, petulante, das creaturas
nascidas em meios altos, e destinadas ao predominio. As suas
mãos davam cobiça, brancas de cera, e com detalhes mimosos d'obra
prima. Oh, mas a bocca, inexplicavel, trazia embrionada na esculptura
dos labios, todas as florações mysteriosas d'uma ascendencia
patricia--bocca de chefe pela austeridade, de diplomata pela ironia, e
de mulher pela doçura com que a descerrava, em sorrisos cicatrizadores
das esgarçaduras que a sua altivez antes fizera. Quando elle veio do
collegio a primeira vez, empallidecera: mas a expressão dos seus olhos
era uma coisa indescriptivel d'encanto, de melancholia e suavidade.

Á enformatura tenra, oscillando como a haste anemica d'uma flôr de
estufa, viera juntar-se o mysterio poetico d'um espirito insexualmente
delicado, cujas infantilidades corrigia a cada instante um fogo-fatuo
d'idéa, e a graça grave, indecifravel cambiante, da esphinge que
contempla, sem desmentir jámais a prega austera da bocca. Era já,
n'essa idade, a creatura de gostos raros, avara de palavras e gestos,
fria, correcta, com preguiças d'ataxica e relampagos de crueldade na
pupila augusta de Cesar, adorando o luxo dos palacios antigos, tendo a
mania do _bibelotage_, e antegostando, como todos os homens da sua
familia, uma especie de deleite perverso no desnortear pelo
testemunho das suas impressões prevaricadas, a sensibilidade reputada
normal pela outra gente. Essa susceptibilidade depressa se embotava
todavia, reclamando intercadencias, e por vezes derivando em
passageiras allucinações. Indole toda de _nuances_, refrangida d'um
sangue com predominio de soro, como uma luz coada através da sêda d'um
biombo, elle parecia arvorar o pallido como flamula de guerra da hoste
macabra dos nevrosados, cuja vida o tédio do vulgar envenena. Por seu
lado, Luiza conseguira ganhar pela viveza dos seus expedientes e
remoques, o espirito da senhora marqueza, ao tempo enlanguescido no
estranho mal que ia varrendo as gentes da sua raça, mercê das
allianças consanguineas em que esta teimára immobilisar-se. Em cinco
annos, nada restava já da pequena mendiga chegada ao palacio n'uma
padiola de ramos, com os cabellos nos olhos, os pés enlameados,
coberta de trapos, e resequida n'uma magreza dolorosa. Era uma bruna
de beiços rubros, dentes pequenos, com fórmas d'esculptura e sadias
destrezas d'amazona. Desde a partida de Ruy para Campolide, que ella
não tinha na casa occupações definidas. Conservavam-n'a, um
pouco por gratidão, e por amor tambem, um quasi nada. E assim era um
bocado de tudo--leitora, enfermeira, guarda das estufas, esmolér-mór,
creada de mesa e bordadora--e assim podera conservar a sua selvageria
d'origem, tão familiar aos serviços da propriedade.

Luiza era intelligente: alli se fôra educando, aprendendo, adquirindo
pela familiaridade da boa companhia e da riqueza esparsa em obras de
gosto, através dos velhos aposentos, essa cultura interior de
sentimentos, essa exoticidade de preferencias, essa indiscutivel
distincção de conversar e receber, que a tornaram depois tão
appetecida cá fóra--isto realçado co'a turbulencia da creatura nascida
em pleno campo, espojada nos fenos, e rebelde no sangue, longe das
peias deformantes da sociedade. Só de longe a longe, á força de
hydrotherapias complicadas, a senhora marqueza obtinha uma ou outra
hora de vida serena, e conseguia furtar-se aos lugubres nervosismos da
enfermidade. Era o feitio de Ruy, menos a juventude, mais a
impaciencia. A custo lhe sahia o espirito das abstracções e
somnolencias em que ficava embrenhado horas e horas; e exiguamente,
distillando a lucidez como uma essencia, gotta a gotta, n'um
_ting-ling_ monotono. A sua vida passava-se n'um canto de capella,
entre sombras, enterrada n'um _fauteuil_ com baldaquino, e só de lá
sahia para se entregar ao cultivo de quatro ou seis predilecções
extravagantes. Resentia-se do claustro onde passára os primeiros annos
de educanda, e da côrte onde tinha gosado os primeiros mezes de
casada. Era uma natureza extatica, adorando as pompas do culto, os
requintes subtilisados da lithurgia, os movimentos dramaticos do orgão
no instrumental das grandes cerimonias--um pouco de mysticismo, n'um
pouco de miguelismo, n'um pouco de idiotismo,--com paixões de plantas
monstruosas e aves singulares, alimentando-se de fructas, vestida de
antigos damascos e _pompadours_ de raminhos, e tendo sempre bolos
d'ovos no beniterio do seu genuflexorio. Era vêr a ternura de Luiza
durante as crises da boa senhora, e a meiga servilidade da sua voz
rebuscando as mais enternecidas musicas, para pedir perdão de lhe não
ter adivinhado mais cedo o pensamento.

Essa ternura, Luiza não a fazia nascer exclusivamente da gratidão que
nutria pela castellã: vinha antes da emoção que Ruy lhe
dava, da febre que lhe produzia a lembrança da sua belleza fruste e
singular. Todas as dedicações se fundiam n'ella, e assim todas as
especies de desejos inquietantes. Vinda d'uma mancebia d'aldeia, onde
rolavam a toda a hora palavras bebedas e acções quasi medonhas, Luiza
achára entre os moços da quinta, nas conversas surdas da cozinha e da
arribana, á hora da ceia, a continuação do que vira e ouvira em casa
da madrasta. Fôra preciso um cuidado assiduo, nos primeiros tempos,
para refazer-lhe o vocabulario, e transviar para intuitos mais
limpidos, a tendencia de vicio que ella trazia no sangue, em
purulentos coagulos. Se a educação e o mimo em que fôra subindo, á
proporção que se insinuava nas sympathias do palacio, lhe haviam feito
a lingua casta, e a expressão virginea, já por fim, no fundo, o
terrivel sangue conspirava n'ella, co'as herdanças fataes da vida
airada, phosphorejando ardores que a nubilidade ás vezes desencadeava
em verdadeiras procellas. Inda creança, o seu amor pelo Ruy já não
podia dizer-se immaculado. Não era esse idyllio de bambinos colligados
na mesma adoração por uma boneca, nem a celeste comedia,
inolvidavel, de duas cabecinhas attentas para o mesmo malmequer que se
esfolha á beira d'um campo de trigo, sob o guarda-sol de sêda que a
ama baloiça, sorrindo de os vêr tão sérios, os dois noivos pequeninos.
Mas uma paixão d'inferior que se deslumbra pelos filhos da raça cujas
perfeições não pôde igualar, paixão com haustos de posse,
indeclinavelmente physica, prematura, perversa, e cheia
d'estonteamentos já torpidos. Com a idade, aquella ancia de Luiza não
se corrigia nem purificava, senão ia crescendo, accentuando,
colorindo, na medida da sua adolescencia cada vez mais radiosa em
seducções.

Nas férias, mal se sonhava o dia em que Ruy devia chegar, já ella não
parava quieta em parte alguma. E eil-a passando os dias nos aposentos
do menino, revolvendo alcatifas, mudando o logar do leito, perturbando
a ordem dos quadros, a disposição dos mobilamentos, agrupando plantas,
pelo que sabia das predilecções de seu amo--pondo stores e biombos em
todos os portaes por onde francamente entrassem a luz e o ar. Na casa,
os creados sorriam, como quem sabe de tudo--gallinha canta... E os
ditinhos pullulavam. Mas um que era já ruço, muito gordo,
quasi sacerdotal pela rigidez da compostura, costumava deter-se á
porta dos quartos, tossindo devagarinho, a vêl-a trabalhar.

--É o Ezequiel menina Luiza.

Ella gostava d'esse, que a defendia sempre das animadversões da
creadagem, e por toda a parte a cercava de deferencias tocantes.
Mesmo, das suas palavras paternas, ruminadas n'um fundo de reflexão um
poucochinho canalha, vinha-lhe uma sorte de lisongeira coragem.
Ezequiel era o unico que parecia não pôr em duvida a ascendencia de
Luiza sobre a outra creadagem. Emtanto elle ás vezes punha-se a
esquadrinhal-a, na sua bonhomia de velho, deixando cahir palavras
descuidosas aqui e além, para a fazer dar á lingua, e espaçando
reticencias de proposito, no sitio onde a rapariga, simploriamente,
logo ia prender revelações.

--Muitos parabens, menina Luiza. Faltam só quatro dias.

Ella, fingindo não entender:

--Ora essa! Para que, Ezequiel?

Elle ia entrando, punha o espanejador ao canto da porta, enxugava os
dedos da pitada ao avental.

--Estas raparigas, estas raparigas!... E d'ahi que tinha? Não
ha tanta menina pobre casada com pessoas grandes? Eu sempre queria
vêr...

--Vossê, Ezequiel, nunca tem melhores lembranças. Ora o mofino!

E o velho, conciliador:

--Acaso admira que vossemecê goste de Ruy? O contrario é que
espantava. Creados de pequeninos, no mesmo berço quasi... E olhe que
têem muita força os beijos a que uma pessoa se acostuma de creança.

Ella empallidecia e córava sem escrupulo, surprehendida no divino
tormento que lhe extasiava o espirito em fogos multicôres.

--Olhe cá, Ezequiel. Cada um no seu lugar. O que diriam de mim, santo
Deus?

--Coisa nenhuma, coisa nenhuma. Todos vêem como a senhora marqueza
trata comsigo. Zús d'aqui, zús d'alli, está-lhe sempre a chamar minha
filha. Olhe que é muita amizade, é amizade de mais para uma servente.
Eu sei que isto enfurece os invejosos. Não faça caso, menina Luiza,
não faça caso.

--Ah, não tenha medo, Ezequiel.

--E o menino Ruy então, não fallemos. Esse gosta, e gosta muito. Até
cartas lhe manda. Não se faça encarniçada, menina Luiza.

--O disparate!

--Já cá sabemos tudo; pois então!

--Crédo! Santo Nome! São cartas que elle manda para a senhora.

--Para a senhora, sim, para a senhora mais nova. Eh! Eh! fazia elle
batendo as palmas, n'um tom maligno d'avô condescendente. Essa cama
que fique bem fofa, essa campainha que fique bem perto. Rapaziada,
rapaziada!

Ouvindo estas coisas, Luiza abandonava-se, perdia a cabeça. E do
coração subiam-lhe á bocca ondas de confidencias, gritos d'alma,
brutaes franquezas de rebelde. A intensidade do seu sonho interior era
tão forte, tão sobreexcitado o delirio da sua imaginação, que para
seguir-lhe a trajectoria, Luiza compromettia-se mentindo, gabando-se
de scenas imaginarias, sem quasi perceber que se calumniava. Não, Ruy
não lhe escrevia. Não, Ruy não gostava d'ella. Mas Luiza, Luiza morria
por tel-o ao pé de si. Esses dias eram uma doidice, e Luiza não
dormia, Luiza não comia, Luiza não dava attenção á leitura, Luiza
estava distrahida á missa da senhora marqueza. A cada instante,
omissões no serviço, pequenos confortos descurados nos aposentos,
portas abertas deitando correntes d'ar, stores erguidos nas janellas,
que endoloriam os olhos da enferma, apenas familiarisados co'as
penumbras cinzentas do seu canto d'oratorio.

Então a fidalga impacientava-se: as impaciencias traziam-lhe o
nervoso. Era um horror. Para poisar os dedos no braço de Luiza, abrir
o livro de rezas, dar uma dentada n'um bolo, a pobre creatura estava
minutos em sobresaltos choreicos, debatendo-se contorcida, sentando-se
e erguendo-se apenas se sentava, lançando da bocca palavras
improprias, repetindo certos adverbios no meio das phrases: e
amargurada, presa de terror, por ter a consciencia de não estar
fallando bem.

Raro, raro, o senhor marquez que residia em Lisboa, na roda dos
alegres _viveurs_ d'então, se aventurava até áquelle deserto da
quinta, calado, religioso, e com uma expressão claustral
d'austeridade. N'essas poucas visitas, sua excellencia não vinha por
certo estancar saudades de sua mulher, senão solicitar da pobre dama,
mais uma vez, assignatura para alguma hypotheca que o auctorisasse a
proseguir na sua vida libertina de velho rapaz. Chegava então pela
noite, em caminho de ferro, estava até ao outro dia, e na madrugada
seguinte, zut! elle ahi vai. As palavras que os dois esposos trocavam,
eram uma simples formula de deferencia imposta pelo orgulho ás
cogitações chocarreiras da creadagem, em que ella buscava mostrar o
desdem que nutria pelo esposo, e o esposo parecia artificialisar ainda
mais, a sua amabilidade correcta de marido desencantado. Na primavera
comtudo, a visita do marquez prolongava-se d'alguns dias, como era o
tempo das caçadas. Trazia então quatro ou cinco velhos amigos, alguns
creados, e as matilhas de galgos requeridas para a diversão. A
marqueza recluia-se mais, se é possivel, no seu angulo de palacio,
pretextando que a luz lhe encadeava a vista, que o ruido lhe
exasperava a _migraine_, e o aspecto da alegria dos outros mais fazia
contrastar a sua mortal e esmaecida tristeza de antiga moribunda. E os
caçadores ficavam sós, livres inteiramente para deixar correr sem
respeito, n'aquellas duas ou tres semanas de campo, uma impetuosa
existencia de barões feudaes, accesa nas risadas do bom vinho das
cavas, nas correrias em pós das rapozas e lebres, e castigando-se á
noite, finda a ceia, Deus sabe, entre os braços das mulheres que
Ezequiel recrutava discretamente pelo burgo, na grande sala de lambeis
gobelinos, com mobilias marchetadas de quatro seculos. Todas as
manhãs, Ezequiel ia aos aposentos da senhora marqueza deixar
galantemente um ramilhete da parte de seu amo, que á volta da caça lhe
mandava em _plateau_ tambem, a melhor peça da correria. Os fidalgos de
ha trinta annos eram ainda mais inuteis que os de hoje. A mordomos e
intendentes abandonavam a gerencia dos seus negocios interiores.
Restos d'altivez faziam-lhes encarar desprezivelmente o que elles
chamavam classes subalternas. Isto contrastando nas suas horas lucidas
com a intimidade que a mór parte abria a fadistas e toureiros, nos
momentos de vinhaça, por esses bordeis que ficaram celebres em
cantigas do fado. Este marquez de Selmes foi como os outros, um
perdulario espargindo fortuna e forças no rodilhão dos prazeres mais
em voga ao tempo. Em Lisboa, dava talher a uma turba de litteratos,
graciosos e moços de curro, com quem elle gostava de mesclar os seus
jantares d'intimos, por manter o ar d'um grande senhor amigo das
artes, requestado pela popularidade dos varios conventiculos elegantes
da capital. E na quinta, aquelle mundo heterogeneo de parasitas
representava-se um pouco, mais resumido, pelo critico Lagoaças,
Alberto M., Marquez das Flôres, grande pegador de bois, pai nobre
Cezario, e festejado Mattos, que fazia rir a sociedade referindo
historias da Lisboa duvidosa, no seu aranzel comico de _tatibitati_.
N'aquella primavera, a surpreza do marquez fôra Luiza, a grande Luiza
que lhe surgia de repente uma senhora, e cujas infantilidades o velho
galante distrahidamente afagára até ahi. Lagoaças, que era forte
apreciador de fructos no cedo, foi o primeiro a chamar-lhe a attenção
para a deliciosa frescura d'aquella maçã prohibida, que promettia
co'os seus acres succos perfumar a bocca de quem lhe cravasse os
dentes primeiro. Foi então um movimento geral de galantaria no grupo
dos caçadores, sobre Luiza. Com a sua _nonchalance_ habitual, o
marquez dava carta de corso aos amigos, admittindo-lhes correr palacio
a qualquer hora, em pós da famosa presa, se tudo fosse discretamente
acontecido. Quem mais lesto e galanteador se antolhasse, mais
esperanças poderia nutrir de successo. Alberto M. começou uma elegia.

  Deliciosa aranha delicada,
  E com pennugens d'oiro revestida:
  Ligeira, dôce, setinosa e leve...
  Tens a peçonha lubrica mettida,
  Na caricia das patas côr de neve.
  .................................

Marquez das Flôres era outro genero: confiava na mocidade viril dos
seus braços, e nas casacas vermelhas de caçador com que apparecia
todas as manhãs no grande pateo da casa, soado o primeiro hallali nas
trompas dos monteiros. E a batalha começou, estando Ezequiel empenhado
em fazer triumphar o marquez.

Uma manhã fazia Luiza o _ménage_ dos passaros, sobre o terraço,
Ezequiel que chega d'acaso. Bons dias d'um lado, bons dias do outro, e
começou uma conversa d'introito, ao fim da qual, sem se saber como,
Ezequiel já fallava nas graças de seu amo, ideal dos fidalgos
generosos, nata dos amigos commodos, e _non plus ultra_ dos amantes
discretos. Não é verdade, menina Luiza, não é verdade? Ui! que
gorgetas elle lhe dava! Pares de calças que lhe abandonára,
novinhos em folha! E a sua maneira de tratar então, como d'igual para
igual!

--Boa pessoa, fez machinalmente a rapariga, é muito boa pessoa.

--Uma coisa não sabe a menina. Elle está doido por si.

--Ai! o tramouco do velho...

--Diz que a ha-de fazer muito feliz.

--Brr! Pois quem somos nós?

--Tanto que me encarregou...

--Vossê alcovita agora, Ezequiel?

--Desejaria vêl-a amparada, menina Luiza. Conheci-a pequena n'esta
casa, vi-a medrar e fazer-se mulher, e gosto de si como os avôs das
netinhas tagarellas. D'ahi, não promette grandes dilatamentos a vida
da noss'ama: cedo, tarde, quando menos cuide, ahi vai ella caminho dos
anjos. E fallando claro: a situação que ella lhe fez n'esta casa, é
uma coisa postiça que lá fóra a menina não poderá continuar sem uma
protecção. Quer que mudemos de conversa?

--Posso, Ezequiel, isso posso. Não digo a servir, mas escolhendo rapaz
com quem me case.

--Da aldeia, da quinta... Que creação é a d'esses homens?
Afeitos ao trabalho das terras, querem mulher da sua condição, que
sache, que monde, que moireje, e vista d'estamenha, e tenha rijeza
p'ra lhes parir um creanço, em todas as paschoas de Deus. Além d'isso,
duas naturezas desiguaes na educação--marido ciumento da mulher que
não merece--mulher desprezando o marido que a não soube captivar.
D'ahi zangas, ralhos, maus tratos, que sei eu? Ao passo que sendo
rica, poderia encontrar um moço d'estimação que lhe fizesse a vida
doirada, n'uma casa cheinha como um ovo.

--Mas rica, rica... Vossê conhece a minha gente. Morrem todos de fome,
lá por casa. Se me não comem os olhos, é que não podem tirar-m'os sem
que eu dê por isso. Ser rica, de que modo, por que processo? Diga.

--Eu a bem dizer, não tenho plano. Idéas vagas, muito d'alto, que se
não podem assim contar a uma rapariga nova e com principios diversos
dos meus. Idéas de velho que viu mundo e sabe chamar os bois pelo seu
nome. Olhe. Quando eu era rapaz tive uma patrôa viuva, entradota, mais
que medonha--inda esbraseada por noivar, pobre senhora!--que uma noite
me beliscou o assento, de passagem por um corredor ás escuras. Eu não
quiz: gostava muito mais da cozinheira: opiniões de galucho, menina
Luiza! Fui p'ra rua como era de justiça. Quatro annos depois estava o
cocheiro nomeado visconde do appellido da minha antiga adoradora.
Perdidinha por mim, menina Luiza, perdidinha. Carago! E eu tão bruto
que não quiz! Se lhe ponho as calças em cima, andava agora de sege por
essas capitaes.

--Fallando claro, o teu sermão quer dizer: amiga-te com o senhor
marquez, rapariga. Não é isto? Por sua morte, talvez sejas rica; em
vida d'elle por força has-de ser feliz.

Ezequiel não retrucou, mas poz-se a contar historias de raptos,
vergonhosos amores, coisas cynicas e patuscas, sem apparente
colligação de sentido. A voz fizera-se-lhe surda, d'uma firmeza
espaçada que lhe espargia na face aspectos graves de prégador e de
magistrado. E recapitulou da prédica, pitadeando, que a vida era um
quotidiano mercado onde a gente adquiria o que por acaso tivesse de
sobrecellente. Manoel Antonio Ferro, sahira da aldeia com elle,
Ezequiel, em 40, com tres pintos no bolso, e o saquito da roupa
branca. Entrado marçano n'uma loja do Porto, roubou o dono: primeira
façanha, vá vendo... Foi ao Brasil mercandejar nos escravos, volta
millionario. Chegado a Lisboa n'um estadão de principe, recommendado
até aos olhos, nenhuma casa se abriu para o receber. Trazia na
consciencia duas mortes, ao que se contava, e uns poucos de processos
por contrabando e moeda falsa. O homem não se ralou muito co'a
recepção dos patricios. Fez tranquillamente um palacio na Junqueira,
talhou jardins, comprou herdades, derribou azinheiras, plantou vinha,
fez eleições: e um bello dia, quando já entrava a ser necessario, deu
doze contos para escolas, reclamando farda de moço fidalgo, pelos
Ferros de Santo Thyrso, que eram ladrões d'estrada e sapateiros. Toda
a gente entrou a chamar-lhe venerando, desde os doze contos. Hoje,
ninguem funda um banco sem o nomear director, e não se inaugura uma
escóla sem elle lá ir botar discurso, com os seus ares de pai-avô.
Está par, está conde; e se ainda não põe na cabeça a corôa real, é que
já tem uma de cornos, mimo da mulher, a sogra d'este Marquez das
Flôres que ahi está de visita. A duqueza de Montes, menina Luiza, hoje
velha, e tão virtuosa senhora, que manda rosarios da Terra Santa a
noss'ama... era uma dançarina do primeiro café-concerto que se fundou
em Lisboa, cheia de molestias. Depois da dança, vinha p'ras mesas
embebedar-se com genebra, sentada no collo de quem lhe desse dois
pintos. Eh! Eh! Tudo se vende e se compra: caras geitosas, virgindades
velhas e novas, familia, patria, salvação, condecorações, reputações,
sapatos d'ourello e garrafas de vinho. Quer um bom camarote no reino
dos céos, menina Luiza? Dê quatro contos ao papa: manda-lhe a chave na
volta do correio. Faz-se de côres? Ora adeus! Não digo que seja dos
Evangelhos, esta doutrina. Mas é o resumo de cincoenta annos de
trambulhões e miserias. Seja-me rica! A primeira felicidade é ter que
vender. Mas a unica, a verdadeira, é poder comprar.

--Ezequiel, vossê tem a alma ruim.

--Por lhe confessar que só os imbecis se portam bem? Por lhe dizer que
este mundo é dos descarados? Ai, se eu tivesse podido convencer-me
d'estas coisas na sua idade! Não traria agora senão a libré de mim
proprio, e o mundo havia de fazer o que me viesse á cabeça. Faça o que
quizer, menina Luiza. Mas esta fabula é clara como agua. O senhor
marquez gosta de si. Qualquer dia a senhora marqueza, trrr... foi-se.
Que ha de fazer a Luizinha? Estará resolvida a dar-se por mulher ao
primeiro labrego que venha? Mas creatura! Voltar para os casebres da
sua madrasta, d'onde fugiu a honra com medo aos piôlhos? Brada aos
céos! Viver pura como a luz, uma vida escura como a noite? Olha a
tolice! Despir trajos de senhora, deixar este palacio e os confortos
da vida farta, a que se afez desde pequena?.. Bau! Bau! não tem
coragem. Isso sim! Vá, tane as mãosinhas em trabalhos que humilham e
não salvam da pobreza e da fome. Hum! Hum! menina Luiza. Esses olhos
não mentem no que deixam adivinhar. Venda, venda! O senhor marquez
gosta de si.

As lagrimas saltavam já dos olhos de Luiza.

--É mais facil morrer, disse ella.

--Pois minha rica, não será rondando o Ruy noite e dia, mais de noite
que de dia, que a menina ha de ir á cova de capella e palmito. Gostar
do filho, tem todos os inconvenientes de gostar do pai, menos as
vantagens. Esse pequeno é um cabeça louca; póde fazer apetite ao
femeaço--o que não faz com certeza é uma bizarria que a deixe
independente a si. Porque não póde! Porque não tem! D'ahi,
tarefa inutil perseguil-o. O fedelho por ora não larga os amiguinhos
do collegio. A menina não tem fortuna, parece-me ambiciosa... Venda. O
seu genero está na alta. Dezoito annos. Uma lindeza! Venda. Bocca de
morango, voz de seraphim... Venda, venda. O senhor marquez gosta de
si.

Era o tempo das florações e dos ninhos. Divinas juventudes explodiam
d'amor nas seivas da terra, na luz e nos perfumes do ar. O céo dôce,
todo o campo uma distillaria d'essencias: lá baixo, na aldeia, as
romarias começavam, e os casamentos tambem. Luiza guardava silencio,
co'os olhos longe, vendo subir a manhã pelo cantar dos passaros.
Comprar e vender. Vender e comprar. Uma carinha bonita, um corpinho
perfeito. O senhor marquez gosta de si.--E Luiza chorou todo o santo
dia.

       *       *       *       *       *

N'essa cabeça de fogo entretanto, surgia cada vez mais fascinadora, a
imagem de Ruy, toda abrasada d'estranhos prestigios: e diante d'ella
ardendo sempre o lampadario d'um culto cego e inexoravel. Com o
pequeno tinham vindo á quinta passar as férias da Paschoa, tres ou
quatro dos seus companheiros mais intimos--Palhalvo, já gordo aos
quinze annos, cujas bochechas tinham o geito d'estarem soprando uma
desconforme trombeta, á semelhança d'esses anjos papudos que fazem
apotheose ao calix mystico, nos frontões das capellas-móres--Mattoso,
filho d'um criado velho, que a senhora marqueza destinava ao
sacerdocio, e dominava o grupo com os seus modos severos de
preceptor--Jorge Forjaz, primo d'Albertina, era o litterato, e
recitava Rodrigues Cordeiro e Palmeirim nos banhos da Nazareth e Praia
da Vieira--emfim Biscaya, especie d'aranhiço adunco, côr de feno,
sempre tossindo, era um engeitado que o marquez recolhera e mandára
ensinar, e cuja maldade e azedume transpareciam já nos seus dichotes
de gaiato. Esta ronda de meninos bonitos, uns mais precoces do que
outros, alvoroçava o palacio logo ao romper da manhã, extravasando nos
pateos em exercicios de força e gymnastica, furtando beijos ás moças
por onde quer que as topasse, partindo n'uma algazarra, em carretas de
lavoira, para as searas onde mondassem raparigas, ou organisando
correrias, d'onde os cavallos voltavam desferrados e cobertos
d'espuma. Póde-se calcular o que estes diabos accrescentavam de
desordem á volta dos festins do marquez: excepto Ruy, que ia ao almoço
e jantar fazer companhia a sua mãi. Era a unica imposição tambem da
boa senhora, ter o filho em _toilette_, defronte de si, nas refeições.
E isto enchia d'importancia o pequeno, todo esforçado em infiltrar na
melancolia austera da enferma, um raio da sua graça juvenil. Mesmo, o
seu respeito por ella, timbrava em mimos, pieguices, ternuras,
pequenas dedicações que a velha dama absorvia sem transluzir na face
exangue emoção d'especie alguma.

Desde que Ruy chegára á quinta, a marqueza dispensava Luiza de lhe lêr
as orações e velhos livros de pastoraes, villancicos ou novenas aos
santos patronos mais dilectos. Era então Ruy o encarregado de lhe
percorrer as passagens estimadas. Elle a tudo se prestava, com um
tocante respeito de pagem amoroso, tentando seguir nos olhos d'ella o
grau de satisfação que promovia, e evitando as crises com uma
ligeireza d'alma adoravel e compadecida. Immovel por traz da cadeira
da marqueza, Luiza servia-os, interpondo a enferma como medianeira
innocente, no jogo galante em que ella buscava encasular a
adolescencia do rapaz. Alguma vez este lhe dirigia a palavra, a buscar
apoio n'uma asserção, a preferir o conselho de Luiza no tocante a
qualquer pormenor de solicitude para com a mãi. E a alegria da pobre
creatura, quando elle erguia aos olhos d'ella, os seus olhos picados
de scentelhas leaes! N'essa alma de collegial, toda escrupulosa no
_froufrou_ da sua alvinitente plumagem, parece, nenhuma idéa de mulher
passára ainda. E Luiza interrogava-se, sofreava-se, confusa,
estonteada, aterrada das suas audacias, e sem coragem de revolver co'a
sombra d'uma _coquetterie_, o lago azul d'aquella pureza celeste.

Uma manhã, cedo ainda, Luiza ia acordar Ruy para um almoço na horta,
antes da caçada, quando se deteve á porta do quarto, sentindo rir e
cochichar por entre as cortinas do leito. Talvez que Palhalvo,
madrugador, a tivesse antecedido. Uma avidez de saber espicaçava-a
entretanto. Pé ante pé, esgueirou-se por entre os batentes da porta,
franzindo pouco o reposteiro, para se ir acocorar, sutilosa, por traz
do grande biombo de coiro que resguardava a entrada. Era um dialogo
abafado, d'um tom unido, e com palavras expirantes que ás vezes se
perdiam entre murmurios de suspiros e beijos. Luiza avançou
traiçoeiramente a cabecita de vibora para fóra do esconderijo. E os
seus olhos estavam como uma interrogação rancorosa, através das
phantasticas elegancias d'essa camara, que nos seus mais pequenos
detalhes evocava em estatua a organisação desconnexa, fruste,
mysteriosa, desigual, que lá vivia. Bem podia a estranheza da
installação ser tomada em amostra de faculdades singulares. D'aquellas
fórmas erraticas e symphonicas de côres amortecidas, via Luiza
exhalar-se, sob um dia novo, a alma exotica a que ellas serviam
d'involucro. As paredes eram forradas de velludo sombrio, já desbotado
nos sitios do sol, e com pinturinhas vaporosas de figuras e flôres.
Sombrios tapetes, quasi uma relva, amorteciam a bulha dos passos, até
aos degraus do immenso leito toucado d'escuro, á laia d'eça, e com
cercaduras á moda das da armação mural. Uma quantidade de moveis
singulares: credencias d'ébano sobre ligeiros pés, trabalhadas como
uma renda preciosa de volutas, entre ferrarias de prata batida a
martello; nudezas d'estatuas aos cantos, brancas d'insomnia no rasgo
genial das suas attitudes, servindo de cabide a chapéos de mil
formatos: grandes jarrões sobre cubos esculpidos, em cujas arestas
noctiluziam douradas vagas de pregos: e mesas carregadas d'estatuetas,
marfins, velhas miniaturas, bocetas esculptadas: espelhos de metal,
tenebrosos, por cima dos canapés, fazendo surgir da sua agua verde,
esqualidos phantasmas d'enforcados: roupões de grandes desenhos na
espalda dos tamboretes: e defronte do leito, um enorme divan com os
cochins em desordem, alguns atirados, e livros por cima, cujas folhas
os galgos iam passando entre as patas, por distrahir-se, nos
intervallos da somneca. De cada um d'esses pormenores, um braço sahia
e apontava um capricho, escaninhos velados de religião instinctiva,
qualquer coisa de cavalheiroso em que palpitava uma raça, ou se iam
espreguiçando as passivas mollezas da anemia hereditaria. Lentamente,
os olhos de Luiza afizeram-se a divagar por toda aquella confusa
penumbra. Pela direita, acima do genuflexorio, n'uma especie de
tryptico negro, havia um quadro: era estranho: duas mãos brotavam da
carbonosa noite do fundo, implorativas, mãos d'asceta devorado pela
tentação: uma cabeça funebre movia-se nas sombras d'um capuz,
insistindo em affirmar o quer que fosse d'asperrimo--se a lampada
gothica de tres bicos, cahida do tecto, oscillava, no tom mortiço que
as luzes têm de dia, mesmo ás escuras. Aquillo parecia um templo, sob
a agonia terrivel da lampada. Mas já lambendo o muro, o clarão d'ella
fazia valer tropheus d'armas, radiando d'estapafurdias panoplias: a
mitra d'um bispo, cravejada de joias, um parasol de coiro arrancado ás
escavações d'um templo romano, em Evora, peitoraes d'uma antiga cota
sarracena... E dir-se-hia uma sala d'armas então. Porém do outro lado,
a luz ia aclarar perto do leito, um perfumador de cobre sobre tripé de
bronze. Luiza reparou. Ligeiros fumos fugiam á tona da caçoila,
espojando arômas de flôres de Takeoka, bolas de styrax, coiro da
Russia, jasmins... E santo Deus! a narina farejava lupanar. De quando
em quando, as cortinas do leito mexiam, e pelo ar respirado da peça,
aquelles perfumes torpidos erravam, n'essa calentura das alcovas
habitadas pela reminiscencia de muitos amores sobrepostos. Luiza
sentia-se desfallecer, á idéa d'outra mulher antes d'ella, ter
captivado o estudante. Mas que mulher? dizia a camareira
emparvoecida. O nome d'ella? O feitio d'ella? Dentro do palacio, por
mais que procurasse, não descobria uma rival. Sua irmã não era bella:
e fatigada, arrastando saias de barra immunda... Na cozinha, as
creadas, todas feias de perder os sentidos. Alguma creatura de fóra?
Isso é que não! De noite, Luiza rondava os corredores: a galeria que
abraçava exteriormente o quarto de Ruy, era Luiza que lhe fechava a
grade de ferro, aberta sobre os jardins. E irresoluta, tinha um suor
na raiz dos cabellos. Aquelle sonso! Aquelle vil!--A sua primeira gana
tinha sido correr ao leito, afastar as cortinas, ir contar tudo á
senhora. Mas um terror apoderára-se dos seus membros. Que medonha
noite na sua alma, que singular e perfida violação do seu destino,
quando ella visse com os seus olhos, palpasse com os seus dedos, o que
já alcunhava de traição a uma fé que ninguem lhe havia ainda jurado! E
lá dentro, n'aquelle infame ninho de volupias, sempre o murmurio de
beijos e suspiros. Urgia emtanto chamal-o para o almoço. Já no pateo
havia rumores de vozes e relinchos de cavallos. Luiza sahiu pé ante
pé, para entrar outra vez com grande ruido de portas atiradas. Mas
ainda ella não transpunha a área de resguardo marcada pelo biombo, Ruy
sahiu do leito com impeto, muito pallido, vestido apenas d'uma camisa
de sêda: e vindo a ella, volubilmente, abraçou-a a plenos braços,
deu-lhe um beijo furioso na bocca, e de rodilhão pôl-a fóra, fechando
a porta sem mais explicações. Foi n'aquelle idyllio triste a unica
impressão feliz que ella sentira: e todo o dia, toda a noite, lhe
sabia a bocca áquelle beijo de rapaz que lhe entrára na carne pela
furia virulenta da lingua.

D'alli a pouco, os caçadores deixavam o pateo direito ao laranjal.
Luiza chegou-se ao terraço a vêl-os partir. Era o resto. Alberto M.,
empurrava para a porta Marquez das Flôres, retardado em dizer
madrigaes á camareira. Festejado Mattos ia bifurcado n'um burro,
immovel como um bonzo por baixo d'um grande chapéo de esteira do
Algarve, entre cabazes de provisões. Marquez de Selmes fôra o ultimo a
transpôr a porta. Reparando em Luiza, gentilmente:

--Tira a cabeça do sol, não adoeças.

E mandou-lhe um beijo nos dedos. Então ella alongou a vista para além
dos muros do pateo, viu Ruy pelo braço de Mattoso, conversando a
passos vagarosos.

--Menina Luiza.

Era Ezequiel com uma caixa de marroquim.

--Da parte do senhor marquez.

Luiza abriu o cofre, na ingenua expansão de Margarida ao atacar a aria
das joias, na scena do jardim.

--Joias, joias! e houve no orgulho d'ella, um romper do sol
vertiginoso.

--Para começo, é do melhor, dizia Ezequiel. E Luiza tocava n'um
bracelete ao acaso, com safiras e pequenas perolas d'agua duvidosa.
Havia mais um afogador, seu par de brincos, outra pulseira... E a sua
bocca sorria de pasmo, na sua cara enxovalhada de pejo.

--Vale quarenta libras, toda esta caganifancia, quarenta. O homem faz
limpamente os seus negocios, dizia Ezequiel. Eh! Eh! ponha lá as
pulseiras, menina Luiza:--abriu uma.--Que lindeza! Metteu-lh'a no
braço. É para vêr como fica.

Luiza toda se arrepiava ao frio do metal na pelle trigueira do seu
punho. Lembravam-lhe aquelles beijos na camara de Ruy, pela manhã. E
fechou o cofre de repente, dizendo a Ezequiel que o tornasse
a levar ao marquez. Com certeza houvera engano. Ella não podia aceitar
presentes d'aquelles.

Então c'o gesto grave, Ezequiel:

--Nada, nada. Seu amo ficaria fulo, se visse as joias recambiadas.

Mas Luiza não o escutava, nem ouvia. De novo, o ciume lhe fizera
derivar a attenção por outra corrente.

Oh, a mulher que estava com elle! Não poder ella agarral-a sem
testemunhas! Não lhe poder tomar o nó da goela entre os pollegares
furiosos; e desagregar-lh'o, e esmagar-lh'o fazendo-lhe espalmar a
lingua para fóra da bocca, até á base toda sangrenta nas mordeduras da
agonia! Via-o então apparecer d'entre as cortinas--como elle vinha,
lesto, branco, em sobresaltos!--na sua esguia camisa de sêda, vermelha
e longa, muito franzida á volta do pescoço, e toda ella moldando a
estatura elançada d'algum d'esses reisinhos loiros das phantasmagorias
poeticas de Shakespeare. E o beijo que lhe déra, tão sapido de
delicias inéditas, bocca a bocca, Luiza tinha-o sempre no fremito dos
seus labios, e guardava-lhe o perfume no halito, como se o embalsamára
uma pastilha de harem.

--Além de que, tenho fé que a menina vai d'aqui a pouco mudar
de tenção. Olá se vai!

--Que está a rosnar, Ezequiel?

--Nada, nada. Aceitar, que quer dizer? É um presente: meu amo não pede
nada por elle. D'ahi, seria a primeira vez... Eu cá recusei deitar-me
co'a viuva, que era barbosa e medonha, mas sempre lhe fui recebendo
bom relogio de oiro. Gente pobre põe de banda orgulhos tolos. É metter
n'algibeira, menina Luiza. É de boa creação.

Luiza ficou cogitando. Joias tinha-as ella visto nos gavetões da
marqueza, em grandes cofres de setim desbotado: estylos modernos,
velhos estylos, todos os metaes, todos os esmaltes, pedras de todas as
aguas e de todas as côres. O mal da pedraria, que faz cúpida a mulher
do alto luxo, Luiza não podia soffrel-o ainda, no seu humilde papel de
camareira. Vagamente ella entrevia a seducção d'aquellas faiscantes
areias, que os romances acclamam como talisman de todas as concessões,
sem todavia desconfiar que atmosphera mordente põem de roda á belleza,
as fulgurantes pedras lapidadas. Ir contar tudo á senhora marqueza?
Boa idéa. Luiza foi aos aposentos da enferma. Ahi lhe daria o ataque
de nervos, desharmonia na casa, e talvez para ella o olho da
rua... Muito embora! Entrou. Mas logo ao entrar ouviu tossir. A velha
passára mal durante a noite, vomitos sêccos, uma ponta de febre, e a
manhã passou-se n'isto. A marqueza não tinha querido erguer-se da
cama, e ouviu missa mesmo deitada, pela porta entreaberta do oratorio.
A cada momento, Luiza tinha que voltal-a, trazer-lhe um livro,
executar uma ordem, aconchegar uma cortina, vêr o tempo. E só pelo
meio dia pôde tirar um bocado para se ir vestir. O quarto d'ella era
junto aos aposentos da senhora, com uma porta sobre o grande corredor
que levava aos quartos de Ruy, não longe dos quaes demorava Ezequiel.
E Luiza começou um _toilette_ minucioso e cuidado. Ao canto fumegava o
banho, em que ella entornára meio frasco d'agua flórida. E sobre a
commoda, o cofre aberto, deixava vêr os presentes do marquez. Das
gavetas saccou Luiza a roupa que precisava: uma camisa d'abertos, bem
fina e trabalhada por ella, saias brancas--era um domingo--e d'uma
gaveta pequena, o retrato de Ruy que poz á vista, sobre o pequeno
movel de cabeceira. Já uma a uma, as saias d'ella iam cahindo, diante
do espelho, com a friorenta graça, um pouco crispada, d'um
faisão que se banha no regato, ruflando as plumas, depois de haver
bebido. E ainda apoiando ao seio a camisa, que despira, espremeu
d'alto, vagarosamente, sobre a tina, a esponja ensopada em agua
tépida. Desnastrára os seus cabellos, que eram grandes, espiralados,
bem fartos, reluzentes e negros, torcendo-os após sobre a nuca, n'um
grande molho de serpentes, como nas estatuas classicas, os cabellos da
Venus aphrodite. Espiralitas doidas, carrapitos finos, muitos
frisados, soltavam-se-lhe do turbilhão de cabellos, por brinquedo,
cocegando-a na pelle doirada do pescoço. Emfim a camisa cahiu; e era
assim adoravel de nudez, triumphante de mocidade, cheia de revelações
e surprezas virginaes. Quasi morena, a sua pelle vestia uma carne
rija, symetrica, cantando sonatas perfidas de volupia, em que resoavam
estribilhos de dentadas, gritos hystericos, spasmos e soluços
d'insaciavel peccado. Mesmo, á volta da banheira, dirieis que as
coisas abriam palpebras, e por entre as palpebras, olhos que a
fitavam, furiosos de deboche, gritando infamias por centenas de boccas
invisiveis. Ui! como a sua divina garganta, rapazes, parece
crystallisar em bellezas inéditas, toda a luxuria em que as gerações
têm urrado, sedentas da fórma, ha tantos seculos! Que bazar de
tentações delirantes era o seu peito, que duas pétalas de rosa
maculam, tão altas, tão iguaes, tão erecteis, que antes pareciam
beicitos de criança, estendidos n'um momo candido para aceitarem o
beijo d'um velho amigo da casa.--E mergulhou, espanejada, dilatada de
prazer, cantarolando baixo uma cantiga. A espaços chapinhava a agua,
immergia, tornava a cahir, amollecida n'um desejo, sonhando noites de
nupcias com elle, sobre o leito de cortinas sombrias, onde as suas
respirações se estrangulassem entre um murmurio de beijos e suspiros.
O retrato de Ruy nem a fitava, receando a perscrutação impreterivel
dos seus olhos, e o jugo d'aquelles braços, absorvente e pantanoso.

Uma hora no relogio do corredor.

Ainda agora Luiza não sabe explicar, como é que tendo jurado a si
mesma, recambiaria o estojo ao marquez, se encontrou no fim do banho
em frente ao espelho, núa como Cypris na areia de Cythéra, ensaiando o
effeito do afogador e dos braceletes, na pelle rosada ainda dos
attritos da esponja. Á medida que ia fixando sobre o espelho, tantos
e tantos detalhes de perder a cabeça, passava no clarão dos seus olhos
o mudo extasi de si propria, e a coriscação do oiro novo, nas
flocosidades brunas da garganta e dos hombros. E comsigo mesmo acabou
por achar razão a Ezequiel. Por fim de contas, aceitar que quer dizer?
É um presente. O senhor marquez não pede nada em demasia da offerta.
Virava a cabeça para vêr o luzeiro dos brincos, ageitava o colar,
punha as pulseiras... Deliciosa, fascinadora, appetecivel! Se Ruy
pudesse vêl-a a plena luz, assim despida, e sem a hypocrisia do mais
ligeiro véo, talvez que elle sustasse de vez tantas repulsas--ai,
talvez!--e viesse cahir-lhe aos pés absorvido na sua belleza immortal.
Oh, como da esbelteza nervosa dos dois corpos, ventre a ventre, se
evolaria o poema de mysteriosas caricias n'esse instante, rimado a
beijos, labio a labio; esse divino poema, através de cujas estancias
rola a batalha do gozo, e do calice de cujas imagens gotteja a
tripla-essencia das mais celestes devassidões! Duas vezes ou tres
desenrolára a camisa, esfregando-a da gomma entre as mãos
sobresaltadas: e ainda por fim se adorava no espelho adulador, furiosa
por dar-se, n'um paroxismo que ia até ao deslumbramento. De repente
pareceu-lhe ouvir rumor no quarto proximo. Enfiou a camisa á pressa,
atarantada; pé ante pé foi indo de mansinho até á porta, receosa,
d'ouvido á escuta occultando a nudez por traz dos reposteiros. Não se
enganára. Estava entreaberta a porta do corredor. Então lançou um
chale pelos hombros, enfiou as chinellas á pressa, sem se atrever a
perguntar quem andava lá. Mas deu um grito de susto, vendo Ezequiel
diante d'ella, lívido de morte, tremulo e babado como um satyro
decrepito.

Luiza apenas tivera tempo de acocorar-se a um canto da peça, buscando
encobrir-se toda no chale, pallida de vergonha e gritando ao malandro
que se fosse.

Porém este, apopletico, nem fallar podia, fulminado por aquella visão
de mulher núa, e com o cuspo a espessar-se em grossos fios nos cantos
da bocca.

--Aquelle ruivo, menina Luiza, tartamudeou elle por fim, rolando os
olhos,--o que faz versos... Entregou-me este papel para vossemecê.

--Bem, bem, vá-se embora. Ande! Não ha maior atrevimento.

--Ouve, Luizinha, rica filha, eu já me vou. É uma coisa que
eu trago aqui guardada. Des'que te vi. E tão núasinha, tão boa, Jesus
do céo!

--D'aqui p'ra fóra! Já! Ou chamo gente.

--Os outros querem-te por uma vez, pai, filho, moços e velhos, anda
tudo atraz de ti. É uma canalha, já t'o disse, é uma canalha. Até me
propuzeram que te amordaçasse, uma noite, p'ra se refocilarem comtigo,
aquelles ladrões.

A sua voz rastejava, o seu aspecto era terrivel.

--Pelo amor de Deus! supplicou elle. Ouve-me ainda.--Estou quasi rico.
Estou velho. Oh, chega-te a mim! Podemos casar. Ámanhã. Hoje mesmo.
Filhinha! Que és bonita d'offender a Deus no céo.

Estendia os braços para cingil-a, co'a lingua sêcca na bocca, e
alongando os beiços lividos contra os claros de nudez que lobrigava.

--Anda commigo. Sahirás d'esta espelunca. Só em Lisboa, tenho doze
contos no banco, á minha ordem. Pratas, inscripções arrecadadas ao
canto do meu bahú. Ouve, Luiza! Tu matas-me, diabo! tu estás deitando
a minha alma no inferno. Um beijo só n'essas carninhas.
Deixa dar. Que mal te faz?

E vergado á tremura senil dos debochados, Ezequiel cambaleava,
crispava-se, indo para ella de rastros, assim como um cão leproso
conquistando a codea que lhe negam, sob golfões de chicotadas.

--Não tenho herdeiros. Um pobre velho! De hoje p'r ámanhã posso
morrer. Lembras-te do que te tenho dito? Os conselhos, os mimos...
tristezas que eu soffro por causa de ti. Eh! Eh! Está decidido que
aceitarás.

Então conseguiu agarrar-lhe um braço, o que desligou Luiza das algemas
nervosas que a sustinham, estarrecida, perante o sapo de cujo visco
escorria tanta lascivia torva d'impotente. Houve uma lucta. Os
cabellos de Luiza rolaram.

--Larga-me, ladrão! dizia ella n'um choro baixo, rapido, soluçando em
convulsões. Comtigo, nem morta, estupor! Doira-te, a vêr se eu te não
cuspo n'essa cara. A tua vida, todos a conhecem. Devias andar na costa
d'Africa, amarrado com cadeias a algum canzarrão da tua parecença.
Larga-me, larga-me, quando não dou cabo de ti!

Elle porém, retendo-a, sem violencia ainda:

--Tu deves lembrar-te, Luizinha, do bem que eu te tenho
feito. Os teus desejos, ando a adivinhal-os. O teu nome é-me sagrado
em toda a parte. Pelo amor de Deus! Pelo amor de Deus!

--Rua d'aqui! De quem eu gosto é do menino. Eu hei-de ser d'elle por
força. Inda que eu haja d'entrar na vida depois.

Os dentes do velho rangeram. Chorava, ria, esse homem, cobrindo o
peito de baba; era assombroso de vexame! Luiza conseguira libertar uma
das mãos; e pregou-lhe nas ventas uma bofetada medonha. Áquella
affronta, Ezequiel perdeu a cabeça. As obscenidades golfaram-lhe da
bocca, como granizos espessos, pintando toda a decrepita infamia da
sua alma. Ella estava de pé junto da porta, quasi núa, sem se
importar. Tinha no collo e nas orelhas as joias que lhe mandara o
marquez. O velho viu-as.

--Eh! Eh! Sempre aceitaste o cofre de meu amo. Já lhe posso ir contar
que o mais difficil trabalho está vencido. É melhor ser amásia de
fidalgo que mulher de creado de servir. Inda tu procedeste com brio.
Ha marafonas honradas! Podias ter escolhido as duas profissões ao
mesmo tempo. Ella ria-lhe na cara. E o miseravel, volvida a
crise, apresentou-lhe as ultimas concessões. Ajoelhára. E jurou-lhe
consentiria o adulterio. Dava-lhe as suas riquezas por uma noite só
d'intimidade. Casada com elle--ao dia seguinte, podia partir com
dinheiro dos seus cincoenta annos d'escravidões e economias.

Luiza não retrucou: agarrára um papel de cima da cama.

  Deliciosa aranha delicada...

Mas casualmente, erguendo os olhos, viu na bandeira da porta tres
cabeças gravemente assestadas á vidraça, gozando a comedia com a paz
d'alma de bons espectadores das galerias. Marquez das Flôres tinha um
grande binoculo com que a mirava. O poeta estava em extasi. Do
festejado Mattos mal se via a careca luzente, como era mais pequeno, e
uma ponta do nariz guloso que vinha adejar contra os vidros, como um
focinho de morcego encandeado contra a luz d'uma fogueira.

       *       *       *       *       *

Perto da quinta, sobre um outeiro coberto de cevada verde, do outro
lado da aldeia, houvera de tarde uma festarola d'ermida.
Todas as creadas tiveram licença para ir até lá, depois do jantar,
excepto Luiza que estava de serviço á marqueza, e Ezequiel que, já
velho, quizera ficar junto de seu amo. Dos terrados do palacio via-se,
já noite, a foguetaria estrondeando no adro, e clarões de fogueiras
lambendo as saias das moças na sarabanda dos bailaricos. De quando em
quando, uma labareda mais clara desenhava no azul profundo a branca
fachada da igreja, d'onde sahia um campanario em agulha, cujas sinetas
desde a manhã tagarellavam festivamente. Extinctos os rumores das
officinas, no andar terreo, silenciosas as cocheiras e mais
dependencias da casa, toda a enorme residencia dir-se-hia acachapada
n'uma somnolencia lugubre, entre a confusão dos arvoredos. Apenas nos
quartos da fidalga cochichavam tres ou quatro velhas damas das quintas
perto, que tinham vindo de visita, aproveitando a aberta do dia santo;
e na casa de jantar, logo depois do café, o jogo começára entre os
convidados do marquez.

Sósinha no terraço, Luiza seguia a curva dos foguetes no céo
primaveril, esmagada pela espantosa scena com Ezequiel. Queixar-se...,
ella tinha pensado em queixar-se. Mas Ezequiel contaria a
scena do afogador e das pulseiras, a sua loucura pelo Ruy, e todas as
tagarellices que a pobre cahira em confiar-lhe. Á tardinha, vencida de
remorsos, ainda ella ousára ir com o estojo ao marquez, a recusar-lhe
nitidamente aquellas offerendas que não merecia. Elle olhou-a com a
bondade um pouco ironica que costumava ter.

--Meu padrinho, eu vinha...

--Ah, não me agradeças, pequena. Sei da companhia que fazes á senhora.
É uma lembrança de minha parte. Nas raparigas bonitas é que essas
coisas dizem bem. Vai.

E Luiza não tivera coragem d'insistir.

Essa noite, Ruy que passeava, fumando, ao longo da balaustrada,
observou-lhe:

--Estás com pena de não ter ido ao arraial?

--Eu cá sim! respondeu ella. Olhe que ha de ser por lá uma balburdia.
Se lá estivesse, o que eu fazia era voltar.

--Ainda é tempo, se queres. Minha mãi dá-te licença.

--Ai, não. Gosto pouco de romarias.

--O que é que tens então? Pareces triste. Pareces doente.

--Eu não tenho nada, menino.

Elle fez mais duas vezes o comprimento da balaustrada,
lentamente, fumando: e o seu passo não fazia ruido sobre o xadrez da
plataforma.

--Só se te zangaste esta manhã... Foi brincadeira minha, não faças
caso.--Mas Luiza sorriu-se: zangar, porque?

--Eu sei! Podias não ter gostado.

--D'um beijo? Ora! não vinha talvez p'ra mim.

Ruy tossiu um pouco. De cada vez que elle dava costas, os olhos de
Luiza seguiam-n'o. E a sua figura perdia-se no escuro, ficava um
instante indecisa entre as sombras das arvores. Luiza aguardava então
que elle voltasse, com extasis de devota, e quando o lume do seu
cigarro apparecia, ella retomava a sua postura de Manon batida.

--Já sei, que tem um namoro, disse ella em voz baixa, ao fim d'um
esforço.

Elle voltou-se.--Eu!

--Tem, tem.

Ruy estava muito familiar.

--Póde ser. Na vizinhança ha bonitas raparigas.

--Não, não, cá em casa.

E o pequeno rindo.--Então és tu.

--Ai, a mim ninguem faz festa. Acham-me feia.

--Ao contrario. Toda a gente anda por ahi a fazer-te a côrte. Eu
percebo.

--Esses!... disse ella, fazendo olhinhos de gata sobre Ruy. E encolheu
desdenhosamente os hombros.

--Mas, emfim, quem namóro eu?

--Não disfarce. Quando entrava no seu quarto esta manhã, ouvi...--Já
elle proseguia no giro interrompido, como se entendera a indiscrição.
Essa vez demorou-se mais. E ao topal-a, bruscamente:

--E tu que recebes presentes! Dizes que não.

--Ah, sabe.

--Esta manhã.

--Á hora dos beijos... juntou Luiza para lhe metter ferro.

Elle tinha ficado nervoso.--Hein? presentesinhos...

--Quem m'os deu explicou-me o motivo porque m'os dava. A minha recusa
seria prova de soberba, e tinha de passar por desagradecida aos olhos
de meu padrinho.

--Quero dizer, eu não me importa...

--O tal Ezequiel que enxafurda os outros na calumnia, devia
lembrar-se das muitas infamias da sua vida. Olhe que se eu quizesse
fallar!

--Não. Isso cautella. É um creado velho, elle prudente, elle fiel...
Emfim, agrada-me.

--Deus fará com que se desilluda, menino, quanto mais depressa melhor.
Mas ao menos, devia ter-lhe contado tudo, o intrigante.

--E achas pouco? tornou elle em ar de mofa.

Luiza interdicta, não sabia bem ao que elle se estava referindo.
Ficaram calados.

Até que resoluta, um pouco tremula, pondo-lhe as mãos sobre as mãos:

--Ha uma pessoa só de quem eu gosto, disse ella.

--Cá em casa estão muitas. Provavelmente gostas de todas.

Ella dava grandes suspiros, afflicta: e desatou n'um choro
subitamente.

--Mas vamos! Que é isso? Porque choras tu?

--Não é nada, não é nada...

--Não, isso has de dizer.

Ella deitou-se-lhe aos joelhos, e n'uma anciedade:

--Oh não me deixe! Não me deixe! Se elle soubesse! Era tão
desgraçada, tão maldita! Todos na casa queriam perdel-a; Ezequiel
antes de todos, lhe infundia um pavor funebre e desgrenhado. Que mal
fazia ella? Porque insistiam em lhe fazer sentir a sua falsa posição
n'aquella casa?

--Mas cita os nomes, conta o que te fazem, insistia Ruy por acalmal-a.

--Não sei, não sei, dizia a rapariga: e soluços bruscos abalavam-lhe o
peito. Era uma angustia que a tomava, uma tristeza que lhe vinha sugar
o coração. De noite acordava espavorida, com um novello nas goelas,
sem poder respirar. Tinha que dormir fechada á chave, por sentir
passos de roda do seu quarto, sombras fugindo na curva dos
corredores... Tudo lhe parecia hostil n'aquelle palacio agora... os
olhares dos homens, as tagarellices das creadas, os proprios rumores
indistinctos d'altas horas.--Ezequiel dissera que a havia de perder.

--Olha a mania! Ezequiel não passa d'um pobre velho.

Ella quasi o cingia pela cintura, estreitamente, fazendo-se pequenina,
e como se quizesse abrigar-se no concavo das suas axillas. Supplicava
em voz surda, com a bocca collada ao peito d'elle. Dirieis
uma liana de martyrio enlaçando a haste flexivel d'um cipó.

--Não, não, menino Ruy. Luiza bem adivinhára os intentos d'aquelle
homem sinistro. Elle queria-a. E ousára dizer-lh'o com que palavras,
sabe Deus!--E outros ainda. Marquez das Flôres, que outro dia, ao
encontral-a no jardim... Finalmente Biscaya vinha arranhar-lhe á porta
do quarto... O ruivo mandava-lhe poesias... Nas cozinhas, em ella
entrando, todas as moças tossiam como se lhe soubessem d'um pôdre. Até
os da cocheira tinham ousado chalaças crúas, quando succedia
toparem-n'a de perto. E Luiza tremia, Luiza perdia a cabeça!--Uns por
ciumes da protecção que os senhores lhe dispensavam; outros por maus
desejos que ella sempre tinha repellido; e todos buscando precipital-a
da sympathia de Ruy e da marqueza. Oh, já não sabia como fugir áquella
calcinante atmosphera de odio e rancor.

--Casar, disse elle. É o que deves fazer. E o seu olhar evitava-a.

--Casar, ella! quem queria uma mulher sem fortuna, e com a educação
mais alta que o nascimento? Os habitos que contrahira n'aquella casa
prohibiam-lhe de se unir a um qualquer homem do campo que ella de
resto não saberia amar sinceramente. Esses mesmos habitos haviam
compromettido a serenidade da sua consciencia, e quem sabe se
auctorisado os desbragados propositos dos que buscavam perdel-a?
Mesmo, a sua razão tresvairava: era necessario um esforço desesperado
para varrer da cabeça as loucuras que por lá corriam.

Loucuras, sim?

Ella não delirava. Casar com este ou com aquelle, tudo era cahir do
sonho radioso a que se afizera primeiro. O homem que ella adorava,
jámais poderia sem descer, tocar-lhe com os labios na testa. E o seu
futuro, ella bem no via, descendo n'uma espiral d'angustias e
desalentos. Em creancinha, quando o menino estava ausente, Luiza
dir-se-hia no palacio a filha unica da marqueza, que todos acariciavam
de passagem, buscando por ella captar a benevolencia da fidalga. A
felicidade era tão facil d'aprender! Assim se fôra educando, como se a
destinassem a algum homem de condição superior. Até a familiaridade de
Ruy, n'aquelle tempo, lhe ajudára a fomentar a sua illusão de
grandeza. Agora Ruy estava um homem--adeus encantamento!
Luiza teria de voltar a ser uma guardadora de porcos.

Elle apadrinhou-a com um magnifico gesto fidalgo. Quasi nem metade das
suas palavras ouvira, porque havia um instante, surpreso, se escutava,
sentindo-se invadir d'um sentimento indefinivel, delicioso,
inquietante, que lhe ascendia no sangue, e o esbraseava no mais
recondito da sua carne, e lhe punha fervores pela nuca, até ás fontes,
como se fôra um veneno. Aquillo espraiava-se n'elle em bruscas ondas:
era uma sensação inexplicavel de vaga delicia, sobresalto, receio,
queimadura... Já trinta vezes quizera afastar Luiza, sacudir os
filtros que vinham da sua provocadora belleza, retomar o seu bello ar
de principe herdeiro, impassivel aos arrulhos do serralho: e outras
trinta sentira faltar-lhe a coragem. Entrou então a dizer-lhe
consolações ao acaso. Ella estava por força na sentimentalidade
ephemera d'um mau momento, vendo côr de cinza por uma ennublação
instantanea da sua viveza de rapariga--nem admirava, com a doença da
senhora marqueza... E senão, que queria dizer tudo o que lhe ouvira?
Das suas palavras, não resahia uma só causa de soffrimento
legitima. Era quasi tudo pesadello romantico, trahindo a crise dos
nervos convulsivados, hemorrhagia sem lançada, preludio d'amor
latente, que fluctuava ainda sem escolha d'idolo. No fundo d'essa
avenida de projecções melancolicas, era evidente que a sombra d'um
homem adejava, mas sem physionomia, sem cabeça... uma insurreição do
feminino em cata de nupcias. As mulheres aos vinte annos vibravam
todas n'aquella passageira crise do sexo reclamando o culto para que
foi votado. O necessario agora era pôr uma cabeça sobre os hombros
d'aquella translucida apparição, dar-lhe face, dar-lhe caracter,
dar-lhe nome... Finalmente, tornar o phantasma em homem!--E sorrindo:
hei de procurar-te um noivo, deixa estar.

Luiza erguera a cabeça.

--Tu?

Surprehendido, elle encarou-a. Viu-lhe o perfil dealbado por um
lampejo da sulfatara interior, e a lascivia da bocca aspirando o
halito das suas benignas palavras.

--O meu noivo, balbuciava ella n'uma especie de amoroso delirio,
poetisado pelas cadencias da voz debordando em melodias. Procura-o
perto. Talvez te não responda, apesar dos meus suspiros que
o chamam, noite e dia. É uma estranha creatura, esse noivo, bella como
a apparição do Christo a Santa Thereza, porém fria e fatal aos que se
lhe approximam. Só prostrada na terra eu ouso chegar-me a elle, como
um reptil a uma corça branca dos bosques. Entre nós, eu bem conheço,
ha o boqueirão d'uns poucos de seculos de cultura. Quero preencher com
a minha belleza esse formidavel precipicio que me prohibe de o adorar.
Ai de mim! Embalde os meus braços tremulos se lhe estendem, e os meus
olhos extaticos vão pousar-se, como pombas, no esplendor da sua
belleza tão pura. Elle não quer ouvir os meus soluços, nem derramar
nos meus cabellos a calorosa uncção das suas caricias. É nobre, é
altivo. O seu destino o preserva das minhas traiçoeiras ciladas. Todas
as aflicções da minha alma, todas as reluctancias da minha juventude,
dias de esperança, noites de delirio, nostalgias a olhar do angulo
d'um terraço o cotovello d'estrada por onde a sua carruagem se
sumiu... tudo ahi fica murcho e desfeito no caminho dos seus passos,
sem que elle volte a cabeça para me lêr no branco dos olhos a
cruciantissima dôr que a sua pisadura fez verter. Annos e
annos, esta cegueira luctou por captivar-lhe a misericordia, sem
reparar nas concessões infamantes que a minha alma ia fazendo aos
desejos que a torturavam. Quiz transfigurar primeiro o meu amor n'um
celeste e casto poema, todo espiritual, todo intimo; subtilisal-o em
dedicações, impôr-lhe sacrificios... devotar-me emfim á sua
felicidade, calando o grito do meu coração que reclama sem partilha,
essa creatura em que elle não póde pensar sem deslumbramentos.
Protesto inutil! Filha de grosseiras gentes, puidas de miseria, e
fazendo do vicio desforço para amordaçar o desespero, estava escripto
que eu havia de andar a rojo, como a serpente, tentando a claridade
immortal da sua adolescencia.

Luiza calou-se, arquejante. E os seus cabellos roçavam pela bocca de
Ruy, mordicando-lhe a pelle do queixo com uma titilação imperceptivel.

--Emfim, a minha paixão chega a um limite e rebenta, prevendo o
instante em que elle me vai fugir para não voltar. Oh não me abandones
tu!

--Vem gente, tornava Ruy n'um sobresalto.

A mesma loucura os tomava e fazia pulsar estreitamente
unidos, assim como n'uma bocca muda, um labio a outro labio.

--Não! É um minuto mais, dizia ella. Eu já não sei o que digo. A idéa
de que outra mulher terá beijado a tua bocca tira-me o somno, e o meu
sangue tumultua e allucina-se desde que perdi a esperança de te
captivar a um simples fremito das minhas sobrancelhas. Eu não te peço
um desses amorfos e dessorados amores que sob a umbella da igreja
podem mostrar-se a toda gente, na atonia estupida em que a lei
amosenda as _fioriture_ do coração. Tornei-me um animal de luxo, não é
assim? cuja posse disputam em tua casa esses homens. Então escolho-te!
Estou no meu direito. E como uma escrava, estatelo-me no chão que tu
pisas, para que me esmagues a cabeça depois de me haveres cingido, uma
vez só que seja.

Ella cahira-lhe aos pés, e beijava-lh'os com a exaltação d'uma louca e
os phrenesis d'uma enfeitiçada. N'aquele instante, Ruy nem sequer teve
um gesto para apanhal-a do chão. Fizera-se muito pallido. Os seus
braços tinham cahido. E um terrivel sorriso zigzagueava na sua bocca
enygmatica. Dirieis uma creança, que chegada ao fim d'um
bello conto, subito se desencanta do entrecho, e passa adiante, sem
lhe ligar mais attenção. Assim elle entrou nos quartos da marqueza,
bruscamente, deixando-a prostrada nos primeiros degraus da escadaria.

Por conseguinte, Ruy tinha-a recusado, depois de a ouvir monologar
como uma actriz fastidiosa. Interdicta e buscando vencer o asco que de
si mesma lhe vinha, Luiza escutava o furioso debater da sua vaidade
sacudida na estriadura d'aquella humilhação. Sahiram as visitas,
voltaram da festa os creados, que pouco a pouco, ceia finda, iam
desertando para os seus dormitorios. Luiza trouxe o caldo á marqueza,
vazou-lhe o calice de Madeira com a mesma solicitude machinal, sem ter
reparado na escarradeira cheia de sangue, na somnolencia e na pallidez
da pobre dama. Renovou o azeite da lampada do oratorio, desceu á
cozinha onde sua irmã pela centesima vez insistia em lhe aconselhar o
casamento com Ezequiel, como mastro de _cocagne_ para a familia
inteira: e de joelhos, na capella, para as rezas da noite, por mais
que fizesse, o seu espirito perdia-se em oceanos de magua: até que
afogueada, estupida de scismar no seu destino, veio ao terraço banhar
a cabeça nas brisas da noite.

Os ultimos romeiros desciam do monte, e amadornavam por esses caminhos
os echos das cantigas, deixando atraz de si n'uma espectativa lugubre,
a somnolencia espectral dos arvoredos. Uma livida noite amortalhava o
immenso descampado. Entre cerraceiros de nevoa, a lua minguante subia
por ondas de claridade torva, gordurenta, sem reflexos, como uma
agua-forte sinistra que rolasse as suas tragedias de cinzento,
desfazendo nos macissos as ultimas _nuances_ de paisagem. Ai, pobre
Luiza! Aquella repulsa fazia-a rolar na sua idéa a uma condição, além
de cuja ignominia ella julgava se não podia descer mais. Quanto daria
ella agora, a pobre tonta, por voltar a ser na estima d'elle a sua
companheira de brinquedos, a sua pessoa de confiança, a sua amiga, a
sua irmã?... e poder encaral-o com os olhos limpidos d'outr'ora, sem
córar por aquella scena de seducção premeditada, que até na propria
consciencia a envilecia! Agora ella olhava á roda de si cahida da
exaltação que a levára a cingir-se com elle, interrogando-se,
perscrutando-se, dizendo-se indigna de todas as commiserações.
Era uma mulher sem vergonha, quasi ignobil, que inspirára o
nojo, mesmo formosa, mesmo intacta, ao primeiro homem a quem estendera
as pomas dos seus desejos. Podia aceitar quaesquer das infamantes
soluções que lhe propunham: ser a amante do creado, ou ir saciar o
deleite ephemero d'um dia ao marquez e aos mais debochados do seu
sequito. O seu desejo extincto, tudo o mais lhe era indifferente; e a
morte começava d'ali por diante, com a frialdade do seu coração
prohibido de bater por alguem. Mesmo, não via outro destino além de
prostituir-se ou matar-se. Para ella o mundo começava em Ruy, acabava
em Ruy, e só durára no cyclo em que elle a trouxera enfeitiçada. Ruy
sequestrado ao seu amor: adeus mocidade, alegria chilreante, manhãs no
terraço á hora de dar alpista aos canarios, projectos, ardores,
phantasias, esperanças! Elle recusára-a: de que lhe serviam pois as
turgidas pomas, a cinta ondulosa de serpente, e o divino ventre de
geraneo e espuma, todas as expansões, todos os calafrios, todos os
mimos, de que a adolescencia avelluda e povôa o corpo da mulher? Na
contensão capitosa dos seus extasis, Ruy vira apenas a selvageria do
goso que extravasa em gestos de braços e na effervescencia
torpida dos beijos. Além da grosseira exterioridade lasciva e calida,
tudo o mais lhe escapára d'aquelle amor confessado violentamente,
refinamentos, fremitos, intellectuaes sobresaltos... o prazer dos
sentidos vibrantes á visão da pessoa que se adora... os infinitos
respeitos, supplicas balbuciadas por entre os dentes cerrados,
transluzindo ameaça--e delicadezas submissas d'escrava--e esse fluido
que sobrenada da alma amorosa, e enche de poesia tudo o que se palpa e
respira, em torno d'ella.

Desceu ao jardim, direita ao poço. Havia um silencio opaco e terrivel,
que pesava no ambito á semelhança d'um remorso que fibra a fibra
estivesse roendo um coração. O poço era largo, com uma nora por cima,
e a amura de pedra escancarada ao ar. Se ao menos elle diria
«Coitada!» quando lhe fossem contar como ella tinha morrido!... E
inhalava para se dar alento, grandes haustos d'ar frio. Os seus olhos
deram co'as janellas do palacio, illuminadas ainda. Eram, d'uma banda,
as janellas de Ruy, e da outra a lampada do oratorio, cuja porta abria
sobre o quarto de dormir da senhora marqueza. Vamos! era preciso ser
forte. Nossa Senhora estenderia os braços para impedir que ella se
despenhasse no inferno. E pôz-se a medir a queda, esburcinada no
boccal de pedra da nascente. Atafulhada de sombra, a pavorosa goela
não mexia. De quando em quando, uma gotta escapava-se dos alcatruzes
da nora, indo fazer lá no fundo um _plhau!_ glacial. Entretanto a
nevoa fazia aos arvoredos, _toilettes_ de gaze, para a festa funebre
de Luiza. Solicitamente o luaceiro vinha, aqui, além, tocar o bojo
d'uma perola d'orvalho, as transparencias d'uma renda de bruma, os
claros da argentea brancura immaculada... Ella desfolhou a rosa que
puzera nos cabellos. Ergueu o espirito para o alto, com uma doçura
branca de martyr; e persignando-se, enxugava as ultimas lagrimas. Na
calada começou então a retinir uma campainha. Nos quartos da marqueza?
Era a chamar Luiza. Oh pobre madrinha! Luiza estava já sentada á beira
do poço, prompta a escorregar-se á agua. Porém uma instantanea sombra
tinha passado nos stores do oratorio, cujas vidraças soaram no terraço
em bocadinhos. Que era aquillo? Alguma coisa de anormal se estava
passando. Quem gritára? Engano? Allucinação? Luiza fez um salto,
esquecida da morte, e deitou a correr para d'onde o barulho partia.
Quando entrou no quarto da marqueza, cahira pelas escadas, derribára
Ezequiel que vinha pelo corredor, rasgára as saias nas portas,
tropeçando nos moveis umas poucas de vezes. Viu a cama vazia e toda
cheia de sangue nos travesseiros. A porta do oratorio estava aberta, e
sobre a alcatifa, entre portas, a pobre senhora estorcia-se, quasi
núa, vomitando sangue em espumosas golfadas. Luiza agarrou-se a ella,
gritando que lhe acudissem: e em toda a casa, de repente, tinha sido
um alvoroço extraordinario. Ezequiel, que foi o primeiro a chegar,
inda viu a velha revolver os olhos, dar um estremeção que lhe retezou
as pernas ao comprido. E de repente ficou-se.

--Coitadinha, coitadinha! Está prompta, dizia o velho em tom beato. Eu
bem previa esta desgraça! Mas Luiza barafustava para que elle fosse
chamar depressa o marquez, e mandasse á villa buscar o doutor
Souza.--Depressa, depressa que ella vai-se-nos aqui sem sacramentos!
Elle abanava a careca, tendo remodelado na face a mascara patriarchal
dos dias serenos. Desolava-se muito pelos cantos. Como aquillo fôra
depressa! Uma coisa que ninguem esperava! Lá conseguiram
transportal-a para a cama. O corpo estava frio. Um dos braços,
levantado, cahiu inerte nas roupas, apenas o deixaram.--Está morta!
Mas ninguem vinha acudir! Que estava fazendo nos quartos toda aquella
gente que não ouvira os gritos d'alarme? Ezequiel entrava e sahia, ia
a uma porta, voltava á capella, idiota d'espanto, abanando as mãos,
sem saber.--Ah menina Luiza, menina Luiza; eu bem lhe disse esta
manhã. Chegou-se a ella:--O que ha de ser agora de ti?

A camareira não ouvia, agarrada á marqueza, e seguindo a installação
da morte n'aquella physionomia de cera. A sua rica madrinha! A sua
amiga! A sua unica affeição!

--Casa commigo, insistia Ezequiel. A minha vida é pouca coisa.
Deixo-te tudo. Casa commigo.

Já o marquez vinha entrando, com Ruy e os seus amigos, e toda a gente
da casa áquella hora estremunhada.

O fidalgo curvou-se para o leito: dizia phrases d'espanto, allucinadas
e d'um grande effeito decorativo.

--Mas, senhores, ella resfria! Oh fatalidade! e outras muitas, que os
amigos, um pouco lassos na digestão da ceia, trocavam por
outras da mesma polida complacencia. Compuzera um rosto d'afflicção
reprimida, conforme de rigor na circumstancia, e que foi muito
apreciado pelo que dizia dos seus affectos maritaes. Lagoaças e pai
Cezario tinham-n'o abraçado a tres quartos, dizendo--coragem! n'um
magnifico accento de contra-basso.

Quando de repente Luiza deu um grito, vendo os olhos da marqueza irem
ficando vitrosos. Alguns curvaram-se a vêr. Ezequiel e Lagoaças
trouxeram velas accesas. E o choro das creadas abriu de repente no
quarto uma ladainha horrifica de lamentos. Uma especie de teia
d'aranha revestia devagar as pupillas pallidas da morta.

--O espelho, o espelho.

Ezequiel trouxe do gabinete um espelhinho de punho ornado;
puzeram-lh'o á bocca.

--Inda respira!

Mas o pulso perdia-se. O coração queria calar-se. A aura hysterica
descorrelacionava os movimentos de Ruy, cujas mãos buscavam juntar-se
n'uma supplica frenetica de que ninguem fazia caso.

--Jesus! dizia Luiza erguendo os braços, entre as mulheres
de joelhos. Onde está o nome de Jesus não ha perigo á salvação. E as
rezas perdiam-se em ondas de soluços. Então o marquez tirou a boina da
cabeça, avançou dois passos com o espelho que já não embaciára,
collado á bocca da fidalga. E n'um tom alto:

--A senhora marqueza de Selmes morreu.



O SINEIRO DE SANTA-AGATHA


Ha quinze annos, vespera de Natal, n'uma noite bem frigida e chuvosa,
ia eu em jornada através das serras, caminho da minha aldeia, a fim de
consoar, conforme a velha usança, no aconchego patriarchal da familia:
quando a sege que me levava estalou com fracasso, desabando em bocados
pelo chão. A custo pudéra salvar-me do destroço, que a sege velha e de
correias, sobre duas grandes rodas esculptadas, esbarrondara de chofre
contra um amontoado de penedos, e o cocheiro contuso em muitas partes
do corpo, era quasi impotente para sustar os galgões dos cavallos
sacudidos pelo terror da derrocada. No meio das trevas, áquella hora,
sob a chuva sibilante, como encontrar agasalho?

Era no mais cerrado das brenhas. Lugubres penedias estacavam por toda
a banda.

Asperas montanhas pareciam vir a despenhar-se sobre as
gargantas estreitas da passagem. E nem a mais dubia fogueira de
pastores, casinholo de coutada, voz ou campanario, revelando a
proximidade de creatura humana! A muito custo podemos remover do
caminho as bagagens e destroços da pesada traquitana, eu, o cocheiro e
mais um velho creado que me seguia a cavallo.

Com fortes brados, aos quatro ventos do campo, fomos chamando alguem
que alli vivesse; mas nem sequer latidos de cão logramos saccar das
goelas carbonosas da noite. Sempre aquelle ruido prostrado, regular,
desesperante, da chuva nas urzes e pinheiros anões, que o vento trazia
e levava no mesmo agreste rythmo, como o jogo uniforme de uma joeira
que joeirasse d'alto, bagos d'agua frigidos, e crueis.

Por infelicidade, o cocheiro não era do sitio, e mal sabia dizer
d'aquelles caminhos incertos. Beja inda talvez ficasse a nove leguas
d'ali. Os cavallos extenuados não queríam marchar. E olhavamo-nos
interdictos, á luz da pobre lanterna que por milagre escapára ao
desastre.

Emfim, já nos decidiamos a ficar por baixo das azinheiras,
n'algum abrigo escavado da montanha, quando se ouviram badaladas de
sino distinctamente.

--Graças a Deus! exclamei eu todo alegre, que vamos ter guarida no
passal do bom padre ou eremitão que d'aquelle campanario nos está
chamando. Onde é, cocheiro?

O homem esteve sem responder um bocado. Era um alemtejão
supersticioso, tostado, leal, e gigantesco.

--Aquillo, senhor, disse alfim o colosso, fica por traz de cerros que
levam vinte horas a galgar a um homem. De noite, sempre os sons
parecem mais perto, e enganam uma pessoa nas contas que deita.

--Bom! mas que sino é aquelle? Convento, freguezia, castello ou casa
do diabo?

Vi o rapaz benzer-se com um movimento brusco, e lentamente ir
contando, que era o sino de Santa-Agatha, ruinaria maior que uma
cidade, com quatro torres dominando as chapadas dos montes, e casarões
aonde ninguem tinha ido desde que houvera lá fogo.--Ninho de demonios
e malfeitores! Em _trinta e tres_, a guerra civil correra lá,
farejando as riquezas do culto--as freiras tinham debandado pelas
serras, com os seus habitos brancos e os seus rostinhos
macerados--por quatro dias as chammas lamberam os sanctuarios--e diz
que duas ou tres religiosas, entrevaditas, centenarias, se deixaram
morrer nas suas cellas, cantando psalmos, por não haverem já parentes
e amigos, em cujo seio ir acabar. Agora só voltava ao mosteiro algum
maltez perseguido, ou pessoa empenhada em roubar cantarias, alguma
porta de carvalho, e restos d'alfaias sepultas nos entulhos.

Lentamente então, como um fumo d'incenso que oscilla subindo pelas
incertezas penumbrosas da neve, assim a lenda se formára e fôra
condensando, detalhando, subindo em espiras poeticas, dos claustros
gothicos da velha abbadia. E o cocheiro accrescentou:

--Pelos modos, os diabos dizem lá missa a deshoras, com mitras que nem
bispos!

--Venha essa lanterna, disse eu sem mais ouvir. Meia ração
d'aguardente e tabaco! Vossês abriguem-se ahi como poderem, que eu já
volto!

--Mas onde é que o senhor vae?

--Ora essa! á abbadia. Tocou-se á missa: o diabo já deve ter subido ao
altar. O cocheiro ainda quiz accumular obstaculos; até que vendo-os
sem resultado, apontou-me o caminho provavel do mosteiro, lá
longe, sobre as altas serranias, a cujo sopé se tinha desmantelado a
nossa berlinda de viagem.

       *       *       *       *       *

Pondo-me a caminho, confesso, foram-me os primeiros passos bem duros.
O terreno pedregoso abria fendas onde os pés se enterravam em lama;
tufos d'esteva e piorno vedavam a passagem, circumdavam-me,
prendiam-me o fato, ou vinham dar-me bofetadas nas faces com as suas
mãos pegajosas. E assim fui mais d'uma hora, tropeçando d'um lado e
cahindo d'outro, pelo espinhaço lugubre da cordilheira. Entanto as
nuvens desdobravam-se, menos espessas, correndo, té que uma claridade
de lua velada poude orientar-me na marcha.

Alguns corpos avançados da ruinaria começaram alfim a mostrar-se,
pequenas capellas com arcos gothicos, sombras esguias de cyprestes,
casarões onde bulia a herva açoitada pelo vento... Dez passos além,
achei-me n'uma alpendroada vasta de pedra, toda em arcarias de
capiteis mutilados. Ao centro murmurava uma fonte, cahida ás
gottas sobre uns restos de tanque esculpido; e via-se um portico ao
fundo, com feixes de columnelos, e nichos de apostolos em oração.

Mais dois passos e entrava na igreja. Parte da abobada tinha já
cahido. Arcarias altas, flexuosas, em series parallelas d'uma extensão
desmedida, iam até ao sanctuario. No parapeito d'um ou outro pulpito,
pendiam tapetes de hera--e por um bocado de muralha derrubada via-se o
claustro, contrafortes, arcos butantes, rendas de janellas manuelinas,
estatuas partidas, e montões de pedras lavradas que a vegetação
damninha ia vestindo, engolfando, no labyrintho das suas teimosas
grinaldas.

Lentamente, emquanto marchava entre as maninhas plantas da serra, eu
fôra evocando da nevoenta penumbra das minhas reminiscencias
d'infancia, a lenda que tantas vezes tinha ouvido contar, pelo
inverno, quando finda a ceia os pastores e couteiros vinham fazer
circuito comnosco, de roda do brasido, na cozinha abobadada da
herdade, cujas chaminés se erguiam dos tectos, como duas torres
quadradas de solar.

Lembrava-me de ter ouvido a minha avó, como a abbadia fôra
uma das mais venerandas casas de reclusão de todo o reino,
successivamente enriquecida pelos reis, visita de prelados, e refugio
de muitas princezas e bastardas que alli dormiam o ultimo somno, nos
seus jazigos de pedra, de cujos nichos a velhice alluira figuras e
inscripções.

Apesar das enormissimas riquezas que as religiosas mandavam repartir
pelas gafarias e misericordias da provincia, a regra impunha ás monjas
uma pobreza frigidissima. Dormiam n'uma tabua, as pobres servas, sem
enxergão nem cobertura, e com uma pedra tosca por cabeceira. E vivendo
de hervas e legumes, sem mais tempero que um fio d'azeite e um punhado
de sal, ellas appareciam na estamenha branca das tunicas, afiladas na
sua espiritualisação perpetua de prece, antes como umas sombras de
loucas, espectros de mal soffridas angustias, marchando nos claustros
em genuflexões de extaticas, e como dobradas ao peso das camandulas e
das orações. Um velho Papa da idade gothica doara então o mosteiro de
reliquias, compadecido por austeridade tamanha d'enclausura, e
permittindo que as monjas pudessem dar-se a glutonaria mundana d'um
cordeiro guisado, na ceia do Natal, sob a condição expressa
de ser branco e acabado de nascer.

Sempre na minha lembrança, desde então, tinha ficado aquella humilde
historia das freiritas, dormindo em tarimbas de castanho, e jantando
couves de azeite e sal. No collegio, muita vez, punha-me a fazer
esforços para me representar a figura benevola d'aquelle santo Papa da
idade gothica, risonho sem duvida e encarquilhado, com o seu
barretinho de purpura, e um grande annel de turqueza, concedendo ás
filhas de Santa-Agatha o cordeiro branco para a consoada do Natal.
Vinham-me aquellas coisas n'um fundo de fantasia, para assim dizer
bysantino, sem perspectiva aerea, com o nimbo de oiro nas cabeças, e
pregas miudinhas no bocatel das roupagens--e tão longe do nosso tempo!
tão longe do nosso espirito que eu acabava sempre por sorrir á
inverosimilhança das legendas contadas por minha avó.

Todos os annos na herdade, depois de se haver dito a ladainha diante
do presépe armado no oratorio, com grande pompa de vellas accesas,
cobertas de sêda, paineis de santos, flôres, amuletos e _cearinhas_ de
trigo grelado em pratos da India, ás escuras, durante os
vinte e cinco longos dias de uma lua--todos os annos, á hora de servir
a espetada de lombo de porco com migas, da ceia do Natal, quando já
tudo se assentára em volta da mesa, eu me não esquecia de inquirir.

--Avó. Se o cordeiro de Santa-Agatha estará tenro e capaz de ser
manducado pelas freiritas sem dentes?...

Lá me sorria a bôa velha, com uma expressão de melancholia que eu
n'esse tempo não era capaz de interpretar. E á direita d'ella marcando
intervallo na mesa, um talher inactivo aguardava meu avô, que fazia já
onze annos de fallecido quando eu tocava os dezeseis.

Ai! esse talher era a grande nota solemne da ceia, o symbolo
sacrosanto do espirito de familia, perpetuando o respeito do nome
através das revoluções da idade. O copo estava cheio, o guardanapo
desdobrado, e chegado á mesa o tamborete.

A todo o instante ia entrar na sala o phantasma do velho lavrador, com
a sua matilha de galgas argelinas, e uma d'aquellas grandes risadas
que elle dava, em nos vendo felizes a todos.

Ceia de Natal! Ceia de Natal! Não seria eu, não, que
d'aquella vez havia de começar cantigas ao Deus-menino, ante o presépe
da nossa casa _das Torres_.

Nem iria assentar-me, tão pouco, entre meus irmãos, partilhando a
espetada de lombo no meio da gralhada das creanças, e dos sainetes dos
pastores e maioraes. Oh como o frio da montanha me fazia agora
lembrado o _madeiro do Natal_, tão escrupulosamente escolhido entre os
troncos mais corpulentos das cathedralescas médas d'azinho da nossa
provincia; o _madeiro_ que as comadres vão vêr a casa das comadres e
cuja enormidade d'alguma fórma passa por luxo e synthetisa a
abundancia da casa! Ceia de Natal! Ceia de Natal! N'aquella noite de
cordealidade, tão intima na vida do campo alemtejano, em que o
primogenito da familia tem obrigação de consagrar aos creados o
primeiro _toast_ da ceia, a minha ausencia, eu bem n'a via! trazendo
lagrimas aos olhos de minha mãe, e longos annos permanecendo archivada
entre as tristezas do seu amantissimo coração.--Paciencia! dizia eu,
deixando os meus olhos correr por cima da phantastica decoração de
ruinas, como quem busca fixar a realidade no meio das oscillações que
a sombra despregava das arcarias.

Cessára a chuva de todo, e o vento que ennovelava os castellos de
nuvens, muito baixas, vinha depois marrar com ellas de encontro ás
fragas da cordilheira.

Torvos luaceiros cardavam sobre as coisas, aspectos pardos e monacaes,
d'esse tom vago, inquietador, inexplicavel, que permitte á imaginação
de agigantar o que apenas entrevê.

E assim dirieis que se alongavam na noite os butareus das quatro
torres, e que os boqueirões da treva mastigavam, e como lanças tremiam
os columnelos do templo, espetando na abobada imaginarias cabeças;
emquanto patrulhas de cyprestes paravam a escutar, se áquella hora
rastejaria no mosteiro um infinitesimo de vida, só que fosse. A
primeira coisa que notei, foi que não estava só, porque ao raspar d'um
phosphoro para accender o cachimbo, pude lobrigar na portaria vultos
de gente acocorada.

Pouco a pouco, os meus olhos afizeram-se a destrinçar na sombra os
objectos; e entrei a bispar vultos pequenos, corcovados, que surgiam
por todas as bandas da serra, vagarosos, cosidos ás pedras,
derreados do caminho, e arrastando sapatos de trabalho, com gorros nos
olhos e capotes negros sobre os hombros.

Pelas encostas, longe, perto, muitas luzinhas deslocavam-se em
direitura ao mosteiro, como fanaes guiando a um conclave outros tantos
conspiradores.

Duas ou tres cadeirinhas entram no adro, buscando a sombra dos arcos
com uma cautela apavorada, e aos hombros de homens, que pelo rastejo
dos passos e lentidão dos meneios, ia jurar tinham passado os oitenta
annos. Em poz das liteiras, mulas brancas trazendo mulheres embiocadas
em ponches... jumentinhos de trabalho com gente que tossia... e até
n'uma especie d'esquife, um vulto entre roupas dava grandes gemidos,
quando os portadores oscillavam mais bruscamente a padiola em que o
traziam.

Muito embuçado na capa, eu ia-me approximando da turba, corcovado e
arrastando os passos como os outros; e já sem medo, pois não podia ser
capitania de ladrões aquella gente assim misturada de invallidos.
Quando de repente, patas de cavallos fizeram estrupida nas lages, e eu
vi fazer-se um movimento simultaneo em todos os magotes,
para acorrerem ao encontro dos cavalleiros. Eram quatro. E dois
d'elles, que porventura seriam os juvenis da cavalgata, a julgar pela
ligeireza com que apearam, tinham vindo ajudar o que ficára sobre a
cella, aguardando que o desmontassem da mulla branca onde viera
escarranchado.

Era este um grande velho de cabellos compridos, em ligeiros flocos por
baixo d'um chapeirão d'ecclesiastico, envolto n'uma capa com romeira
de lontra, e de quem todo o mundo se acercava para lhe beijar a mão.
Caminhando, espargia bençãos sobre as cabeças curvadas á sua passagem.
Aprumava com esforço a grande figura biblica e severa, em cujas linhas
fulgurava como um relampago genial d'estatuaria, e em cujos gestos
calmos rescendia a solemnidade d'um apostolo enviado a remir d'um
captiveiro.

Tinham acceso entretanto algumas tochas, cujos clarões deixavam vêr a
fisionomia de aquella assembléa extravagante. Oh minha cabeça esvaida
de cansaço! Eu não posso affirmar lucidamente se acaso era sonho o que
se estava passando: tão extraordinarias visões me tiveram estarrecido
na formidavel sombra do templo. Lembro-me que o sino tocou
de novo. Era um som funebre e longinquo de _gong_, espargindo na noite
um terror de evocação; alguma coisa como a voz do tempo, chamando os
homens a um ajuste de contas definitivo.

Pelas arcarias do claustro, que eu avistára por entre a derrocada d'um
muro, vinha marchando uma procissão de monjas lentas, mirradas,
pequeninas, cambaleantes, e tão brancas e diaphanas á luz das tochas,
que ellas pareciam ter acordado n'aquelle instante dos seus
sepulchros, transpondo os seculos á voz expiadora do _gong_. Entre os
véos cahiam-lhe os cabellos, mais alvos do que a neve, e das suas
sandalias batendo as pedras do claustro, vinha um som baço de
sepulturas vasias, sepulturas com fome, chamando por aquelles
destroços de santas, d'onde a alma parecia ter voado, através das
divinisações augustas do martyrio.

Poucas eram: mas vagarosamente a procissão ia crescendo no percurso,
ao clarão bruxuleante das luzes; porque a todo o instante a turba se
abria para deixar passar uma velhinha segurando uma tocha entre as
mãos descarnadas. Alguem lhe tirára o capote de cima dos
hombros, e da cabeça o bioco de burel que a encapuchava. E surgia
assim, daquella lugubre crosta, uma monjasinha branca de Santa-Agatha,
cingida na estamenha da ordem, o véo de nodosa e rude grossaria... e
que a pequeninos passos de centenaria, oscillando a trémula cabeça, lá
ia enfileirar-se no préstito, com as suas rugas cheias d'eternidade.

A esse tempo, a enorme basilica rompia violentamente da sombra, ampla,
majestosa, cheia de mysterios e esplendores, mesmo assim na ruinaria
das suas esculpturas e rendas ogivaes. E prolongava-se em crepusculos
doces, além das naves, pelos rasgões da derrocada, ondeava á
oscillação das luzes, parecendo expandir-se, como outro'ra, num grande
hausto d'uncção fervorosa e fé christã.

Em cada recanto, cada arco, por todos aquelles nichos, pelas capellas,
diante dos baixos-relevos e das estatuas, agora bruxuleavam lampadas,
cirios, fogueiras, luzes bizarras de fachos, cuja vermelhidão tingia
de sangue os caprichos manuelinos da architectura.

Em face a gigantescos lampadarios de prata e oiro, pendentes da cupula
arruida em cachos de lumes lividos, o altar-mór appareceu de subito
n'uma aureola de pompas, damascos, flôres e vasos de oiro
cravejados de pedraria. O frontal todo de lhamas, faiscava entre a
fumarada dos thuribulos, as grandes flôres de purpura emmaranhadas no
estofo, em cuja trama buliam bruscos formigueiros de diamantes,
saphiras e esmeraldas. E por cima na abobada, a noite errava,
espavorida dos fogos que oscillavam cá em baixo, nas inquietações do
vento. E ao rumor das rezas accordavam as aves nocturnas nos seus
ninhos: pombas e francelhos voejando de friso em friso, grandes corvos
sinistros partindo em bandos das rosaceas, encandeados co'a luz,
tornando a vir, tornando a ir... Pensarieis que regressavam das
tumbas, os espiritos das monjas, e se iam familiarisando ás ruinas, e
conhecendo n'ellas o maravilhoso sanctuario doutro tempo.

--Meu senhor, disse uma voz.

       *       *       *       *       *

A vista das monjas, a multidão cahira de joelhos, tocada de veneração
por aquellas creaturas celestes, mumias da fé catholica, que a oração
transfigurára até á innocencia ideal dos serafins.

Tosca e triturante, a estamenha lhes cingia a esqualidez das ossadas:
vinha na frente a abbadessa, de báculo e mitra, com uma capa
de brocado, sob o pallio d'uma riqueza estonteadora. As mais seguiam
duas a duas, acocoradas quasi pela idade, e guardando não obstante uma
especie de aerea graça da infancia, através da caricatura d'aquelle
cerimonial complicado. Em todas, o olhar extincto, como um brasido nas
cinzas, perdera a incandescencia entre as macerações da vida ascética.
E d'entre a mortalha alvacenta das vestes, cada vulto sêcco vos
lembraria um violoncello com todas as cordas partidas, de haver
tocado, longos annos, a symphonia pathetica da dôr.

O que dissera, _meu senhor_, puxou-me de banda: era um embuçado
d'estatura pequena, gestos aduncos, e botas molles.

Levou-me para detraz da escadaria d'um pulpito. Engolfamo-nos por um
portello baixo e tenebroso, em cujo trevo marinhava, luctando, na
frialdade limosa da pedra, uma caterva horrivel de grotescos. E como
transpunhamos o portello, o homem tirou da capa uma lanterna. Vi então
diante de mim um velhito lesto, pequeno, azougado, os olhos debruados
de purpura, e com um grande nariz pendido como um monco, até encontrar
a aresta d'um queixo arqueado como a prôa d'um saveiro. Dirieis que as
duas pontas iam tentar brava guerreia: a do nariz embirrando
com a do queixo, a do queixo não sentindo lá grande sympathia pela do
nariz. Mas felizmente interpunha-se a bocca, sentinella vigilante
daquella discordia d'appendices, e que mesmo sem dentes, intervinha,
mordendo o que primeiro rompesse as hostilidades.

--Que quer dizer toda esta mascarada? disse eu.

O velho olhava para mim com um riso estupido de bobo. Tinha um
barretinho de sêda no craneo, grandes orelhas espalmadas aos lados dos
olhos, a bocca em meia lua e um collar de barba dura, direita, branco
sujo, prestava-lhe a caricatura demoniaca d'um bode, á luz fumosa da
lanterna. Foi pelo corredor aos saltinhos, e eu seguia-o tomado de um
espanto sem saber por que.

Ao fundo começava uma escaleira aberta na muralha, tortuosa, falhada
nos degraus, e obstruida por grandes pedregulhos. E o velho começou a
subil-a, levando a lanterna na mão. Como a escadaria era de volta
acanhada, e o passo de espira excessivamente baixo e deprimido,
forçoso nos era de subir corcovados, porque não fendessemos o craneo
d'encontro ao rebordo dos degraus superiores. Fomos tropeçando assim
nas pedras soltas e alluidas, partindo as unhas nas junturas da
muralha--elle sinistro, lesto, arqueado, escorregando, pulando certo
quatro e cinco degraus d'uma vez; eu agarrado ás pregas da sua capa e
á morna viscosidade das suas mãos, cujas unhas se me cravavam na
carne, como os dentes metalicos d'uma pinça.

--Afinal não me explicou que diabo vem fazer aqui toda esta familia.

Elle sorriu-se. Tambem d'esta vez não fizera caso da minha pergunta.

E eu começava a não vêl-o com olhos lisonjeiros.

A escada não tinha fim, caracolando sempre nas trévas humidas, onde
passava o voejar dos morcegos, os guinchos dos ratos, e toda a sorte
de sopros e rizadas maléficas.

O ultimo trago d'aguardente acaba de se me sumir nas profundezas da
goela. E valha a verdade, eu ia perdendo um pouco a noção justa das
coisas. Fórmas, rumores, simples idéas e suggestões me lançavam de
roda, n'uma sarabanda de incoherencias.

Dir-se-hia nos iamos sequestrando, pouco a pouco, ao mundo normal e
quotidiano, com os seus phenomenos e leis eternamente as
mesmas, para invadirmos não sei que exotica região onde tudo era
diverso: a atmosphera e a luz, as figuras, as sensações, e as naturaes
affinidades de ser a ser.

Por instantes, quando o homemzinho passava na luzerna do luar lançada
por alguma fresta da torre, eu ia jurar que elle mudava de figura, á
proporção que ia subindo. Já não tinha na cabeça o solidéu de sêda
preta. As suas orelhas avantajavam-se aos lados dos olhos
despegando-se-lhe do craneo como as dos morcegos, em grandes pregas
cobertas de cabellos. E deixei de ouvir o rumor dos seus passos,
emtanto que a subida se tornava vertiginosa, inquietadora,
embriagante. Cada vez os degraus me pareciam mais estreitos, o passo
de espira mais apertado, e o caracol de pedra mais asphyxiante. E nas
trévas da torre, emquanto eu ouvia os resfollegos do velho saltando os
degraus com furias de possesso, um ar denso e gorduroso forçava-me o
cavername do peito a centuplicar d'inspirações, como n'um paroxismo de
syncope.--Ar! Ar!

A minha cabeça rolava entre vertigens: via moscas de fogo saltarem-me
por diante dos olhos. E era como se cada um dos meus sentidos, estando
separado de mim, não pudesse ou não quizesse procurar-me
sensações nitidas e exactas--tanto as coisas que eu tocava me pareciam
differentes. Larvas de gelo, escorregadias, sem fórma, tocavam-me nas
mãos _shake-hands_ bruscos. Abria então a bocca para gritar que me
acudissem: e percebia que elle voltava logo a cabeça, porque sentia,
positivamente eu sentia na cara o caustico dos seus olhos dilatados
nas trévas, acobardando a minha alma varada d'um inexplicavel
calafrio. Até que emfim chegamos a uma especie de sala rasgada de
porticos, por onde a lua entrava. E rompemos n'ella como o estampido
d'uma granada: o velho indo cahir de bruços no pavimento, e eu por
cima d'elle, n'uma exaltação furiosa--a ponto de por cinco minutos
rolarmos no chão corpo a corpo, engalfinhados, como se algum de nós
pretendesse esquartejar o companheiro. Prestes porém o lesto demonio
se me escapulira das mãos, e sem uma palavra, deixando a capa, correra
aos varandins da torre a debruçar-se.

A sala era grande, com varandins d'esculptura aberta, que pareciam
bordar uma antiga renda de cruzes de Malta e folhagens, sobre o azul
pallido do céo.

Uma floresta de cordas, mastros, travessões e guindastes,
emmaranhava o ambiente e corria de banda a banda. Pendiam sinos dos
porticos, negros, immoveis, suspensos, como aves de rapina
dormitando... mil tamanhos, mil formatos, uns grandes, outros
pequenos, bojudos estes, aquelles campanulados... E na cupula toda
aberta de lucarnas até á flexa, a zunida do vento fazia uma especie de
côro em surdina, instrumentado a risadas e pequenos silvos de
mangação.

       *       *       *       *       *

O velho fizera um gesto. Uma badalada profunda sacudiu de chofre a
ruinaria inteira, dos alicerces ás grimpas, e foi-se alargando pela
cordilheira, attenuando, extinguindo, n'uma vibração magnifica de
sonoridade.

Terrífico e supremo era o accento d'aquella lingua de cyclope, que o
pulmão de bronze insufflára, no seu vagar prophetico, e que retalhava
o silencio da noite como um echo da vida eterna, soado através da
impenitencia dos homens.

Outra badalada mais forte, e outra, e outra ainda. Crucitando
d'assombro, os bandos de corvos fugiam por todos os lados. E as massas
de sonoridade precipitavam-se nos ares, desgrenhando uma
procella de bramidos, e como um apocalypse prégado ao universo
estarrecido a nossos pés. Para fazer dobrar alguns d'aquelles grandes
sinos, o velho trepava aos varandins e supportes, desdenhando as
vertigens da altura: e eu via-o marinhar então pelas cordagens, correr
como um gato ao longo dos cabrestantes, suspender-se, desapparecer,
cabriolar, suffocado, e insistindo, e voltando, n'um jogo macabro
d'esforços, que ainda mais lhe accentuava a contornadura demoniaca que
elle tinha.

A cada manobra do velho, era como se as badaladas me fossem batidas em
cheio, no coração, derramando-se-me em crises d'angustia por toda a
rede dos nervos convulsivados. Foi n'este estado que eu corri direito
a elle, e pude agarrar-lhe as pernas no momento em que o maldito se
preparava a descrever nos ares uma arrojada espiral, como Quasimodo,
abraçando pela cinta o reboleiro maior do carrilhão.

Ao mesmo tempo, começava a produzir-se um phenomeno extraordinario.
Seria illusão dos meus sentidos?... effeitos da minha sensibilidade
doentia, que perdendo o caracter proprio, se mutilára, exaltára, para
rolar depois nas phantasmagorias verdes da loucura? Mas
affigurava-se-me que uma especie de vida magnetica ia atravessando as
ruinas, como se a falla dos sinos houvesse resuscitado no edificio o
genio hostil que alli reinava, e este agora reagisse, contra o germen
christão que os nocturnos visitantes todos os annos insistiam em
replantar no sanctuario.

Aquillo era evidente, pulsava na pedra, rumorejava na esfusiada dos
ventos, cahia em gottas das arestas e das folhagens parasitas.

A principio disse commigo--é uma vertigem do meu espirito exasperado
pelas extravagancias da viagem, uma perturbação do alcool que eu
ingeri em dóses abusivas... O velho fizera-me frenetico... Os meus
nervos estavam carregados de fluido... Porém já na egreja me ferira
esta percepção de movimentos disfarçados, esta matinada occulta da
sombra contra a luz, esta suspeita de bruxaria latente.

Tinha-me rido d'aquilo--Ora adeus! Estou sonhando. E agora, Jesus! não
era engano. A sarabanda macabra rompia.

Muros e escaninhos começavam a debater-se n'uma lucta mysteriosa de
encantamentos.

Em cada molecula, em cada penumbra, em cada vôo, a energia
decompunha-se em fluidos antagonicos; um que tinha saudades do velho
culto, e era mesquinho em quantidade; outro que assoberbava o
primeiro, e se declarára no campo adversario. Mesmo, esta sombria
batalha toldava-me a cabeça, estava patente á minha alma,
obscurecia-me a razão; e o meu proprio corpo vibrava d'ella, e eu
sentia em mim os dois guerreiros buscando derribar-se a golpes
d'espadão. Não, não era engano! Andava tudo, falava tudo, mexia tudo,
e tudo parecia sentir, deliberar e ter vontade. Dos baixos relêvos
brotavam gestos, mimicas, summulas de dialogos...

Iam falar as boccas das estatuas. Os velhos doutores resuscitando os
velhos schismas. Velhos demonios trucidando as ingenuidades da fé no
carnaval das velhas ironias. Muitos santos pretendiam mesmo disputar
com os demonios.

N'um baixo relêvo da _Ceia_, a figura do Christo ergueu-se e bateu com
força na meza, colerico por um apostolo se rir, quando elle, sagrando
o calix, disse do vinho--_este é o meu sangue_!

Debaixo dos pés da Madona, renasciam as cabeças da serpente,
á medida que ella as esmagava.

E uma circulação impetuosa girava nas arterias da pedra, insufflando
vida ás columnatas, fazendo palpitar as rendas das ogivas, e dando
apoplexia ás faces das cariatides.

--Velho! Velho! exclamei eu fóra de mim, deitando-lhe as mãos ás
goelas. Quem és tu? Fala! D'onde vens? Que queres de mim?

Já a raiva me escumava nos cantos da bocca. A minha gana seria
esmagar-lhe a cabeça d'encontro ás pedras da muralha. Porque eu via
n'elle o médium da farandola macabra que ia na egreja. Eram obra sua
os tregeitos dos monstros esculpidos nas columnatas, o riso mau dos
demonios-morcegos nos frisos manuelinos do côro; emfim, o exaspero do
Christo, no baixo relêvo da _Ceia_--e todos os fremitos, todos os
sôpros, todas as oppressões, todas as desconfianças, todas as risadas,
que eu ouvia, que eu sentia, e passavam por mim o visco do seu
contacto asqueroso.

Á sua voz obedeciam aquelles milhões e milhões de forças occultas e
satanicas: e elle tinha o dom d'arrastar na espira lôbrega dos seus
maleficios, o desgraçado que se lhe approximasse.

Oh, não era ausencia d'energia physica que me impedia de o
acabar--elle era magro, ossoso, quasi decrepito... Mas a sua vista
dava-me um embaraço! Com o mais ligeiro impulso eu poderia derribal-o.
Mas um assombro terrivel, um pavor inexplicavel, uma fascinação que eu
não sabia definir, amordaçavam-me, faziam de mim um destroço de
captivo em poz d'aquelle tenebroso e phantastico vencedor.

A essa hora, na egreja, tudo estava a postos. Pela abobada cahida, eu
pudéra vêr, a nossos pés, o côro profundo, sobre uma massa amarellenta
de pilastras fasciadas de relêvos. D'alli surgiam á luz dos brandões,
as primeiras bancadas de carvalho, com logares separados, onde cada
figura de monja apparecia dobrada sobre a estante do livro de rezas.

Na grande cadeira gothica da abbadessa, a meio do côro, duas vellas
faziam brilhar o baculo de oiro, uma mitra mexia ás vezes sobre uma
cabecinha pellada de centenaria--e para traz a sombra invadia tudo, e
via-se na parede uma rosacea sem vidros, por onde entrava, poeirenta e
diaphana, uma grande cheia de luar. Depois a egreja enorme, com as
esculpturas mutiladas, as rendas em bocados pelo chão, os
nichos, muitos, desertos, e os jogos e caprichos da luz e da sombra,
forjando effeitos de scenographia formidavel, de cujo tumulto, ao
fundo, o altar mór destacava n'uma apotheose de magnificencias, entre
a fumarada do incenso, e os vôos dos pombos espavoridos.

O velho reaccendeu a lanterna. Havia ao centro da casa uma especie de
grande cravo de castanho, com teclas de cobre oxidado, aonde vinham
ter as cordagens de toda aquella sinalhada. Com gesto placido elle
conduziu-me ao teclado, sobre cuja arca depuzera a lanterna
escancarada. E desenrolando um grosso manuscripto de musica, pol-o na
estante, e fez-me signal a que me assentasse n'um monte de cordas que
estava perto.

A musica era torturadamente escripta, coberta de emendas, intercalada
de referencias á margem.

É obra sua? perguntei eu. Elle fez que sim com a cabeça. E começou; já
o arcebispo ao altar dizia o _orate_, e soava nos mosaicos da basilica
o rumor dos que ajoelhavam.

       *       *       *       *       *

Ahi começa o velho a fazer soar o carrilhão, e eu já sinto outra vez
os meus pavores tomarem fórma, e as minhas angustias irem
cavalgando extravagantes bruxarias. Cada vez mais á roda dos meus
sentidos, fosforeja e zumbe esta encarniçada lucta dos dois fluidos
antagonicos, que a pouco e pouco se depuram, quando a minha percepção
lhe consegue fixar a transcendencia.

Um revindica o culto das florestas, das aguas e dos rochedos. É a
grande alma pagã da natureza, que impulsiona os mundos d'uma vida
extraordinaria, e tem voz, no bramido das vagas, e faz as flôres e os
archipelagos, e chispa das rochas que o ferro morde, e chora lagrimas
de leite nas folhas arrancadas da figueira. É o mais antigo, é o mais
forte: e a todo o transe elle tenta reconquistar o solo, com a audacia
heroica d'um régulo expulso de dominios seus. Tem a symbolica dos
antigos mystérios, o outro. E bisonho e tenebroso, desceu do outeiro
onde uma noite uns soldados estavam crucificando um vagabundo.
Prégando jejuns e penitencias, emquanto ia fazendo da cobardia uma
virtude, e não sei que refrigerio da morte, gritava ao mundo--venho
destruir a obra da Mulher. E por entre o unisono das harpas, na choral
dos serafins, ouve-se o alarido dos que na fogueira escruciam, e os
latins do inquisidor que os manda morrer em nome da misericórdia
celeste.

--Velho!

Repara bem, como até na gralhada dos sinos parece evidenciar-se a
batalha das duas legiões. Aquelles sinos além são pela egreja; mas
aquell'outros aposthasiaram e insurgiram-se.

As mesmas tuas mãos de maestro ferindo o teclado, parecem obedecer a
dois musicos diversos, degladiando-se sem quebrança de rythmo, n'uma
especie de sabbat artistico, alternativamente piedoso e diabolico. Por
momentos, tudo isto se me afigura symptoma d'alguma psychopathia
bizarra, evolucionada no exaspero mental que esta noite em mim
produziu.

Faço esforços de rehaver a minha antiga serenidade, ponho-me a vêr se
coordeno as minhas faculdades d'analyse e de critica, e se restabeleço
a limpidez do meu juizo, a sangue frio.

--Eu é que _sou talvez duplo_, e não a maneira de ser das fórmas que
me circundam.

As minhas operações mentaes é que estão fraccionadas e
desparallelas, como se a fouce do cerebro me não dividisse o esferoide
em dois ovulos estrictamente iguaes, senão o houvesse desigualmente
bipartido, lobulo maior, lobulo mais pequeno... e cada um derivando em
modos de ser incompativeis.

Porém esta hypothese eriça-me os cabellos. Adeus harmonia de
funccionalismo mental! Falta d'obediencia a uma mesma força
coordenadora e dirigente! Para cada metade do meu corpo, uma contenção
vital diversa da outra, energia differente, outro caracter, outra
impulsão...

Actividades parciaes, cerebrações avulsas, acordariam n'esses varios
districtos do meu encephalo sem rei, nem roque, chocando as suas
indoles sobranceiras, como pequenos despotas em gran-ducados rivaes. A
dualidade surgiria por fim d'esse chaos encephalico, como uma terrivel
dupla vergontea de loucura: venho a dizer, dois individuos n'um corpo,
discutindo, acotovellando-se, perseguindo-se, um contrariando a
vontade ao outro, annulando este os esforços d'aquelle: e nenhum
deixando dormir nem descançar o companheiro. Mas é isto. Positivamente
é isto--estes dois maus irmãos que juraram anniquilar-se
d'um golpe: fratricidas que a mesma impulsão vae arrastando de roda um
do outro, á espera do instante em que possam beber-se o sangue. Um
d'elles fraco, cheio de mysticismos poeticos e visualidades
atravessadas de inquietações. Timido, nasceu comigo, é filho de minha
mãe, uma devota. Mas o outro foi crescendo nos livros, o estudo
inoculou-lhe audacia, a arte agigantou-lhe as dimensões, n'este
momento elles barafustam, e eu cuido que estremece pela basilica toda,
este tragico drama que apenas se me debate nos nervos, e ensanguenta
os musculos da cabouqueira que eu trago sobre os hombros.

       *       *       *       *       *

Por consequencia estou doido. Um pavor gelado invade-me o peito.

Estendo para o altar os braços supplicantes. E o velho continúa a sua
musica grandiosa, indifferente a tudo o mais, emquanto no altar
celebra missa o arcebispo.

A execução d'essa musica parece absorvel-o e mirral-o como um galope
d'annos desgraçados.

A primeira investida é confusa, o velho treme de medo, correm-lhe
lágrimas na cara, quatro e quatro, e murmura não sei que
palavras cabalisticas. Eil-o se endireita e recomeça.

E pouco a pouco a minha alma abre as asas e suspende-se n'um paiz
lilaz de supremos extasis acusticos.

Já a riqueza dos timbres e a gracilidade dos motivos me fazem esquecer
que seja um carrilhão de sinos que eu escuto. Alguma coisa da potencia
orchestral do orgão, profunda, gothica, lithurgica, mas mais unida,
mais colossal, mais grandiosa, se evola d'essas campanulas de bronze
que faz soar no meio das serras o mais prodigioso maestro do mundo. O
carrilhão faz-se voz da architectura de repente, e o desdobramento na
musica dos caprichos floreteados na pedra pelo cinzel--tanto os meios
d'expressão se centuplicam e vão fasciando de originaes melodias,
arrancos trágicos e indomáveis rouquejos de paixão.

A voz de cada sino presta uma inflexão, uma emoção á voz da cathedral
que desperta e vive como um ser perplexo e gigantesco: e d'aquellas
resonancias que a mão do artista humanisára, como interpretando um
estado d'alma doloroso, a angustia d'uma raça, cahiam tristezas,
desprendiam-se adeuses, voavam recordações... recordações de
vozes ouvidas n'outro tempo, na bocca d'alguem que eu, valha a
verdade, já não sabia dizer quem fosse.

Vamos ao _Credo_. O carrilhão centuplica o enxame instrumental de
grupos harmonicos, e é o momento em que o universo une a bocca á
poeira, para afirmar essa fé que elle tanta vez terá sentido esmorecer
no coração. Oh, a musica do velho era uma grande opera de effeitos
supremos, onde a alma se banhava aspirando ao mysterio d'um ideal
celeste e inaccessivel. Vinha d'ella uma intensidade de dôr heroica
que dava soluços á melodia unanime dos motivos symphonicos;
desencadeando-se em rajadas no badalar dos grandes sinos. A principio
era uma coisa lenta, que se apagava como um rythmo de reza, de nave em
nave.

Era uma grande litania de humildes, cortada por algum soluço
afflictivo, e em cuja penumbra se apercebiam circulos d'almas cada vez
mais vastos, n'uma paisagem de ballada, livida e nocturna.

Outros soluços vão repercutindo o dobre d'aquella angustia suprema,
n'um côro trágico de sessenta seculos de soffrimentos.

Já o effeito cresce, desencadeia-se, rebenta. Ha gritos
funebres, insurreições apenas suffocadas, roucas ladainhas que chegam
de longe pedindo socorro...

Ai! n'essa apotheose de crença espiritual, por vezes a estridencia dos
brados faz suspeitar o terror em vez da luminosa confiança que deita a
cabeça no regaço da fé, e a imposição feroz d'um credo absurdo, em vez
de simples doutrina conciliante ao caracter, e inteiramente suave ao
coração. E o offertorio passa, a campainha do acolyto annuncia o
_Sanctus_, e o sacrificio da missa principia.

Emtanto que no meio d'aquellas instrumentações picturaes do carrilhão,
d'onde o mysterio da missa se ennubla e desenvolve, sempre o
pensamento musical podia seguir-se, com a pureza d'um psalmo; tão
limpido, que eu cerrava os beiços de medo que o meu halito embaciar
pudesse, a crystallinidade d'aquelle adoravel motivo.

Mas da bocca dos sinos, como d'uma cornucopia emborcada, vão golfando
inumeraveis turbilhões d'espiritos fatuos, sylphos de carrilhão,
vibrações tornadas fórma que vão e vem, sobem e descem, cabriolam,
zigzagueam, rolando, partindo, tornando a ir, e diffundindo-se
nos longes em grandes circulos concentricos, onde as figuras
se perdem emfim, n'uma bruma côr de cinza. Todos são excessivamente
pequenos, com uma multidão de caras differentes, pequeninos braços,
pequeninas pernas, que se agitam n'uma quantidade de mimicas
pittorescas. Apenas escapados dos sinos, eil-os correm uns ao encontro
dos outros, larvas do medonho, embryões do pesadello, conforme a
imanação sonora d'onde procedem: e agarrando-se pelos hombros,
continuam nos ares a fantastica batalha que eu assignalára já para
cada atomo das ruinas. Cada vez mais, cada vez mais, esses milhares de
anões parecem recrudescer das sinistras gargantas do bronze, e bem
depressa elles foram tantos, que faziam uma espécie de exhalação
fumosa interposta aos meus olhos e os objectos, que se alongava depois
n'uma grande lingua, rapida e turbilhonante, ascendendo na flecha
audaz do campanario.

Já a torre estava cheia d'aquellas larvas cúpidas do som, sedentas de
lucta, phreneticas de movimento, em cuja carcassa podiam vêr-se todas
as espécies de caras, idades, sexos e configurações. Tinham umas a côr
verde das folhagens; eram as mais numerosas e as que mais
robustamente cabriolavam. Mas outras eram pardas, alongadas,
noctiluzentes, com a vibratilidade dos vermes e a cabeçorra disforme
dos peixes-sapos. Havia-as corcundas, havia-as tortas, havia-as
barbudas. Encarquilhadas, hydropicas, leprosas.

Em figura de rato, em figura de sapo, em figura de morcego... e mesmo
certas pareciam esqueletos d'aves antediluvianas, marchando aos
pinchos, com um grande bico maior que o corpo, direito, espesso, que
não podiam erguer da melancholica postura em que o levavam pendurado.
Tinham asas quasi todas; algumas eram armadas de espinhos, outras
traziam capuzes sobre os olhos, o breviario na manga e camandulas á
cintura: e até muitas, brandindo fachos, corriam através da batalha,
pondo um clarão de sangue em todo esse pavoroso arraial de maleficios.

E as que nasciam iam empurrando as que já eram adultas.

Crescia a chusma atropellando-se, comprimindo-se: até que não cabendo
na torre, cahiam pelos varandins, aos milhares, ou esmagadas contra a
parede ahi seccavam e por fim desappareciam. Na debandada, um panico
lhes convulsionava ainda mais os pequeninos membros, e de
rustilhão precipitavam-se, agarradas umas ás outras, e dispersando-se
em circulos, quando já as suas figuras pareciam ganhar d'aptidão o que
iam perdendo em nitidez de contornos. Pelo céo, aquelles circuitos
simulavam fortes migrações de passaros cinzentos, cerrando os seus
exercitos até aos confins do horizonte.

E mal os sinos paravam, havia um claro turbilhão de mostrengos... só
um ou outro mirrava, n'uma asfixia de silencio, lentamente, pingando
ás gottas no chão que o consumia, ou ficava cabriolando nas cordas em
piruetas de acrobata, ou pouzado n'um ferro, arésta, teia d'aranha,
entrava a balouçar-se monotonamente, até agonizar de todo e
desfazer-se.

--Oh Deus! Deus grande, Deus omnipotente e misericordioso! ampara, por
quem és, a minha fé, e não deixes apagar na loucura a bruxuleante luz
da minha razão.

Quando o arcebispo ergue a hostia, e sôa em concavo pela igreja, o
bater das mãos contricto sobre os peitos, porque é que este musico
soluça, errando a vista pelos angulos da torre, á procura d'alguem que
alli não está? E a sua figurinha de satyro arrepela-se,
lugubre e grotesca, como a d'um macaco que tivesse por dentro a alma
contricta d'um christão. Já as pombas volitam de novo sob a cupula,
brancas, purissimas, adejando outra vez pacificadas, quando os ultimos
turbilhões de mostrengos se despregam dos sinos mudos, esfusiando
pelas ogivas, sob os lategos da uncção celeste que se irradia da
hostia, feita carne, e do vinho do calix, feito sangue.

No momento, o _benedictus_ segue, e o carrilhão murmura de mansinho,
como n'um unisono de violinos e harpas, a mais suave _preghiera_ que o
perdão do Senhor haja inspirado a um penitente. Manso e manso, os
seraphins de pedra unem as mãos, batendo as asas de jubilo, com os
seus typos frustes de creanças, em cujas cabelleiras se accende um
oiro fosco d'aureolas; e das partidas lyras arrancam, com os seus
dedos, vagos preludios de um mysticismo fluido, vaporoso, que embriaga
d'extase, e em equivalencia approximarieis dos mais recatados perfumes
de jasmim e de nardo, violeta e rosa branca, vaporizando-se de
corollas abertas no claro-escuro d'um claustro, e que á noite
espargissem suggestões de bemaventurança, na cella virginal d'uma
noviça.

Sim! n'esse preludio do velho, chora talvez a imploração d'um
crime antigo, expiado em annos de supplicas nunca ouvidas, e
centuplicando d'eloquencia, através do tempo, té que afinal a tortura
do musico excede os limites d'expressão concedida ao homem, e iguala e
imita a eloquencia de Deus, para, confundida n'ella, coagir o Monarcha
dos céos a perdoar. Tudo n'este supremo instante a solicita, os fieis
que voltam a face para o carrilhão que os arrebata, as esculpturas, as
pombas, e o arcebispo emfim que ao dar a benção, estende para a torre
o braço tremulo, e absolve d'um gesto o extranho musico.

Limpo de nevoas todo o céo de dezembro esmaecia, d'uma pureza elysea
incomparavel--e argentea a lua rola, espalhando ao redor madeixas
claras, como uma cabeça morta de _baby_, á procura do tronco, pelos
valles, antes que o gallo da missa solte o seu primeiro apello, para o
baptismo de Jesus feito creança.

Na poeira do luar, pelos rasgões da rosacea, um turbilhão de seraphins
rompe na igreja, brancos de marmore, nascendo da nuvem como uma
geração espontanea de caritas bochechudas, boccas em flexa, olhos
de saphira, e o tom chlorotico, translucido, que participa
do paraiso e da tumba, e no qual poderá lêr-se, mau grado a
espiritualização da eterna estancia, essa infinita nostalgia dos
pequeninos seres arrancados ao calor dos seios maternaes.

Por um instante, palpita sobre o côro alada tromba, como uma emigração
de passaros radiosos, pyrilampos, borboletas, que oscilla e se desloca
na fumarada argentea do astro, turbilhonando em rodopios d'apotheose:
depois do que converge á torre, e pelos varandins enfia, n'uma espiral
de sonho alvinitente. Mas é um exercito que lentamente baixa o vôo,
silencioso, rufado apenas, no _frou-frou_ das asitas quasi
imperceptiveis. A alguns mal se lhes lobriga a cabeça, envoltos como
voam, nas suas camisotas de nuvem; outros inquietos, não podem estar
poizados muito tempo em qualquer ponto, e n'um phrenesi de movimento,
mexem, debicam, bolem no teclado dos sinos, nas esculpturas,
chamando-se, vindo em chusma rir de um monstro ou cariatide,
arrepellando-se os cabellos uns aos outros, jogando as escondidas por
traz das heras que abraçam a muralha, de roda dos varandins, pelas
cordagens--e até um que escorregou nas lageas, ficou de
bruços, choramingando, com birra, á espera de que alguem o fosse
levantar.

Os mais robustos então descolam do pavimento uma das lageas, a um
canto, e acocorados na terra, escavam com as unhas uma toca.

Pela segunda vez, o gallo da missa gritou da cupula, e elles, que o
escutam, precipitam com furia o seu trabalho, a fim de que a tarefa
esteja prompta antes que a ave solte o seu terceiro grito de alarme.

Bem depressa ha um buraco fundo no chão da grande sala, e--oh
surpresa!--aparece um pé, um microscopico pésito de creança roxo de
frio, inteiriçado: e logo depois do pé uma pernita, o tronco, uma
cabeça... Já a curiosidade impertiga a pequenada, que se achega e
acocora, em circuito cingindo-se pelos pescoços, n'uma profusão de
momos espantados.

O pequenino cadaver está descoberto, e cada qual n'elle procura
insuflar o ligeiro filete vital que em si conduz. Uns lhe aquecem as
mãos com seus beijitos leves como abelhas, outros lhe sopram das
palpebras a vilissima terra que lh'as come, emquanto muitos
lhe fabricam uma samarra, com os pedaços que arrancam ás suas proprias
vestimentas.

Emfim, a creancita ressurge, esfrega os olhos--dois ou tres calafrios
passam de manso á flôr da sua epiderme opaca e ecchymosada--e a vida
nasce, ha movimentos, pequenos haustos, suspiros... mas sempre á roda
do pescoço um vergão negro estrangula-a, estygma de infamia paterna,
que o velho encara estralejando os dentes, n'um terror confuso de
assassino. Pela terceira vez o gallo canta, e triumphante, o turbilhão
de seraphins levanta vôo, ascendendo pelo céo, n'uma espiral de nevoas
côr de rosa.

Porém de repente, o pequenito recorda-se, volta a cabeça, estende os
braços para o musico que de rastos avança, desesperado, por não lhe
poder tomar as mãositas protectoras. Oh, era tempo! Ha já cem annos
que elle assim vagabundea nas ruinas, sem repouso esse sineiro que
amara uma abbadessa; e annos e annos desfilam, e sempre a terra a
recusar sepultura ao amante, e sempre a colera de Deus a expungir da
sua gloria, o monstro que assassinára o filho, no proprio dia em que
elle foi nascido. Annos e annos o miseravel tentara apaziguar a
colera do Eterno, vindo á missa do gallo da abbadia, interpretar pela
musica do carrilhão fantastico as escruciadoras angustias da sua alma
lassa, atormentada, mas ainda no fim d'estes esforços o céo que
redimia a creança, como se não julgasse bastante a expiação do pae,
abandonava-o!

Surdo, maldito, o desespero começa a babar-lhe da bocca, imprecações
incoherentes. De novo o carrilhão blasphemo, vomita das campanulas de
bronze, a sua bruxaria macabra de mostrengos. Os ultimos fieis
arrastam as sapatas no adro, e pela montanha as luzitas descem
ondulosas, hesitantes, como um bailado de pyrilampos.

Agora um, outro ao depois, os lampadarios se extinguem diante das
capelas: o altar-mór não phosphoreja mais as suas rutilancias d'estofo
e pedrarias: o arcebispo foi-se, as monjas voltaram talvez aos seus
sepulchros, porque as procuro em balde nos cadeirões do côro, pela
egreja e nos claustros, á chamma dos ultimos archotes que lambem de
sangue os gestos das estatuas, as arcarias confusas, os baixos relêvos
e os nichos.

Deito os meus olhos de roda, espavoridos, e ha risadinhas, voejos, as
heras trepam em grossas lianas, que se abraçam nos columnellos da
torre, e prolongadas, tenazes, n'uma luxuria contorcida de serpentes,
alastram as suas pernadas entre as pedras, como uma avançada de
exercito que em nome da natureza, toma posse do terreno que lhe havia
sido usurpado. O terror dá-me epilepsias de fuga, d'uma vertigem,
d'uma raiva! e precipito-me na escada, ás escuras, sem mais ouvir os
queixumes do musico, que as vegetações vão sugando, assimilando em si,
absorvendo, n'uma troncagem monstruosa de figueira.

Chego á igreja, quebrado pelas brutalidades d'essa queda espiral de
oitenta metros. E atraz de mim não ouço mais que a floresta a
esbravejar, tomando posse da ruina, e os estalidos da cantaria que
rebenta, escarvada pela violencia das raizes que esconjuntam a
architectura a punhaladas de ciume. Agarro um facho, em bramidos,
delirante d'um medo que centuplica as minhas ancias de vida livre, em
meio dos campos: e ao acaso, entre os cyprestes, pelo claustro, os
risos guiam-me: bem depressa descubro uma luz vaga, coando-se por
baixo d'uma porta baixa e carcomida. Dentro ha rumores, leves
_frou-frous_ de sêda que se acamam, tinir de pratos... E no
phrenesi medonho que me agita, deito os hombros á porta--a porta voa,
e uma orgia d'espectros patenteia-se, n'uma luz glauca em que as
figuras mergulham, confundidas, alongando as roupagens pardacentas. A
principio eu não pude destrinçar as lugubres carcassas, uma a uma, mas
já a minha vista insiste sobre as fórmas... ha um festim servido sobre
a mesa, flôres que se desfazem em poeira; e n'um brilho d'enterro as
tochas ardem, mostrando á roda esqueletos de monjas, a devorar co'as
mandibulas descarnadas, e cardeaes, marquezas, gentis-homens, que
entre si permutam toda a casta de motetes dulcerosos.

E mais distante, á luz do fogo que enrubesce na chaminé de pedra
armoriada, o senhor arcebispo tange um violão, meneando a calva
emquanto a abbadessa ergue os seus vestidos veneraveis, para esboçar o
primeiro passo do minuete, acordado nas cordas do instrumento.

--Rompe a manhã! grita o creado aos meus ouvidos.

Esfrego os olhos.

A nevoa esfarrapa chuveiros na montanha. É dia claro. Uma caleça nova
nos aguarda. E o sineiro da abbadia? A gente sempre sonha cada
asneira!



PEQUENO DRAMA NA ALDEIA


Devo dizer-lhes que este Carlinhos era um adoravel petulante de buço
preto e olhos claros, cheio de vivacidades com raparigas, prompto a
rir, delgadito e forte, tendo pelos actos de bravura uma quasi
religião. Compensavam-se n'elle delicadezas de femea, brancuras de
mãos, flexibilidades de cinta, uma doçura candida de feições, toda a
graça ondulosa emfim, dos que adolescem á larga, sem cuidados nem
represalias paternas, com os primeiros esboços d'essa energia physica,
tenaz, inquebrantavel, leviana e generosa, que ainda agora é tradição
em certas raças da provincia, e guarda fama de povoado em povoado. A
escóla fôra-lhe apenas um pretexto de troça, onde esse incorrigivel
tinha posto em debandada a auctoridade classica dos mestres. E como
n'esse periodo as primeiras desordens do sangue, ensaiavam
pelo campo da aventura, mais agora ou mais logo, as suas sortidas, não
havia mesada que chegasse, nem horas para folhear as lições. Demais, a
sua impetuosidade que esplendia côr e frescura de saude, pouco dava á
vida cerebral; portanto, voltou á aldeia sem curso, elançado de
figura, tendo as olheiras symtomaticas do amor esbanjado, lendo
romances, com uma arte especial de surprehender mulheres, e
predilecções decididas por quanto fosse prazer.

--Doido, dizia a gente pobre da aldeia, mas que rapaz!

A fortuna da familia fazia-o no sitio uma especie de menino d'oiro,
sagrado e por todos querido; desculpavam-lhe as audacias, tinha
entrada em todos os lares, e quando nas romagens o seu cavallo piafava
nos adros das ermidas, ou a galope ia cortando a chafranafra das
feiras, as raparigas deslumbradas achavam-n'o bello como um deus, e
muitas fugiam com elle, mandando á fava os namorados. Realmente
ninguem achava extraordinarias estas coisas. O que as velhas
camponezas então faziam, era ter saudades do pae, rico grão-senhor de
herdades e quintas, destemido, brilhante, alegre aventureiro, que
ainda em vesperas de morrer tinha raptado a lavradora das Lages;
aquella russa magnifica de carnação, que tinha o ar d'uma grossa
madona eborense, hão-de estar lembrados, hein? Carlinhos mesmo, era um
filho do amor, vindo não se sabia d'onde, amor d'acaso, d'alguma
arribana de granja, d'algum arredado logarejo entre serras e moinhos.
O certo era que dias após haverem enterrado no velho cemiterio, a
filha que ao rico homem restava da esposa legitima, entrara o marido
em casa com um pequenito pela mão, fôra junto da esposa mortificada de
prantos, e sem palavra tinha-lhe deposto no regaço aquella encantadora
miniatura de Carlinhos pequeno, a mais fresca e divina que era
possivel sonhar. A pobre senhora que se via sem descendencia, já não
estava em idade de ter filhos; resignada ás traições do marido, e
ennobrecida d'esse grande orgulho benevolo e senhoril, que ainda na
provincia revelam as antigas familias, acceitara o _bambino_ sem cousa
alguma perguntar. Além de que, adoptando a creança, assegurava-se
herdeiro á casa, e os filhos do irmão de seu marido não participariam
ceitil na grande fortuna do casal. Ah, mas esse exemplo d'adopção
tinha dado a mulheres sem marido, phrenesis bruscos de contagio, e
certo foi que muitas creanças appareceram dizendo-se irmãs de
Carlinhos. Talvez calumnias forjadas pela outra familia, ainda que
fallando sério, não faltassem a taes pretenções, uns signaes de
verosimilhança. Tanto os da Oriola, que assim era conhecida a familia
do Carlinhos, como os da Torre, que assim nomeavam a casa do tio
adversário--eram fortunas de respeito e gente de poderio. Os primeiros
tinham o maior nucleo da propriedade de redor da Oriola, aldeia
perdida entre carvalhaes e sobreiros; os segundos faziam séde de
governo proximo a S. Mathias, outra aldeia nos valles de Beja. Uns
tinham cabellos pretos, alta estatura fina, nariz direito, olhos
claros, e uma côr fulva de pelle, nuançada em deliciosos _duvets_;
eram da Oriola. Mas outros insculpiam-se herculeos e loiros, nariz
recurvo, dentes carniceiros, barba rara, e os olhos singularmente
obliquos contra um nariz que arfava com destrezas de hispano-arabes;
eram da Torre.

Pois extraordinaria bizarria! Dos trinta annos para baixo, toda a
Oriola copiava o typo do pae de Carlinhos; e acontecia o mesmo em S.
Mathias, a respeito do typo loiro da Torre. Nas terras de
roda, estas coïncidencias faziam riso, ainda que se explicassem com
honra, aqui para nós. Os da Oriola davam pão á sua aldeia, como os da
Torre a S. Mathias. Lá vinha o proverbio--mesmo pão, mesmas feições. E
sendo assim...

Ora cada qual d'estas familias rivaes--e nunca pude saber porque
rivaes, questões de ciumes talvez, uma herança mal repartida, ambições
de riqueza ou voga entre os povoados, eleições renhidas n'algum anno
de mais gastos, emfim qualquer pequenino attrito d'esta natureza ou
d'outra, onde o orgulho dos senhores ruraes, tão vehemente e
meticuloso, faisca determinando incendios e intimas assolações--cada
qual d'estas familias, ia eu contando aos senhores, não passava dia
sem discutir com uma rica metralha de descomposturas, escarneos e
desdens, o viver da outra. Em torno d'estes odios interfamiliares,
tinham-se formado mesmo pequenas côrtes, feitas com figurinhas
insipidas de proprietarios, mulhersitas seccas e beatas, maldizentes
na sua dentuça podre, com poucos meios e grandes deslumbramentos pelas
pratas de casa rica, sabendo as mesmas historias e queixando-se dos
mesmos flatos, levando e trazendo recadinhos, segredinhos,
pequeninos fetidos d'intriga, em preço do chá com doce que pelos
serões lhes serviam, e da quasi familiaridade que em publico, esses
senhores de terreola lhes dispensavam. Na casa da Oriola sabiam-se por
exemplo a horas e a tempo, os vestidos de sêda da prima Dora de S.
Mathias, como ella se vestia em sendo madrinha de baptisado, o que
tocava no piano, e quem estivera a jantar no dia dos seus annos.

--Diz que houve balancé até de manhã.

E noticias da cortiça exportada para Inglaterra, lã que vendiam os da
Torre, e dos rebanhos, carneiros, vaccas, porcos, cavallos, poldras...

--Tão maus, que elevaram o preço dos carneiros, só para prejudicar os
lavradores somenos. E os porcos d'elles não prestam, carne de cão,
mais dura!...

Cada viajata de Dora durante a estação de banhos, cada mez d'opera em
Lisboa, no inverno, as primaveras com o pae pela Andaluzia, no
Algarve, ou em Marrocos e Gibraltar, para espreitar o dolente azul do
Mediterraneo do alto das artilhadas escarpas inglezas, eram motivos de
censuras na Oriola, e surdas prophecias de ruina iminente. As
mulheritas da terra vinham aos serões com seus maridos,
trazer o que sabiam da Torre, inventar quando não havia que trazer, e
a mãe de Carlinhos commentava os casos entre velhas creadas que a
tinham acalentado, velhinhas que davam tu á sua dona, enroscando-se-lhe
aos pés com somnolencia de gatas fugidas ao serviço. Mas, desgraçadas
das visitas que ousavam julgar diante da rica viuva, o proceder da
sobrinha ou do cunhado--que tombadas em graça, nunca mais lhe viam os
dentes e provavam o dôce! Ella só, viuva de Fernando Zarco, podia
discutir os desvarios de seus parentes; o resto contava sem
commentarios o que ouvia por fóra, ou ia escutando o que ella dizia,
sem retrucar mais, aliás...

Na casa da Torre, exasperação identica a respeito da Oriola, não
havendo serão que as estroinices do primo não fossem esmiuçadas,
exageradas e discutidas. Carlinhos não tinha pae, Dora não tinha mãe.
Mas auctoritaria e toda orgulhosa do seu reino domestico, da riqueza e
alta educação que recebera, tambem ella punha em torno de si uma
pequenina côrte dulcerosa e servil. Era mais nova que o primo, e a sua
belleza de loira, magnifica e alta, toda fresca em batas
d'estofo exotico, deliciosa de cabellos e mãos, com uns ares
d'inaccessivel castellã, fazia d'ella a musa do districto, e a paixão
de quantos gordos filhos de casa opulenta, batiam por feiras e
lavouras em grande. Viam-se os dois muitas vezes, Carlinhos e Dora,
casualmente nas festas de Beja, em praias de banhos, e por Lisboa,
onde até acontecia ficarem no mesmo hotel. O pae d'ella, Manuel Zarco,
fingia não dar pelo sobrinho, o _engeitado_, como elle dizia na sua
brutalidade morgadia. Os rapazes, porém, é que se iam mirando ás
furtadellas, sem querer saber das caturrices do velho. Carlinhos, tão
ruidoso e leviano por onde quer que andasse, ficava sério e perturbado
sob esses rapidos encontros com Dora, e os seus olhos claros
esmaltavam profundezas ardentes, e melancolias de quem fica a scismar.
Porque em verdade, mulher alguma podia equiparar-se a Dora, pela
nobreza do seu typo, estudada elegancia de maneiras, vestuario, contos
de fortuna e altivez de familia. Os bem informados n'isto d'interesses
e allianças possiveis ou premeditadas, não viam por essa orla toda do
districto, um casamento á altura de Dora, a menos que a
orgulhosa descesse, o que todos diziam não ser provavel. Apenas um
noivo a merecia bem, Carlinhos.

--Esse, opinavam as terras circumvisinhas, quando as gallinhas tiverem
dentes.

Precisamente esse dia, a aldeia de S. Mathias suspendera os trabalhos
do campo em signal de festa; os das herdades tinham vindo com os seus
cajados e as rudes botas altas de coiro branco, rolavam bailaricos por
todas as casas; e no terreiro da egreja, ás portas das vendas, no
balcão da escola régia, ou mesmo ás embocadas das ruas, por aqui, por
alli, os camponezes em ranchos, fato novo, ruborescencias de vinho no
queimar da face, havia mais de tres horas que aguardavam a boda. Os
campos n'esses meados de junho, tinham primeiros doirados do trigo
maduro, ondulante e farto, que a aura por zonas encama n'uma saudação
graciosa; por um lado e outro, entre gavelas arrepeladas sem ordem,
remoinhos desflorados de messe, como labios de rapariga ardente, ria o
escarlate das papoulas; e como aos sóes da quadra tinham vindo as
cigarras, ruido de cega-rega, trocavam alertas d'arvore em arvore, á
medida que ia avançando o verão. Entanto ainda as noites
eram frias, e o orvalho da manhã perlava nas folhas, secretas lagrimas
d'amor trahido; corria mesmo agua por alvercas e ribeiros, fria,
salobra das terras atravessadas, dando erectos viços aos panascaes
verdejantes, ás junças e mentrastes das ribanceiras. Microscopicamente,
as vinhas iam esboçando cachos, entre pampanos pizados d'amarello e
vermelho ferrugem; começam a vir os perdigotos, as rolas tinham
chegado d'uma aspera migração, e desconfio que os melros, casados de
fresco fazendo musica de opereta entre os murmurios das cannas e dos
silvados, arredondavam já os seus ninhos, á espera da petizada. N'essa
grande paz bucolica, a alma abraçava simples ideaes de ventura, nua
d'ambições desordenadas e volupias lividas, e na doçura de palpitar
entre aromas silvestres, ia voando em cata de amores delicados e
mansos idyllios, pelas veredas onde as condoidas espigas se curvavam,
a depôr nos regaços esmolinhas do primeiro trigo em sazão. Vista de
longe, a aldeia era encantadora d'alegria e brancura. Nas collinas, de
roda, empoleiradas ermidas vigiavam por ella dia e noite; Deus
foragido pela descrença das cidades, andava por alli talvez na
estatura de algum velho mendigo de fallas doces e resignada
humildade; e pela noite, quando os rebanhos vagarosos seguiam para os
curraes, esse cantinho rustico tinha scenas biblicas d'uma graça
innocente, pastores e pastoras ajoelhando ao toque das Trindades para
dizer o _angelus_, risos de ganhões pelas devesas, cantigas que se
apagavam nas corcovas dos caminhos, emfim tudo quanto entretece a
elegia plangente do morrer do sol. Esse dia casava-se o Carlinhos com
a prima Dora, e as duas casas fortes do districto, tantos annos
separadas por odios, iam emfim restaurar-se na bôa cordealidade, por
esse laço dos primogenitos.

       *       *       *       *       *

Imagine-se o espanto e a curiosidade que um tão inesperado successo
derramou por toda a provincia, conhecidas como eram as desavenças dos
Zarcos, desde tanto apregoadas. Mas assim como tinham ficado na sombra
os motivos de apartamento, assim tambem incognitas ficaram as molas
intimas da nova amizade entre as duas casas. Evidente, que o principal
motivo de ligação era o casamento dos rapazes; isso não bastava
entretanto; outras secretas ponderações deviam ter influido;
e essas, quaes? Porque, emfim, era conhecida a indole orgulhosa e
tenaz da viuva; as suas phrases sobre o cunhado citavam-se em modelo
d'altivez varonil e decidida independencia; e por seu lado o da Torre
não a poupava tambem. Nem uma só vez Dora tinha fallado a sua tia;
creancita ainda, succedera encontral-a não sei que de vezes; os olhos
pretos da viuva detinham-se um momento na figurinha petulante da bébé,
e desviavam-se logo sem rastro d'affecto. Verdade é que o velho Zarco
referindo-se a Carlinhos, punha sempre palavras crueis, marau, vadio,
o filho d'aquella...

Subitamente, eis que os rapazes iam casar! Jámais por aquellas
redondezas se tinha dado coisa parecida. Vamos nós agora a vêr, se a
da Oriola virá dormir á Torre! diziam muito interessadas, das suas
soleiras, as gordas comadres de S. Mathias. A mór parte nem tal
acreditaria, mesmo vendo. E as apostas começaram. A vêr como dorme!
Apostar em como não dorme! A camarilha de Manuel Zarco arengava com
sobranceria, entre os grupos mais impacientes:

--Afinal, quem se humilha são os da Oriola. É bom saber!

E uma de preto, a Fevronia, toda preponderante, meia azul e
sapato rôto, batia palmas n'uma loucura, dizendo por todas as casas:

--Quem viver tem muito que contar, não haja duvida.

Foi n'este marulhar d'opiniões e trocadilhos, que um forte rumor de
sege alborotou a aldeia e emquanto rapazes descalços corriam, cães
ladravam, e cabeças de mulheres vinham ás portas espreitar avidamente,
os trens da Oriola romperam a grande passo pela rua larga, vindo topar
alfim nas escaleiras do adro. Este caso foi muito fallado, e ainda se
pasma da magestade com que se apeou a viuva da sua grande berlinda
estofada a casimira perola, grandes fivelões e lanternas de prata
esculpida. Tinha-se chegado muito povo a vêr, as janellas guarnecidas
de madamas, e o mordomo da senhora viuva, gordalhudo, com uma
expressão presidencial, desenrolou um rico tapete amarello e branco
pelo adro, desde o estribo até aos portaes do templo; os creados da
taboa tinham-se erguido e descoberto; e n'isto Manuel Zarco com um
riso amarello, todo curvado de obsequios, casaca e luva branca, saíra
a receber sua cunhada; e quasi a medo, todos repararam, offerecera-lhe
a mão para saltar. Diz que ella nem o encarou, e foi sósinha
pelo tapete fóra de cabeça alta, um dos braços pendentes, e a cauda do
seu vestido de damasco negro roçagava que parecia mesmo da senhora
rainha. Carlinhos ia atraz, um pouco deslocado na casaca de noivo,
porque em verdade ia-lhe melhor a jaqueta e o chapeu largo. E fechavam
cortejo as velhitas que tinham embalado a viuva, ambas de roxo,
ajoujadas, chapeus muito profusos de violetas, e mitenes de renda onde
as suas velhas mãos boiavam carcomidas. Junto ao altar tinham posto
uma grande poltrona em setim rutilante, flordelisado a ouro velho,
onde a viuva se assentou sem mais cerimonia; e todos em pé serviam-lhe
de côrte, com passadinhas respeitosas e pequenas vénias cheias
d'uncção. Apoiado á espalda da poltrona, velho Zarco mastigava
demoradamente as palavras com o seu modo somnolento, siflando os _ss_
de quando em quando, e ella sem lhe dar attenção, um momo altivo de
labio, entretinha-se a esfolhar com o seu pé de fidalga, rosas brancas
espalhadas pela alcatifa.

Embalde o da Torre lhe fez notar que melhor seria assignarem as
escripturas em casa d'elle, como era natural, até ficava
alli perto, no largo. V. ex.a descançaria um pouco nos quartos de
minha filha...

--Meu cunhado, não me sinto fatigada, assignaremos isso no gabinete do
prior, onde quer que seja, mas sem arredar pé da egreja, que é casa de
todos. E a proposito, disse ella tirando o relogio, é a hora, duas e
meia. Janto ás seis, o caminho é longo.

O da Torre ia a sair, a viuva tinha-se erguido sem reparar na
impressão que estavam fazendo os seus cortantes modos de dizer. Manuel
Zarco deixou-se caminhar ao lado d'ella foi-lhe lembrando com voz
mansa que os velhos rancores deviam acabar com aquelle enlace dos
filhos: tudo afinal se esquece.

--Tudo não! disse ella bruscamente. E proseguiu: pódem casar, pódem
casar. Carlinhos além de tudo, não é meu filho, aliaz tinha-lhe
prohibido esta alliança, meu cunhado!

--V. ex.a é então muito orgulhosa, notou velho Zarco despeitado
d'aquelle tom.

--Crê isso? disse a viuva abrindo o grande leque d'oiro e plumas, que
reluzia n'uma polvilhação de pequeninas pedras.--E de repente, n'um
accesso de voz intimativo: Sabe, meu cunhado, que seu irmão era homem
para o ter morto, se acaso tem vindo a saber... Porque francamente,
disse ella com os dentes cerrados, rigida e faiscante nos seus
damascos negros, francamente, é desprezivel, o senhor! Tenho ainda nos
pulsos signaes das suas unhas. Adoro o Carlinhos, creia--eis porque ás
vezes me aterro da mulher que elle escolheu. Meu Deus, se essa
creaturinha sahir ao pae!

Os dentes do outro rangeram--porque não casou então comigo? disse elle
com frenesis na raiz dos cabellos.

A viuva riu-lhe na cara.

--Eu? Eu? Ora, meu cunhado!

Fez dois passos na alcatifa, quebrando n'uma crispadura electrica e
larga, a enorme cauda applicada de rendas antigas, ao tempo que os
dedos de Zarco rasgavam convulsivamente a luva descalça de rompante.
Ambos trahiam colera nos _zig-zagues_ que faziam marchando. Os olhos
ainda magnificos da viuva procuravam o da Torre, phosphorentes
d'ameaça. E o velho, como quem não acha outro caminho para fugir:

--Emfim, desmancha-se este casamento, se quer.

--Não, já agora, elles desgraçadamente adoram-se, Carlinhos
mostrou-me as cartas, amor de muitos annos, inda eram pequeninos. Deus
sabe se o senhor mesmo approximou...--E subia-lhe a voz em graves
dramaticos, com vibrações de metal.--Mas, meu cunhado, acautele-se,
acautele-se! Sua filha vai comigo, voltal-a-hei contra o senhor.

--Oh, disse elle, experimente.

--Pois veremos.

--Vou buscal-a, resumiu elle transtornado, curvando-se. E muito baixo,
querendo dominal-a: que inimigo horrivel eu tinha, se a senhora fosse
um homem!

--Matava-o, respondeu ella estendendo o punho n'um gesto de Rachel. E
ajuntou a rir: tão certo!...

Carlinhos vinha para elles, já o velho Zarco se afastava. E vendo-o no
seu ar de cavalheiro, estatura correcta, alto, um fulvo esplendido de
pelle, bocca firme nos cantos sob a velludagem do buço, quasi
innocente na graça leal do sorriso, esse rir da viuva, correndo
imperceptiveis _nuances_, foi gradualmente adoçando, enternecendo,
perfumando como um licor que se evola entornado, de modo que era
divino quando Carlinhos, femininamente, lhe deu a beijar a testa. Ella
então sem se importar, attrahiu-o a si n'uma paixão de leôa,
como se nunca mais se vissem, e dizia-lhe coisas entrecortadas, a
chorar, a beijal-o furiosamente, estreitava-o mesmo sobre o coração,
com impetos d'abandonada, que se fica nos occasos da vida, sem mais
ninguem que amar. Fosses tu das minhas entranhas, não te queria mais
que te quero! E essa maldita, hade expulsar-me do teu coração.--Elle
queria contel-a, quasi envergonhado de os estarem olhando á roda,
jurava-lhe, promettia tudo, n'um precipitar de palavras meigas. E á
flôr da abobada nua e branca da egreja, andorinhas corriam chilreando,
filhos e mães que inda não tinham emigrado, e demoravam residencia no
calor dos velhos ninhos patriarchaes.

       *       *       *       *       *

N'isto, fez-se um grande rumor, que alastrado, mais e mais confuso,
por todas as ruelas, ia pondo as gentes de sobreaviso; viram-se
rapazes e mulheres correndo ás esquinas que defrontavam com o largo,
janellas que abertas de chofre inchavam de gentio com fatos de gala,
grupos freneticos buscando posição de vêr melhor; e de repente, quando
a orchestra de Beja entrou a choramingar uma symphonia no
côro, ondas de familia romperam na portada sem guardavento, invadindo
as capellas, enchendo a nave, querendo forçar a balaustrada carunchosa
do sanctuario. Jámais S. Mathias tinha visto coisa igual, nem quando
D. Pedro V fôra a Beja--e francamente, de logo perdeu a esperança de
tornar a gosar outra grandeza assim de boda. A casa da Torre era no
largo, grande, pesada, singular, com esquinas de granito negro, onde
os escudos postos ao través esculpiam complicados symbolos de nobreza,
leões com asas, metade de um cavalleiro armado de lança e capacete,
Nossa Senhora dentro d'uma torre, cabeças de moiro n'um molho: e só
aguias eram algumas tres! Sobre os portões de columnellos gastos, com
argolas de bronze para prender as bestas, e portas de carvalho
fortalecidas com magnifica pompa de ferrarias damasquinadas, esses
brazões repetiam-se mutilados; no fundo do pateo aberto, d'um sabor
arabe, e com arcos á volta cobertos de hera via-se a ampla escadaria
de corrimões de bronze, alcatifada de fresco e cheia de vasos
decorativos; um velho cypreste lhe fazia sentinella, hirto á beira
d'um poço octogono, todo em altos relevos de pedra rugosa--em
casotas, acorrentados, inquietos, dois grandes mastins abriam sobre
quem chegava, o duro olhar sanguinolento. Na fachada cá fóra, a
correnteza de janellas senhoriaes, fria de butareus e cimalhas onde os
estorninhos gritavam, deixava pender ricamente sobre as velhas
saccadas, preciosas colchas hereditarias, amarellas com grandes
passaros em lhamas de prata, azul pallido n'uma loucura de mandarins e
pagodes, ou d'altos relevos brancos, verdes, escarlates, sobre foscos
de oiro indiano, onde as grossas franjas luziam. Pois d'essa casa
severa, vomitára subito um cortejo bizarro de noivado--á frente vinham
os figurões de Beja em grande _mise_, ricassos das terras proximas que
tinham chegado nas suas seges, velhos amigos de Zarco, lavradores,
funccionários, ultimos parentes da familia... E rodeavam o da Torre
todo pallido na sua grande barba, que levava a filha pelo braço como
uma grande musa germanica, alta, pudica, esplendidamente branca e
vaporosa n'um véu que lhe cahia aos pés. Fez bulha na aldeia o senhor
coronel do 17 com as suas medalhas ao peito, e um velho general de
metro e vinte e cinco, gesticulando para a direita e para a esquerda,
que mirava as femeas lampeiro como um galo, ao pé do vigario
capitular, um côr de parede, que mui dulceroso e beato, afiára o dente
em tres dias d'abstinencia, sonhando as delicias do _copo d'agua_.
Seguiam damas paramentadas de oiro e plumachos, luvas chinfrins de
dois botões, pulsos eticos chincalhando braceletes, muito estrepitosas
em sêdas de côr terrivel: e disse uma d'ellas para a outra, que seguia
ao lado, mortificada no peso da cuia--quem está mesmo um cangalho é a
Sardinha. Esta coisa causou grande pasmo; estar a Sardinha um
cangalho! Hi!... Muitas agglomerando-se em trouxa, discutiam tão
famoso caso. E gabou-se a morgada das Palmas, uma trigueirona de
cabello corredio, labio gretado, sêcca e presumida, que de chapéo
branco e vestido verde, fazia pensar n'um grande molho de nabos.
Depois as creadas, sinceras raparigas que choravam--isto deu pena em
S. Mathias--e quasi em braços no meio d'ellas, uma velhita em sêda
preta, pequenina como uma creança, levava um ramo de rosas brancas e o
leque da noiva, abanando n'um triste ar resignado, a sua cabeça branca
d'octogeneria. A aldeia estava toda no largo, gralhando a essa hora,
gente das lavoiras de roda, uma chafranafra de mulheres e homens que
se rasgava e bipartia, ao passar o acompanhamento. A cada passo,
pequeninos lances detinham a procissão bruscamente, e viam-se as
raparigas sahir dos ranchos, tostadas, fortes, rindo com soberbas
dentaduras, cabellos de trigo maduro remoinhando em serpente no alto
das cabeças...

--Com sua licença--e deitavam flôres sobre a herdeira, commovidas, um
ar de filhas de burgo medieval. Á porta da igreja, o Carlinhos estava
entre os seus, crescia a turba embatendo-se; e por traz a viuva muito
pallida, tinha os vagos olhos das frias estatuas antigas, inertes,
dilatados d'insomnia, como prescrutando ao longe os tempos em que
ainda não eram de pedra, e uma vida lhes circulava e ria no alvor dos
membros nús. Deu-se então no Zarco e na viuva, ao mesmo tempo, um
calafrio de ciume, quando os noivos se encontraram com a mesma flamma
nos olhos; e os dois perceberam que iam ficar de mais n'esse idyllio
de creanças, absortas uma na outra, que esquecidas de tudo, iam de
mãos dadas pela igreja fóra. N'essas velhas idades d'amor egoista, em
que os filhos são o calor, o orgulho o motivo de viver--o
choque d'ambos, percebendo que lhes tinha acabado o imperio sobre
essas adoradas creaturas, foi tão violento e fulminante, que se
deixaram ficar atraz no meio da turba, com vagares de fundo desalento,
ella direita, sem desmanchar a estatura soberba, derrubado elle,
pacifico, apagado, enorme como um elefante, e sem dar uma palavra para
não desatar alli em soluços, trespassado dos primeiros regelos do
abandono. Cortando então por entre a gente, ouvia por toda a banda
humildes palavras de conforto e piedade; velhas mães que o
encontravam, lacrimejantes, attentando-lhe na face descahida--Vae
ficar só n'aquella casa tamanha, coitadinho do amo Zarco hade-lhe
custar. Isto de filhos!

--E são os da Oriola que levam a nossa menina! Abaixar-se o amo...

Porque todos os subditos sabiam já da capitulação deshonrosa d'esse
velho rei de charnecas e montados; umas poucas de palavras colhidas na
altercação com a viuva, serviram de base a toda a sorte de commentario
e parlenda sobre o casamento; pintava-se e repintava-se de grupo em
grupo, a expressão terrivel da viuva fallando a seu cunhado,
palavras cruas ditas por ella, _acautele-se, acautele-se levo-a
comigo_, e outras muitas; e o amo Zarco todo enfiado, ali a ouvir, a
rezar desculpas, a fazer-lhe vénias. C'os diabos--nem que comesse os
sobejos d'aquella magana!

--Fosse comigo, fazia cada qual em grandes quizilias.

--Ai, argumentavam muitos pachorrentos, é o que se vê hoje em dia.

--Tão má, filhos, que nem as escripturas quiz assignar em casa do
cunhado.

--Inda assim não entalasse o rabo, figurona!

Mas depois de longas conjecturas, recapitulando, toda a gente acabava
por dizer que andava ali o quer que fosse. Olá se andava!

       *       *       *       *       *

No gabinete do parocho tinham posto uma grande mesa, e em roda bancos
negros da confraria das Almas, para os convidados se assentarem. Era
uma casa verdenta de paredes, com fendas ao través na abobada, pintada
de frescos mais que barbarengos; e por um buraco de cima, passava a
corda da sineta, que desde que se rachára o sino, servia para chamar á
missa a freguezia. Ao fundo, pezava um grande armario de
carvalho negro com espelhos de metal que verdejavam; e paineis de
santos esburacados á navalha, cahiam aqui e além, emmoldurados em
talhas carcomidas. Uma luz de cava vinha de cima, por uma janella sem
portas, onde se cruzavam varões de ferro. Como a casa era estreita,
apenas foram á leitura do contracto, os intimos amigos ou personagens
de pezo. E o tabelião Mathias homemzarrão com uma cabecinha
humoristica de japonico, estimavel e estupido, principiou com a sua
voz em falsete nos fins de cada periodo, a ler artigo por artigo as
escripturas, circumvagando a cada clausula os seus olhitos por cima
d'umas olheiras paposas, onde as bexigas tinham picado covinhas de
sombra.

«...e mais dou a minha filha Dora Victorina Maria de Sousa Alvim Mexia
Zarco da Cunha Menezes... as herdades denominadas da Cova, das
Sesmarias, da Chaminé, e Côrtes tanto Grandes como Pequenas, com seus
montes, gados, arvoredos, dependencias e serventias, a partir do dia
em que desposar o dito seu primo Carlos; e mais lhe faço doação de
todas as minhas lavoiras do Guadiana, que vão entre os moinhos da
Coitada e a minha quinta de Valle de Borrucho, constando de
doze herdades seguidas, partindo d'uma banda com o Guadiana, da outra
com a estrada de Moira, da outra...» E aqui Mathias foi obrigado a
parar, porque um borborinho d'espanto se levantára entre os
convidados.--Que? Dava tudo aquillo á filha? As lavoiras do Guadiana,
o melhor trecho de propriedades do Baixo Alemtejo? Mas endoidecera
esse homem com certeza! Despir-se para enriquecer o genro! Tomé dos
Panascos, que trouxera arrendadas muitas terras da Torre, e passava
pelo melhor avaliador da cercania, punha as mãos na cabeça com uma
face attonita e consternada.--Jesus! Não contente de humilhar-se ante
a viuva, inda em cima lhe cobria o filho de oiro. Mas é que ia ficar
arrasado! Dar á filha mais de seiscentos contos, sem restricções, sem
condições, sem cautellas... E Thomé foi junto do seu velho amigo, e
disfarçadamente puxando-lhe a manga:

--Olha que te arrependes, Manuel. Que é que te fica para viver?

O da Torre encolheu os hombros.

--Desgostos, fez elle muito baixo, e disse ao tabellião para
continuar.

--«E outrosim lhe entrego toda a plantação de vinha e
olival, que possuo livre e isempta, no sitio das Barrocas, freguezia
de S. Pedro de Portel, cerca de quatrocentos milheiros de cepa e tres
mil pés de oliveira...»

--Meu pae, balbuciou Dora, avançando para o velho que estava junto da
banca ennovelando a barba n'um movimento calmo.

--Vá, Mathias, depressa! ordenou elle, emquanto cada vez mais, n'um
phrenesi crescente, os convidados se acotovellavam e comprimiam, não
querendo acreditar no que lhes fôra lido. O tabellião enumerou o que
restava d'uma fortuna rural cedida em dote, moinhos, hortas,
ferragiaes, montados de retalho, ruas inteiras da aldeia; tudo que
Zarco possuia, bom e mau, pequeno e grande, tudo dava a sua filha com
a mais generosa confiança.

--Mathias, disse ainda o velho Zarco, falta a casa da minha
residencia, o quintallão e as abegoarias. Accrescente que a contar de
hoje, lh'os dou tambem.--E voltado para a cunhada, com a sua face
radiante de altivez fidalga, fingia não sentir as murmurações de roda.
Fóra, na igreja, no adro, no largo, por essas casas todas da aldeia,
já se contava que o amo Zarco estava doido, e peor ainda, ia
ficar ás sopas da filha. Dera-lhe tudo, sem acautelar a sua rica
subsistencia, o seu vestuario, o seu sequito. E uma hesitação quebrava
agora em facções a gentana: á piedade succedera nos ganhões o
fatigante receio de serem despedidos da casa pelos amos novos. Zarco
descia--quando um tocante episodio deu nos espiritos a nota mais viva
da emoção. Foi a leitura, do que a pequena velha que levava o ramo de
rosas e o leque, dava á sua menina. Mathias, elle mesmo commovido, ia
dizendo:... Umas contas de oiro com imagem de Nossa Senhora da
Conceição, a sua capoteira de velludo verde, duzentos dobrões em oiro
n'uma bolsa vermelha, a tapada da Vanga...

Dos bellos olhos pudicos de Dora saltaram lagrimas por baixo do véu;
nos proprios olhos de Carlinhos faiscavam pontos humidos; de redor nas
gentes, faziam-se monossyllabos ternos; mas toda radiante de ser o
alvo, correndo a assembléa com a sua cabeça tremula, a velhita
exclamou:

--Esperem lá, esperem...--e para Mathias, muito ruidosa nas sêdas
pretas: leia lá!

--«...com a expressa condição de residir seis mezes do anno em casa de
seu pae, durante nove annos, ou em logar d'ella, algum de
seus filhos, caso seja fecundo o casal.»

--Ouviste bem? redarguiu ella sensibilisada, abraçando-se a Dora, e a
sua cabeça dava pela cintura da noiva. É que nós não queremos ficar
abandonados, nem eu, nem teu pae, e a nossa casa.--O que fez com que o
dos Panascos fosse dizer baixo a Manuel Zarco:

--A velhota teve mais juizo que tu. Emfim lá estou, se um dia... É
como se fosse tua casa, Manuel, bem sabes!--Chegou então a vez de se
saber o que dava ao Carlinhos a senhora viuva. Mathias começou com a
sua voz gordurosa, e para ouvir, inda os convidados se apertavam mais.
Era quasi uma replica da viuva, á arrogancia com que o da Torre
amontoára riquezas aos pés da filha. Foi longa a lista, novas herdades
iam passando, arribanas, laranjaes, vinhedos, joias, louças, palacios,
rebanhos, casebres, trens... D'esta vez quem se espantava era a
Oriola--e por seu turno a viuva ficou nua.

Processionalmente então, e á medida que iam firmando o contracto, como
a cerimonia findava, em reverencias de vassallos ante uma
grande potencia, passavam os convidados diante dos noivos, com
sorrisos de grande gala, alguma graça estudada, dando parabens com
ares cavalheiros, ou demorando-se a affirmar esta ou aquella
intimidade, na adoração dos mil e setecentos contos de dote. As
mulheres sobretudo, cercavam Dora de pequenas ternuras ridiculas,
beijos muito repenicados, segredinhos entre risadas. A morgada das
Palmas fez-lhes prometter que a iriam visitar ao seu monte de
residencia; o general citou alguma coisa no gosto bocagiano; velhos
lavradores que tinham trazido ao collo Carlinhos e Dora, de palpebra
humida davam-lhe conselhos, descançando-lhes no hombro as suas grossas
mãos de trabalho. E n'uma avidez, sempre de longe, a viuva contemplava
a sobrinha, idealisada no meio dos tules, como uma grande figura de
legenda.

Quando viu menos gente no gabinete, Zarco foi apresentar Dora a sua
cunhada; a recepção foi quasi affectuosa, abalada a viuva como estava,
pela grande batalha de generosidade que momentos antes ferira com o da
Torre. Foi quando Dora levantou para beijar a tia pela primeira vez, o
grande véu de noiva em que vinha envolta. Essa belleza senhorial
d'uma soberba esculptura, que a viuva nunca pudera contemplar assim em
plena efflorescencia, pareceu feril-a com o seu esplendor de pureza e
brancura, porque se pôz muito pallida, apenas o véu de Dora se
erguera. E por muito tempo ainda, considerava sem poder fallar, a
sobrinha. Em volta, nas gentes da Oriola, o mesmo fremito de surpreza
fizera correr murmurios de labio em labio. As duas velhas aias tinham
corrido a Dora, e soluçavam. E a viuva de mãos no peito, como
sustendo-lhe o frenetico pulsar, reconhecia por verdadeiro o que por
varias vezes lhe chegára aos ouvidos, vagamente, como uma opinião sem
força--isto é, que Dora era o retrato vivo d'aquella querida filha,
tão meigamente loira e tão formosa, unica creatura que ella amára no
casamento, e pela qual mesmo tinha chegado a aborrecer menos o marido,
Laura emfim, a sua pobre creança, morta com vinte annos, pouco antes
da adopção de Carlinhos.

Evocação da unica memoria que ainda hoje a fazia toda vibrar, esta
resurreição em Dora, da celeste creatura nascida das suas entranhas,
exacerbando angustias passadas, acordaram na viuva de Fernando Zarco,
menos asperos propositos de conducta. E voava-lhe a idéa
pelas lembranças já longinquas dos seus primeiros tempos de esposa,
aos dezasseis annos, quando por cubiça do pae, uma vez acordára no
leito do lavrador da Oriola.

Seis annos de infecundidade tinham assignalado depois melhor essa
frieza d'esposos, que quasi nem se haviam conhecido. Era ao tempo
ainda dos dois irmãos serem amigos, companheiros de caçadas e
aventuras. Manuel com as suas espaduas de hercules, e uma barba de
scandinavo muito frizada nas pontas, quasi branca junto dos labios,
era o typo da prudencia, fallava pouco, e ria com todos os dentes, um
riso ingenuo que antes parecia de rapariga pela doçura do esmalte; e
quando os seus olhos de violeta, atravessados d'um brilho leal e
timido, se erguiam a procural-a, ella experimentava não sei porque,
tamanha melancholia e quebramento, que se ficava ainda com mais pena
de ser mulher de Fernando, um tostado, para mais grosseiro e leviano.
Ah, como isso ia já longe! E Manuel todos os dias achava alguma
pequena lembrança que lhe trazer; ninharias primeiro sem intuito
previsto, depois expendidas a furto, acceites em segredo... O certo é
que ella amou o cunhado, porque o perfume d'esses beijos a
embriagava, no carmim dos seus labios d'adolescente. Fernando, que era
soberbo, aspero, intractavel, brutal, _coração ao pé da bocca_,
desconfiou mas sem medir a profundeza da culpa. Ella vivia n'esse
tempo inteiramente só, sem amigos, nem protecções do marido, muito
nova, tão cheia d'impetos! E das profundezas do seu corpo exhuberante,
cheio de fecundas desordens e d'amores indomaveis, vendo-se alli
abandonada, vinham-lhe furias de peccar. Um domingo, os irmãos tinham
ficado mal; nascera aquella filha, de quem Dora copiava a belleza--e
tal documento da sua culpa, trouxe-lhe a secreta vergonha que agora
gotejava odio sobre o irmão de seu marido.

       *       *       *       *       *

Depois da benção, o sr. vigario geral pronunciou uma allocução toda
faustosa e erudita, em que se comparava a vida a uma nau vogando no
mar procelloso das paixões, entre escolhos de vicios e malquerenças; e
alli sua rev.ma descompôz mais uma vez os seus adversarios politicos,
attribuindo-lhes a ultima estiagem e a decadencia dos costumes;
e com philaucia denunciou que os maridos não tratando senão
d'eleições abandonam as esposas á phantasia das suas pobres cabecitas,
do que se aproveitava o demonio para ir centuplicando os adulterios.
Isto levou tamanho donáto a philosophar sobre a familia, e desfilaram
as qualidades dos Zarcos, o seu amor ao progresso e á liberdade, e do
que os povos de roda lhes deviam, pois ainda no inverno passado, os
fidalgos tinham dado córte gratuito nas herdades perto, afim da pobre
gente ter lume nas asperas noitadas.

Saltou d'aqui naturalmente nas inimizades que por tantos annos tinham
separado as duas familias (inimizade não, emendou logo com um meneio
unctuoso; diremos antes melindre, susceptibilidade ferida, pequena
divergencia de familia--era de mui bonitos termos s. rev.ma! Inda
que...) Mas, proseguia o orador, o distrito todo exultava de vêr
unidas de novo as duas casas, todos davam graças.--E batendo no
pulpito, com gestos de quem chama a si o melhor da christandade, uma
imponencia no carão, fechou trecho com um latinorio dos santos padres,
faustoso e seraphico, que por sinal mereceu uma palavra irreverente ao
lavrador dos Panascos.

Quando a cerimonia acabou, foguetaria e vivorio estrondeavam
por essa aldeia toda, repercutindo os entônos e ritornellos de fraga
em fraga--enternecia a tarde nos campos com a descida do sol, uma
poeira de oiro tamisava os fundos, aqui, além, immovel sobre o ar, e
dando á paisagem velhos tons de pintura fanada. E o cortejo sahiu da
igreja como viera, mas bem numeroso e mais rico, pois lhe estava
adiccionada toda a Oriola, ganhões, creados, convivas, amigos, as duas
velhas aias, e coisa pasmosa! a propria senhora viuva.--Anda, sempre
te abaixaste, bem feito! dizia-se _á da_ Fevronia, na passagem do
cortejo. O coronel dera o braço á viuva que descera meio véu; o
generalito, gazil como um rato sabio, levava a morgada das Palmas,
muito birrenta de lhe terem descosido a cauda verde nabiça; e Dora
pelo braço de Carlinhos, vermelha, comovida, grandes olhos de saphira
humida, radiava a frenetica belleza d'uma virgem que se abala e
palpita, ao primeiro contacto d'um homem.

O cortejo é que não ia directamente ao portão d'entrada da Torre, mas
enfiou pelo enorme pateo de lavoira ao lado, a pretexto de vêr a
_funcção_ que se preparava aos servos e trabalhadores. N'um
banquete monstro, S. Mathias e a Oriola congraçavam, comendo ao lado
uma da outra, na melhor harmonia e folgança; e só no intuito de sagrar
esta confraternagem, a viuva accedera vir a casa de seu cunhado, sem
quebrar as juras que fizera, pois não passaria o terreno neutro do
pateo. Desconforme como um dominio, era esse pateo de muralhas rudes e
portadas soberbas, onde os varões de bronze raiavam, e pendiam das
portas formidandas, como corações de molochs, os grandes cadeados de
ferro. Descia-se das cozinhas por um balcão de pedra com escadarias
lateraes e mutiladas estatuas, em cujos velhos pilares se vinha
tanchar a dentuça dos corrimões estruidos. Diante do balcão, ia ao fim
do pateo uma alameda de castanheiros gigantescos, murmuros sob a
verdura das suas folhas acres, d'onde um frescor gottejava no esmaiar
da tarde. Um grande portão aberto ao fundo dava sobre os laranjaes da
horta, sombrios áquella hora n'um verde metallico condensado, redondos
até ao chão relvoso pelas imbibições da rega, humidos, picados de
fructa, e filtrados d'uma aura toda enervante em nupciaes essencias.
N'essa alameda de castanheiros amigos, tantas vezes percorrido
do pae e da filha, onde pela manhã palafreneiros passeavam á
redea os cavallos de sella, ou vinham limpar o pequeno coupé de
serviço, onde tinham logar as tosquias, as ferras e as matanças nas
epocas da praxe; n'essa alameda tinham construido uma mesa sem fim
para quem chegasse, homem, mulher ou creança, fosse d'onde fosse e
viesse de onde viesse. Aos lados alargava-se o pateo até ás
abegoarias, cavallariças e estabulos. E um tom de boda reinava por
toda a parte; nas carretas de trabalho postas em bateria, mais os seus
tropheus de forquilhas, ensinhos e pás, radiando das joeiras, arneiros
e mulins, como panoplias em sala d'armas; nas paredes cobertas de
murta e gilbarbeira, onde as corôas d'espigas maduras faziam rodopiar
serpentes de oiro pallido; nas largas manjadouras que as bestas
esfocinham rilhando os fenos perfumosos; em arcos de flôres de arvore
em arvore, risos e saudações levadas a um delirio realmente
captivante. Em quatro dias tinha-se abatido um rebanho de carneiros e
bodes, o arroz viera n'uma quantidade de carretas, não sei quantos
moios de lobeiro em farinha para a amassadura, o poder do mundo em
couves, para mais de vinte pipas de vinho... E a Fevronia
punha as mãos do _error_ de moedas que ia custar a frescata ao
fidalgo--mas coitada! era uma pobre, sempre foi atando ao cós das
saias a mais funda taleiga de quadrados, e sumindo-se debaixo do chále
a mais disforme escudella da sua pilheira, para arrepanhar as
sobrasinhas. Ora, deixal-o custar caro! Em compensação, que grande
kermesse em plena tarde, sob a viva e sagrada cupula das arvores, onde
trigueiros e loiros dos dois burgos rivaes, se abraçavam cantando e
rindo nos seus luxos domingueiros, cinta escarlate, chapéus de borla,
jaleca ao hombro, e a camisa crua de grandes collarinhos molles,
acolchetada pelo nó da goela. Com a largueza do terreiro, a malta
farandolava em quantos recreios havia: por aqui atiravam a barra os
valentões arregaçados até aos hombros, estriando as musculaturas
bovinas nos rompantes d'uma destreza infrene aos berros de cada vez
que alguem passava a baliza, ou não chegava a ella; por além
bailava-se de roda das arvores, deitando as vagarosas cantigas do
trabalho rustico; em tal sitio havia saltos, n'outro luctas,
_desgarradas_ n'outro; e tudo isto n'um borborinho infernal que
ensurdecia a gente. Vinham chegando as raparigas de claros
cabellos lisos nas fontes, com flôres no remoinho das tranças. E a
Oriola abrasava de as vêr tão brancas, boas carnações flamengas, saude
affiançada, perna dura, seio fecundo, dentes finos, e essa maravilhosa
doçura d'olhos violeta, tão peculiar como era sabido, aos bastardos do
amo Zarco da Torre. Ellas iam apparecendo a pequenos ranchos,
envergonhadas dos _de fóra_, lenços em cruz sobre os seios inviolados,
de mãos dadas e braços bamboleantes, como os recrutas em passeio.

Os negros da Oriola diziam-lhes então gracinhas, botavam-lhe rima na
passagem; e era vel-as a rir escondendo os olhos c'os braços, abalando
côr de romã umas atraz das outras, para dizerem de longe aos
mariolas--que não se fizessem destemidos nem confiados, e fossem lá
ter chalaças com as pretas da sua terra, perceberam? Mas a outra
porção da Oriola por seu lado, gente madura e reflectida, ainda
desconfiada da senhoril hospedagem na Torre, sempre tinha querido
inspeccionar, vêr com os seus olhos, apalpar com os seus dedos, todo o
maravilhoso arsenal agricola, instrumentos, machinas, animaes, bombas,
poços, bebedoiros e hortejos--e por essa aldeia que viera,
subia um respeito de gente cavadora e mandada, que mal disposta para o
da Torre, agora se dobrava, reconhecendo n'elle o genio de um lavrador
modelo. Ah! o que se chama grandeza, ordem, elegancia e precisão! Que
gados, que acommodações, as cathedralescas médas d'azinho, pombaes,
palheiros, ferramentas de trabalho!

Colossal tudo aquillo--e os tostados da Oriola baixavam os seus olhos
arabes e premiam os seus beiços de negros, ante a victoriosa grandeza
dos loiros de S. Mathias. Quem havia de esperar, compadre, uma coisa
assim?--N'isto, um velhote grosso e vagaroso, que do balcão andava
mirando tudo, apenas o cortejo apontou para o lado das abegoarias,
poz-se a repicar do alto uma sineta: era o jantar. E duas
philarmonicas romperam latindo musicatas gentias, emquanto as palmas,
os gritos, os vivas e os saltos, centuplicavam de toda a banda.

E a viuva deixava-se ir entre as aldeias congraçadas, que no abandono
animal da vida rustica, riam alto com dentes famintos, e na passagem
dos amos, tirando os gorros, acenando de longe com os chapéus, erguiam
meio corpo da mesa, para lhes dar bôas tardes familiares.
Alguns mais ratões da Oriola--e sempre a Oriola teve fama de moços
reinadios--botando cantiga ás raparigas, que chegadas tarde ficavam
sem logar nas mesas, offereciam-lhes por cadeira os joelhos e por
encosto o coração. Ellas riam largo, já menos esquivas; muitas,
sollicitadas, davam-se por noivas d'aquelle e mais d'este; e á ordem
do homensinho da sineta, chegava a creadagem com o arroz dos fornos,
aloirado entre ramos de salsa, empilhando-se em alguidares
desconformes, d'onde rompiam fumando, tenras, succulentas, as pernas
dos perús e dos patos. Então foi uma loucura de vivas, saltos, gritos
e cantares. Passava o vinho em picheis de barro, as saudes choviam nos
estimulos da sede, o tenir dos pratos era inquietador. Nunca Carlinhos
fôra mais querido que n'essa tarde placida de noivado, onde tudo ria á
sua mocidade leviana; a Dora que elle levava pelo braço e readquiria
vivezas de pomba; os pavões, que sob os telhados das abegoarias,
inquietos, gritando d'entorno ás femeas, abriam enormes leques
mosqueados d'ouro verde; nuvens de pombos que o ruido assombrava
forçando-os a revoar de cimalha em cimalha; e ao largo a paisagem
caindo n'uma paz luminosa, muito irisada em tintas subtis.

Ella foi-se isolando, isolando do ruido, até ao portão que dava para a
horta; parecia conhecer aquelles logares, distrahida, como quem
resuscita apagadas memorias. Olhava o muro de buxo talhado em fórmas
architecturaes, circumscrevendo o jardim pela esquerda, até se perder
n'uma folhagem aspera d'alfarrobeiras. Para aquelles lados n'outro
tempo havia um murmurio de fonte: tinha sido uma noite sem estrellas,
o braço de Zarco sustinha-a pela cintura e levava-a, de modo que os
seus pés nem tocavam o chão. E assustada, ficára a ouvir aquele choro
timido d'agua corrente: espera! ouço passos...--É o vento, disséra
elle, e os seus beijos endoideciam-n'a. Lá estava ella ainda a
gottejar na pequena concha musguenta, que um grupo de ephebos
sustinha, cavalgando golfinhos. Fôra em maio, a flôr dos favaes enchia
os campos d'essencias, o marido caçava o javali por Hespanha--n'essa
noite _elle_ tinha querido roubal-a, conduzil-a aos seus
dominios--ella resistira, não! não!... mas o perfume da sua barba tão
loira envolvia-a n'uma fascinação terrivel, e a bocca pequenina,
sincera, humida, talhada a buril, ao mesmo tempo imperiosa e
feminina, tinha-se collado por ella toda: quem poderia recusar cousa
alguma? Ouvia ainda o breack rolando pelas asperidões da estrada, os
cavallos que voavam, elle a guiar; e ao curvar-se para puxar as redeas
ou chicotear os hanoverianos, o clarão das lanternas illuminava-o de
perfil... Oh, as venturas absorventes que se resumem n'um momento de
peccado! Dir-se-hia o perfil antigo d'um Deus hellenico, branco,
herculeo, alado em juventudes divinas.

--Vaes ter frio, minha filha.

--Frio, eu, ao pé de ti!...

E do capuz negro do _bournous_ que ella levava, forrado de pelles
setinosas, os seus olhos ficavam absorvidos n'elle muito tempo, muito,
muito. A noite fazia as arvores terriveis, interminaveis os campos; e
apagando a perspectiva, approximava mais as montanhas, e punha
traições na goela dos precipicios... Vinham-lhe a cada passo
pequeninos medos, as pupilas verdes do remorso que a penetravam de
faúlhas calcinantes--lá está um vulto além, n'aquelle canto da
estrada... Os troncos corriam atraz d'elles com pernas de gigantes,
ennovelando-se, augmentando em numero á medida que o breack
fugia.

--Jesus! dizia ella n'um terror, são talvez espiões de meu marido.

Depois na ponte, um passaro tinha dado um grito, secretos escarneos
foram ciciando pelos labios das folhas; de longe em longe, uivavam as
raposas com fome. A cabecinha d'ella descahia no braço do cunhado,
fazendo uma caricia penetrante. Era espirituosamente tocada, correcta,
d'um modelo audacioso em que havia primores. E como ambos eram pouco
lidos, incapazes de fazer um amor litterario, dialogado por imagens,
cheio de contrascenas, permutavam as suas emoções tocando os corpos,
n'uma descarga de volupias balsamicas. O que ella lhe admirava era a
seriedade do aspecto, a forte enformatura dos encontros, uma força de
gigante cingida em delicadezas de creancinha. Esse rapaz sem
violencias, envergonhado de ser tamanho, uns receios de a molestar a
cada beijo, silencioso, tranquillo, com melancholias brumosas do
norte, subjugava pelo contraste, os impetos e os orgulhos da natureza
d'ella, toda impaciencias, _coquetteries_ e ardores.

Á chegada eram deshoras, cantavam os primeiros gallos em S.
Mathias--ella nunca tinha por alli passado.

--Gente na estrada, estamos perdidos!

Manuel tinha atirado os cavallos por um olival a dentro, apagára as
lanternas, e o _break_ em solavancos lá ia arrastado pelos terrenos
declivosos. Pararam. Um rumor de carros vinha da aldeia, guisos de
mulas, a voz de um homem cantando... Elles, á escuta, ouviam bater os
corações, com medo de alguem os ter pescado. Agarrada ao pescoço de
Zarco, ella batia os dentes, tresvairada n'uma paixão.

--Viram-nos, Jesus.

--Não, escuta, redarguia elle sopeando os cavallos. Em roda, iam e
vinham as sombras, no pavor das coisas sonhadas a arder em febre. Ella
exaltara-se: adoro-te.

--Mas, por Deus, não grites! dizia elle.--Davam beijos de lava, o
amplexo accendia-os, nenhum luctava, foram-se possuindo...

E agora velhos, inuteis na felicidade dos filhos, tendo-lhes dado
tudo, sem amor, nem coragem, cheios de cabellos brancos, odiavam-se
por desgraça!--Era ao fim do laranjal, o muro de buxo apparecia de
novo, nespereiras em flôr abriam parasol por cima d'um portello
baixo--toda a aventura se lhe reconstruia na idéa, nitida, chammejando
horriveis saudades. Sim! os carros de matto abalando á meia noite de
S. Mathias, a voz do homem cantando, esse fluctuante mysterio da
noite, é verdade, um sapatinho de velludo que perdera ao entrar, por
aquelle portello, ao collo d'elle... Oh, a medonha angustia de se não
ter outra vez dezeseis annos! Para além, olival, terrenos declivosos:
o _break_ parára ao pé d'aquella grande oliveira.

--Não sentes pena de deshonrar teu irmão?

--Mas cala-te, dizia Manuel num tom de queixa, emquanto a levava nos
braços docemente, como uma creança adormecida. Ella, supersticiosa,
fallára-lhe do grito que déra o passaro noctambulo, quando o _break_
entrou na ponte. Talvez prenuncio de desgraça!--Ao que elle respondia:
doida! Reparou nas roseiras que por alli floriam agora, como n'um
cemiterio consagrado pela saudade de muitos amores fenecidos. Fôra
alli, junto ao murosinho de buxo, que a respiração d'elle tinha
sifflado n'uma furia de titan semilouco, e o sapato caíra... Quantas
vezes depois o amaldiçoára, sentindo impreteriveis desejos d'ir contar
tudo ao marido, ao mesmo tempo que um suor frio a aljofrava,
só de pensar que Fernando podia vir a ter noticia do adulterio. Sim,
odio, era odio que lhe tinha n'este momento! Mas como seria bom
desabrochar n'outra juventude, radiar a seducção d'uma nova belleza,
ter ainda pudores de vestal, frescuras d'epiderme carminea,
virgindades de noiva, para ir direita áquelle infame, atirar-lhe os
braços ao pescoço, e dizer-lhe: adoro-te, macula-me outra vez!

Outras recordações então, lugubres, implacaveis, acastellavam na sua
mente, espectros de remorsos longinquos e gumes de suspeitas mal
esboçadas. Lembrava-lhe Fernando trazendo Carlinhos pela mão, depois
da morte de Laura, a dizer-lhe com palavras de chumbo, espaçadas
intencionalmente--este é meu, ficará n'esta casa! E como a olhára
dizendo isto, apenas ella n'um movimento de repulsa, erguera a cabeça
para dizer que não. O terror d'esses annos conjugaes tinha sido bem
cruel. Era o marido fital-a--tremia toda como um vime. Quando elle se
exaltava, ou se bebia, ou em os negocios correndo mal, a cada momento
ella receiava, que arrastando-a pelos cabellos, o marido lhe gritasse:
prostituta! Crescera nos povos a sua reputação de santidade; as
esmolas que fazia nem tinham conta, ia de noite vêr os doentes, matar
a fome ás cabanas sem chefe, e o seu nome incubava-o uma lenda de
poeticas virtudes e castidade suavissima. Se viessem a saber, que
vergonha! E ante o marido, o seu orgulho vergára, e fizera-se neutra a
sua violenta personalidade. Nos ultimos annos, Fernando Zarco tinha
caído n'um marasmo desopilante, não saía, não recebia, não fallava. Ás
vezes, ia ella levar-lhe de comer com o riso nos labios, uma palavra
carinhosa para lhe inspirar conforto; e estendendo o braço para
agarrar no talher, lentamente, como tendo alguma coisa grave a indagar,
elle ficava a miral-a com o ardor dos seus olhos encovados; depois ia
baixando a cabeça n'uma confusão, vagarosa, funebremente--sim! sim!--e
viam-se-lhe as narinas arfando nos haustos d'uma raiva subterranea.

Chegou á porta que rasgava no muro, por sob a cupula das nespereiras;
correu-lhe o ferrôlho depressa, empurrou-a com o pé, cheia de
curiosidade de penetrar no olival, até á velha oliveira onde n'aquella
noite, o carro tinha parado. Mas recuou com um gritinho de susto. O
cunhado nas almofadas do _break_, á sombra da arvore, aguardava por
ella como n'outro tempo.

       *       *       *       *       *

Manuel Zarco não quiz prolongar á viuva, a visão theatral que se
impozera, e desceu do carro para vir ter com ella. Em vez de veredas e
barrancos tortuosos, uma larga estrada cortava agora o olival, entre
eucalyptos colossaes, que sacudiam á briza molhos de folhas em
cutello. Ella nem podia fallar, branca de susto, humilhada de
vergonha, e sentindo o coração grosso de lagrimas. A voz de Zarco era
triste, porque tambem elle não tinha sido feliz.

--Como não quer demorar-se, disse elle, mandei os carros aqui. Partirá
quando quizer, as creadas nao tardam. A carruagem em que veio fil-a
reservar aos noivos, por ser ampla. Póde ir n'este _break_, é velho
mas de boas molas, tenho-o ha vinte e quatro annos...

--Antigamente, tornou ella junto ao portello, vencendo um grande
embaraço, não havia roseiras aqui.

--Não, disse elle galante, nasceram por onde o teu vestido roçou.--A
sua voz tremia.

--Chut! casaram hoje os nossos filhos.

--Mentes. Carlinhos vem d'uma cigana velha, a quem hoje dei
o que ella quiz levar. Teem-m'o dito muita vez! É negra, traz uma
filha, ouço que vivem de roubar por essas feiras.

--É verdade, murmurou ella suspirando; filhos só os tive de
ti.--Chorava a sua mocidade agitada, as terriveis dôres que soffrêra,
os orgulhos feridos de mulher.

--Ouve, disse-lhe então elle com supplica, não me tenhas odio, não
tenhas. Dora é tuna creança, ama-a um pouco, assim como amarias a que
nos morreu. Ellas parecem-se. Sobretudo, não lhe digas mal de mim.

--Ah, bem vejo que amavas tua mulher...

--E tu que amastes meu irmão?

--Mas é falso.

--De que serviria acreditar agora n'isso? Estavamos doidos quando nos
amámos.

--Sim, doidos d'amor. Ai como a gente envelhece depressa!

--Razão para ficarmos amigos, já que tudo morreu. Fernando nunca veio
a saber...

--Prouvera a Deus que assim fosse! Cala-te d'ahi! disse ella
bruscamente. Na hora da morte ia beijal-o, repelliu-me; morreu,
dizendo a horrivel palavra. E por tua causa! Não poderás dizer nunca
que te provoquei. Quando vinhas, fugi-te muitas vezes. Tudo
me abandonava então!...

--Esqueçamos: a vida dos nossos rapazes, exige. Vá, perdôa. Elles
viverão seis mezes comigo, seis mezes comtigo. De mais, ficámos
pobres. Os pobres não devem ter ruins paixões.--Ella cortava rosas, no
rosal que extravasava de roda. As velhas aias tinham chegado entanto a
pequeninos passos, arregaçando muito as suas sedas festivas; em carros
de toldo, jumentos e mulas, a creadagem repleta, cantando, chalaçando,
deixava S. Mathias caminho da aldeia. A viuva relanceou ainda os olhos
por aquelles sitios, lentamente, como a impregnar a memoria d'aquella
idyllica paisagem.

E para que ouvissem todos, fallando alto, pediu desculpa a Manuel
Zarco de não assistir ao _copo d'agua_, mas sentia-se indisposta,
tinha que receber os noivos... Elle abriu a porta do _break_, esperou
curvado que ella subisse.

--Zarco, disse a viuva aconchegando-se a um lado, emquanto as velhas
subiam e se anichavam tambem. Os nossos filhos que não demorem a
partida, vão ter frio pelo caminho. Principiavam córos de grilos na
espessura amarellenta das hervas, o sol cahia por traz das
arvores; á esquerda, nos vagos fumos da tarde, Beja torrejava.

--Adeus, disse a viuva sem colera, estendendo ao velho as duas mãos
descalças. Zarco sem fallar, beijou essas mãos inda pequeninas e
brancas.

Os cocheiros tinham vindo; e sob o pingalim, os cavallos arrancaram o
_break_ d'ao pé da oliveira, em direitura á estrada.

--Adeus, disse a viuva, apertando ao seio as rosas que colhera no
rosal.--Zarco parado, as mãos cahidas, ficára imbecilmente de pé, todo
vasio de reacção.

--Eh, esperem, gritou de repente aos cocheiros.

O _break_ tinha outra vez parado. Com os olhos estourando lagrimas,
elle correu á portinhola com um pequeno embrulho para a viuva, que
conforme disse, esquecera na igreja.

--Obrigada, respondeu ella com a voz um pouco tremula.--E o carro
abalou. Junto da ponte, já longe, a estrada fazia um cotovello para a
esquerda, e bruscamente o olival desapparecia. Então a viuva voltou-se
muito, chorosa, inda viu Zarco immovel no meio da estrada, disse-lhe
adeus com o lenço. Depois tudo se foi com as arvores que se
interpunham, a estrada, o muro da horta, os olivaes, a aldeia. Ficou
a desembrulhar o pacote que elle lhe déra.

--Que chinellinha mais rica! disse uma das velhas bispando o que
continha o embrulho. Ere o sapato de velludo bordado a oiro, que ella,
a tal noite...

--Cabeça a minha! Quiz trazer sapatos largos para o caminho, e afinal
só vem um, que para mais me não serve.

A outra velha acudiu com admiração:

--Nem eu sei de pé, que possa caber n'uma chinellita d'estas.

E a viuva com um rir doloroso:

--Cabiam os meus, no tempo em que eram leves a ponto de atravessarem
jardins sem pousar no chão.

--Ora! isso é o tal conto de fadas, disse a mais pequena das velhas.

--É verdade, um conto de fadas, tornou a viuva. Mas aconteceu!--E os
seus olhos iam na direcção do olival.



A PROVINCIA


Á meia noite, depois de ter abraçado os amigos no Martinho, com uma
ternura de adeuzes que o caracter _blasé_ de quasi todos tornára,
valha a verdade, intempestiva, Jorge Miguel tomou vagarosamente o
caminho habitual da sua casa, scismando em que era esse o seu ultimo
«fóra de horas» de Lisboa. Morava ao Monte havia nove annos, no
pincaro do outeiro mesmo, sobranceiro á cidade, ao pé da ermida--n'uma
casinhola de pobres cujo primeiro andar o novo senhorio repartira
entre elle e um empregadorio velho do Museu.

Alli, com os seus livros, sem creado, varrendo a casa elle mesmo, com
pares de calças por cima de todas as cadeiras e cartapacios n'um
tumulto de rumas pelo chão, Jorge Miguel fazia uma vida concentrada de
alchimista, silenciosa, de porta fechada ás visitas e cerebralidade
muda ás expansões.

A cidade, que o conhecia n'um fumo de lenda um pouco feita através das
suas _blagues_, afizera-se a lhe consentir em publico um eu á parte,
explicando por maluquice a concentração solitaria dos seus giros, e
mesmo por bebedeira as apoplexias de humor que a certas horas
convertiam a sua apathia triste em improvisação epileptica,
archi-estouvada.

Áquella hora a cidade apaziguava os seus tumultos, cahia do gaz um
langoroso bruxuleio; os transeuntes, menos; e todo aquelle socego
entrava na solidão mental do pobre moço, escruciando-lhe a vida de um
nunca mais á vida de solteiro. Porque Jorge Miguel, farto de viver
sósinho, ia casar.

A historia d'esse amor era uma d'estas cousas occasionaes, despertadas
na vida entre duas cogitações mais amargosas, arrastadas longos annos
entre preguiças de affecto e desfallencias de vontade, relegadas
successivamente para os longes do futuro, e que um dia afinal se
impõem como a solução pelo absurdo de um problema economico impossivel
de resolver de outra maneira. A vida litteraria, unica paixão
absorvente que se lhe tinha conhecido, chegada ao cume,
collocára-o na alternativa de, ou ter de rebentar de martyrio n'um
meio hostil a toda a ideia de arte independente, ou de pôr ponto
brusco n'uma producção que mesmo apesar de fulgurante e vigorosa só
conseguia produzir no publico uma surda irritação minaz contra o
escriptor. Entre a miseria odiada e a espectativa de uma madorna
plethorica n'um canto de provincia, Jorge Miguel acabára alfim por se
vencer; e d'esta vez, arrazado, dera no orgulho o golpe mestre,
fazendo as malas para esse desterro onde a bestificação do matrimonio
lhe açaimaria os ultimos piaffões de archanjo revoltado.

Quando chegou a casa estavam quatro malas fechadas na ante-camara, um
_couvre-pieds_ acorreado com guarda-chuvas e bengalas, dois moveis
envoltos em lona que os gallegos não tinham podido levar na ultima
padiola, para a gare--e os aposentos sem trastes, o relogio parado no
muro, o vento ronronando nas arvores do adro, tudo aquillo lhe pareceu
como o responso da sua mocidade já fria e decomposta. A um canto da
pequenina sala de trabalho, um monte de papeis, tombo da sua bohemia,
aguardava o auto-de-fé liquidador. Jorge Miguel despiu o
casaco, trouxe um alguidar da cozinha, e chegando para o pé da
papelada uma das malas, começou á luz da vella o inventario d'esse
archivo de quinze annos rebolados por todas as maluqueiras da vida
sensacional e litteraria. Eram primeiro bilhetes de visita e bilhetes
postaes agradecendo livros, pedindo entrevistas, artigos, palavras de
favor--menus de jantar, convites de exposições e de concertos, ramitos
sêccos, retratos insepultos, carteis com monogrammas, dizendo, em
lingua inverosimil, adorações litterarias com resaibos a estranhos
sentimentos--e Jorge Miguel passeiava os olhos devagar n'aquellas
coisas, evocava um momento as epochas e as respostas, e
phreneticamente, para asphyxiar a saudade, chegava os papeis á vella,
e ia-os atirando incendiados para a concavidade do alguidar. Cartas de
Paris, cartas de Roma, da America, de Coimbra, todos os cantos do
mundo e da provincia, homenagens fervorosas, anonymias de odios
truculentos, discipulados timidos, identificações a distancia n'um
ideal sonhado, em pontos antipodaes de educação e temperamento,
consultas de mysteriosas litterarias, de celibatarias impacientes
pedindo conselho para casos de psychologia individual cheios
de acirrante... e desatavam-se os maços das fitas já ardidas da poeira
das gavetas, as velhas folhas rolavam, talhes de lettra e prosa
succediam-se, e sempre a impassivel vella, com a alma da luz azul,
muito direita, consumia implacavelmente essas chimericas memorias onde
tantos corações tinham batido d'elle ao mesmo tempo. Quando o pobre
alguidar foi cheio de restos, e da mocidade de Jorge Miguel nada
restava a mais do que algumas lagrimas a ferver-lhe na pelle do rosto,
uma vacuidade estranha entrou-lhe n'alma, sendo então que o relogio
parado e o silencio da casa pareceram marcar um fim de mundo.

Abriu a janella um pouco sobre a noite, e com o alguidar ainda quente
despejou á rua a sarabanda das cinzas aggregadas ainda em folhas
inteiriças, que o vento espiralou no ar em borboletas tenebrosas; e as
que tinham vindo de longe, tomaram por caminhos rapidos, ao largo; e
algumas hesitavam, sem se lembrarem já da morada de seus donos;
entraram-lhe pela janella outras, eram as orphãs, como a pedir ao
escriptor que as adoptasse; e algumas finalmente, como suicidas
inertes, baquearam no chão pulverisadas, e o vento d'alba as
varreu pouco a pouco aos quatro cantos do destino.

       *       *       *       *       *

Accendeu um cigarro, o somno fôra-se, e como aquellas cinzas
fatidicas, a attenção pulverisava-se-lhe, incapaz de reflectir sobre o
problema terrivel que era esse internato de vagabundo illustre na
aldeia, em agricultor, ao lado de uma mulher com quem mal entretivera
fallarios triviaes alguma vez.

Estavam a dar quatro horas da manhã, e silenciosas nevoas vindas do
mar cobriam lentamente o céo de pallidos vapores, toldando a lua
poente, e alongando-se para o interior da terra em farrapanas
obliquas, que incineravam phantasticamente os bairros afastados.
Áquella hora Lisboa offerecia, das alturas do Monte, quasi sem luzes,
uma desolação madornal de cemiterio, planificada na bruma, rebatida
toda em lavouras de sulcos que eram bairros dobrados sobre si.

As cinzas dos papeis, minutos antes queimados, de certo áquella hora
se estariam espalhando pelo inextricavel de todos aquelles bairros
inquietantes, procurando, n'uma afflicção, os signatarios das cartas e
bilhetes n'elles escriptos para lhes fazerem queixa da deserção de
Jorge Miguel. Eil-as no ar, tiritando, as pobres borboletas, a
orientarem-se no dedalo das casas pelos milhões de fios do telegrapho,
receiosas de que o vento as pulverise antes de chegarem, com palavras
legiveis ainda, ao seu destino. Eil-as a adejar de angustia nas
vidraças, entrando nas casas pelo respiradouro das chaminés, indo ás
alcovas, pousando nos travesseiros, indo aos cemiterios, pousando nos
jazigos, e n'uns e n'outros interrompendo os somnos e as doces mortes.

--Não sabem? Jorge Miguel aposthasia de cavalleiro templario do
paradoxo, de arcebispo da leria, de arcabuzeiro da rotina a balas de
loucura...

E o alarme acordado apenas na mágoa d'elle, affigurava-se-lhe
entenebrecer de luto a terra inteira, parecendo-lhe que de cada
bairro, cada café, cada cartaz, cada esquina de rua, cada casa, mentes
dispersas, adorações indefinidas, affectividades anonymas nascidas do
deslumbramento da sua arte estravagante, se erguiam da cama no estado
inconsciente de phantasmas, tomavam pelo caminho dos papeis queimados
vindo de roda, pelo ar, a lhe fazer um côro de implorações.
Lentamente, como amanhecia, por todo aquelle vasto mappa
encinzeirado, luzes de gaz vinham-se apagando em linhas divergentes,
como se esse extinguir gradual de estrellinhas somnambulas fosse a sua
gloria de escriptor morrendo nos esquecimentos da aldeia, quando outro
espirito subisse, mais vivamente moderno, a allumiar a ingratidão das
gerações.

Encostou-se um bocado, mas não podia dormir, os rumores matinaes
sobresaltavam-n'o; dir-se-hia que toda a cidade se levantára mais cedo
para trepar á montanha e lhe invadir a casa de vozidos. Entrementes, o
dia clareava, e quando foram horas de partir, Jorge Miguel, chegando
pela ultima vez á varanda, casualmente viu no parapeito um bocado de
papel carbonisado, onde subsistiam legiveis duas rapidas linhas de
escriptura. Leu o seguinte: «de resto, meu caro, para ser celebre é
necessario viver longe, e não ter tido nunca amigos intimos».

Foi sob esta impressão martyrisante que elle deixou de vez a capital.

       *       *       *       *       *

O rebentar na provincia foi terrivel; receberam-n'o á chegada da
diligencia com uma musica de pretos, que era a estreia da
phylarmonica: quatro carpinteiros a trombonear canudos de
latão, um barrigudo a zurzir os pratos como fulo, e o do zabumba,
macanjo, dando co'a maçaneta nos garotos. Como os musicos não
soubessem senão a marcha da Ione, ensaiada á pressa para as procissões
da Semana Santa, com esse batuque funebre seguiram, em passo de
enterro, pela rua da grande villa, no meio dos raios te partam do
cocheiro que despregava as pilecas na subida, e de um certo riso de um
padre, de lhe fazer calafrios pela medulla.

Em breves dias fez-se o casamento, para o qual Jorge Miguel, foi sem
curiosidade, decidido a resolver o problema do seu destino por um
criterio de vontade estoica contra o qual piaffavam todas as suas
selvajarias de indomavel vagabundo. Sua mulher não lhe inspirou a
principio mais que uma especie de pretenciosa piedade: franzininha, um
pouco loura, com as orelhas pequenas, a bocca pura na esquadria de um
queixo quasi viril de voluntaria, e toda a graça de viver na
infantilidade dos olhos melancolicos. Não era pela belleza de certo
que essa imponderavel bonequinha viria a exercer no espirito do esposo
qualquer cousa similhante á seducção.

Senão quando, attenuadas um pouco pelo aconchego de uma
casita provincial as saudades litterarias de Lisboa, subitamente, uma
manhã, Jorge Miguel começou a sentir orgulhos vagos de vêr labutar por
elle a companheira.

Reparou que os seus cabellos eram finos, a testa pensativa, e que as
suas breves palavras resabiam a qualquer coisa de penetrante, como se
derivassem de uma vontade séria de enfermeira. Os seus vestidos
escuros, mal roçando nos moveis, como levados n'um vôo de borboleta,
as suas lentas mãos guiadas á descoberta de fazerem o lar confortavel
sem parecerem tocar nos objectos, uma percepção sagaz de concentrarem
cuidados no gabinete dos livros, na ordem dos papeis, na tamisação da
luz, nas flôres da secretária, tudo isto que dir-se-hia casual, por
vezes como que se lhe affigurava nascido de uma ardilosa malicia de o
prenderem pelo reconhecimento a essa vida a dous que em principio
tamanhos sustos lhe trouxera. Esta fascinação que derivára primeiro do
egoismo envaidecido de sentir em tôrno a vida sem attrictos, com as
comidas a horas e bem feitas, a casinha tépida, macios os _fauteuils_,
a atmosphera perfumada e a plethora de bem-estar constante
de riqueza, defendida ás linguarices dos estranhos, pouco a pouco
começou a lhe subir do estomago á intelligencia, e a figurita d'ella,
severa, apagando-se na meia luz de um recato freiratico, pallida e
diaphana como uma sombra do paraizo, passava ás horas calmas de estudo
pela cabeça d'elle com uma ponta de desejo que lhe tornaria a nupcia
fecunda, se não fôra a fatalidade dos homens de genio não poderem
propagar-se sem degenerações na descendencia. Começou a presentir
então a companheira por toda a parte, nas suas ideias e nas suas
leituras, no leito, a seu lado, com os olhos fechados e acordada a
espreitar se elle dormia, nos seus passeios longinquos pelo campo, nos
bicos da sua penna, nos calculos dos seus negocios, a um tempo causa e
fim, phantasia e realidade, e com tal poder de avassallação e
absorpção que o pobre bohemio acabou um dia por confessar a si proprio
essa incondicional escravatura, deliciado, abjurando as antigas
brutalidades de publicista solitario, a arte mascula da analyse
violentando as psychologias verde-podres do moderno, os excessivos de
lingua, as irreverencias sardonicas da _boutade_,--todas as qualidades
crueis que haviam feito d'elle em solteiro o bacteriologista
maximo das degenerações sociaes do seu paiz.

Longe de parecer reparar n'este rebaixamento de plano psychico do
esposo, ella como que só pensava em lhe encadear as attenções no
sentido dos antigos trabalhos litterarios, afastando-o das
convivencias massadoras da aldeia, pondo ao alcance da sua mão livros
de estudo, interessando-se pelo seu passado jornalistico sem ciumes e
até repassando ella mesma, através dos seus conselhos, os assumptos
que mais pudessem oriental-o na directriz do seu antigo frondismo de
escriptor. Em alguns mezes o predominio foi tal que o espirito d'ella
transfilhára-se inteiramente ao corpo d'elle.

       *       *       *       *       *

Uma noite de novembro, já depois das colheitas da uva e da azeitona,
aconteceu que examinando os dous detidamente as contas da lavoura,
ella de repente observasse que era tempo de sahirem da modestia
financeira em que viviam.

Como a situação de fortuna do casal nunca fora nem melhor nem peior do
que ora estava, aquillo surprehendeu Jorge Miguel, como se
nas palavras da esposa houvesse reprimenda á sua inercia.

Ella, sem se perturbar, tomou ao acaso um papel da secretária, agarrou
n'uma penna, e ao cabo de alguns pequenos calculos feitos n'uma
calligraphia tortuosa, começou a dizer, com a sua voz de pauzas doces,
que as vinhas estavam velhas, o phylloxera á porta, os terrenos
estanques da produção sem adubo, o vinho sem mercado, da qualidade
horrivel do fabrico; e quanto ás terras de cereal, parte não dava, por
desleixo do preparo, o que devia, e a outra parte em pousio, coberta
de abrolhos e de estevas, apenas nos começos do outomno era pascigo
para as cabras dos pastores furtivos da visinhança. O remedio era uma
remodelação completa do regimen agricola, em quatro annos: nas terras
de pousio lançar plantações americanas, reengorgitar os almargios da
ceara com os elementos chimicos necessarios á cultura intensiva,
ampliar a extensão aravel das terras, plantar arvoredo, regenerando ao
mesmo tempo a industria da vinha, cujo grosseiro preparo estava ainda
na fermentação do mosto em barros pesgados, e seu esforço alcoolico
com aguardentes de balsa ao esturro e á porcaria do alambique.

Demandava a nova empreza capitaes de alguma fórma custosos
para a relativa modestia dos seus teres; mas poderiam começar aos
poucochinhos, e para isso as economias de tres annos de vida
provincial talvez bastassem, e a actividade e a vigilancia d'elle
fariam o resto. Ficou decidido que encetariam os trabalhos logo esse
anno, e que os habitos indolentes de Jorge Miguel cessariam, por a
vida de lavrador exigir assiduidades constantes na faina, e uma
vigilancia quanto possivel methodica e regulada.

--Resta vêr agora, objectára-lhe a esposa sorrindo, se cumprirá
escrupulosamente o que promettes. Esta vida contemplativa estava-te a
inutilisar todos os dias, e chamado á acção não terás tempo de te
aborrecer a pensar futilidades. De mais o caminho é extenso, e estou a
vêr que quando te habituares a fazer co'a terra, dinheiro, serás
naturalmente conduzido a tambem aproveitar como bens de fortuna essa
notoriedade de escriptor de que não tens querido tirar senão vaidades
espirituaes, ephemeras e... irritantes.

--Tu não me aconselhas de certo que eu entre a escrever sobre a
politica do districto...

--Em que estaria o mal? Não ha assumptos chalros. Um talento
nobre transfigura todas as cousas porque passa. Ouço-te flagelar a
estupidez e a má fé dos que açambarcam despoticamente, e para fins
deshonestos, a politica da nossa região; porque te não decidirás,
pois, a intervir n'ella com os recursos superiores que Deus te deu, e
os teus estudos teem desenvolvido? Maldizer é facil. Quem se não
mostra, esquece, e eis-te chegado á idade de reappareceres homem de
acção.

--Tens-me então estado a sonhar governador civil ou deputado...

--Não pelo desforço platonico de assumires sob essa forma a
authoridade, mas principalmente porque estaria n'isso o começo de uma
fortuna decisiva.

--Em dinheiro talvez?

--Que a final é tudo n'este mundo. Se Jesus Christo voltasse a fazer
na terra os doze apostolos, precisaria de pelo menos ter doze milhões.
Olha á roda de ti o que se passa. Não ha mediocre que te não tenha
suplantado; tu desesperas-te, fingindo desprezal-os, mas no fundo da
tua consciencia o sentimento dominante é o ciume porque esses que tu
declaras cerebralmente inferiores desenvolveram na vida
qualidades de lucta que te faltam.

--Suppões então que eu não segui o caminho d'elles por impotencia...

--A que chamavas altivez, e afinal não foi mais que cobardia.

--Entristeces-me com esse juizo estreito que me fazes.

--Mas prova-me o contrario. Era tão facil! Ha na cidade um jornal sem
redactor; offerecem-t'o e tu não respondes; ora se desenvolvesses n'um
sentido sagaz as tuas qualidades de foliculario, em pouco tempe esse
jornal seria a tua arma envenenada, e verias realisadas todas as tuas
antigas ambições.

--Mas se eu não tenho nenhumas, minha filha!

--Ambições precisas não tens, porque a multidão assusta-te, mas
quererás tu persuadir-me de que a tua obra critica de solteiro apenas
fosse uma galopada de humorista? É lêr os teus pamphletos. Se se trata
de litteratura, achas a obra dos outros má, e tens o cuidado de fixar
um sonho de obra que não é mais do que a tua, idealisada. Se se trata
de costumes, flagellas os vicios de que não gostas, e calas-te ou
defendes aquelles para que tens uma certa vocação. Em politica achas
todos os ministros imbecis, dizes que as nomeações não visam nunca
individuos de valor, e que os dinheiros do paiz andam a rodo pelos
regabofes dos seus administradores. Dir-me-has o que é tudo isto senão
um processo ingenuo de, desbastando nos outros, ficares sendo primeiro
e unico de pé?

--Mas afinal tu és uma creatura incongruente. Essa obra desenvolta de
mocidade nunca te inspirou senão o enfado de uma cousa grosseira, mau
grado os teus disfarces, e tanto fizeste que acabei por me envergonhar
de a ter escripto. Passam seis annos, está mumifeita, esquecida, e és
tu mesma que m'a vens galvanisar agora n'uma phase de empregomania que
eu detesto!

--O caso é simples. Todo o homem que esgrime sem alvo, é caricato ou
doido. Os teus proprios discipulos perguntavam: mas que quer elle?
porque ninguem comprehende que se gaste energia sem proveito. Dez
annos d'essa campanha asperrima, n'uma agua-furtada, sem roupa nem
confortos, coberto de calumnias e de dividas, desprezado, odiado, o
que te deram? A gloria de seres conhecido entre os estudantes como um
canalha sarcastico, e quarenta adeptos que apenas servidos
desertaram de ti como da peste.

A logica d'estas combinações chocava fundo os quarenta annos já frios
do antigo pamphletario, que hesitava, no entanto obsecado da tradição
dos genios famintos. Embuido das doutrinas utilitarias da esposa, via
effectivamente o dinheiro como uma causa geral de toda a culminencia,
e as suas antigas ambições gososas de grande homem despertando da
indefinida madorna em que o estagnára a vida provincial. Via-se
reapparecer de novo em plena vida, com outros ideaes mais largos e
mais firmes, senhor da sua razão e da sua força, já sem os platonismos
de artista e as nebulosas philosophias de pamphletario demolidor
joeirado das antigas relações compromettedoras de café, homem de
acção, batido no desprezo, monosyllabico, hypocrita, insolente,
fazendo a sua entrada sem ruido, sondando os typos, avaliando a frio
os consagrados, e n'uma reviravolta leonina, de repente, apoderando-se
dos cimos, e fazendo-se sagrar chefe de _clan_. Tudo estaria em fazer
do seu talento o molosso incorruptivel de uma ideia fixa. Essa
marmorisação de vontade, porém, onde formal-a, com o seu caracter
feminino e dominavel, acobardando-se diante dos obstaculos,
e que a primeira mão resoluta guiaria a sabor dos seus caprichos?
Então, lançando a vista de roda, apercebeu como sempre os olhos claros
da mulher, interrogando-o com uma tristeza escarninha sobre a sua
falta de coragem. A pretexto de inspecção ás escólas primarias, o
governador civil percorria n'esse momento o districto, a sondar o
espirito das terras sobre o exito das proximas eleições. Era um antigo
companheiro de Jorge Miguel, sucio pomposo, que começára por
gazetilhas obscenas no _Pimpão_, subindo d'ahi a amanuense da Junta, e
redactor politico da _Nova_, jornal do presidente do conselho, que o
despachou depois aos bejenses com subscriptos de funccionario de
confiança.

Jorge Miguel inspirára-lhe sempre mesmo nos dias de convivencia
litterária no Martinho, uma especie de rancor desconfiado, com orlas
de desprezo, e póde-se imaginar a surpreza do conselheiro, quando,
avistados na aldeia os dois bohemios, Jorge Miguel lhe communicou as
suas tenções de comprar o jornal e entrar de vez na politica
militante. Sentindo-se de cima o governador civil prometteu com uma
sublime benevolencia, apoiar-lhe as pretensões, combinando-se depois
de tres dias de hospedagem e de jantares pantagruelicos, que adquirida
a gazeta, com typografia e pessoal conveniente, Jorge Miguel fosse a
Lisboa munido de cartas prestar ao ministério vassallagem, e receber
dos magnates do partido a sua iniciativa de cavalleiro. Quinze dias
depois ia na casa do nosso pacifico contemplador uma barafunda dos
demonios.

Pelo caminho de ferro chegaram de Lisboa umas poucas de charruas,
caixotes de adubos e sementes, milheiros e milheiros de bacellos
americanos. A adega foi quasi toda guarnecida de toneis; lagariças
novas no pateo, com toda a sorte de machinas modernas. Os pousios das
herdades eram começados a revolver a talho fundo, para o que foi
necessario alugar juntas de bois a todo o preço; de fóra viera um
regente agricola, de monoculo, que se levantava ao meio dia, e achava
mau passadio um jantar de cinco pratos; e finalmente, negociado por
quinhentos mil reis, typographia e tudo, o jornal apparecera depois
onerado por uma hypotheca de dois contos, e com o typo delido, os
prélos n'um cangalho, tendo Jorge Miguel de dispender, por
conselho do governador civil, proprietario secreto da folha, mais de
novecentos mil réis para acquisição de material. Na aldeia, quando
estas coisas correram, foi o alvoroço que se tem por um individuo que
emaluquece, de rodilhão, e todos punham as mãos na cabeça, antegozando
com lastimas hypocritas a hora opipara em que rebentaria a casa do
«escriptor». A audacia d'esta renovação agricola pelos risiveis
processos scientificos, que nenhum rico ousára, e de que ria o povinho
como uma brincadeira de creanças, além de não parecer condizente á
remediada fortuna do litterato, tão pouco pelo estapafurdio do regente
agricola, e resultado incerto das colheitas parecia estribar-se lá
muito na económica prudencia que deve sempre guiar um lavrador.
Viticultura americana? dinheiro perdido, bufavam todos. O phylloxera
immobilisando-se no Douro perdera a força para chegar aos valles do
Tejo. Reengorgitação das terras pelo adubo? mas onde ia isso parar de
dispendioso, e para que necessario? se a vinha nunca se estrumára no
Alemtejo, e quanto ao cereal, a bósta dos animaes abundou sempre, para
fazer de alqueires, moios.

A reapparição do _Clamor de Beja_, jornal independente, um
typo novo, e uma factura litteraria elegantissima, foi verdadeiramente
um caso nos annaes da sornice alemtejana, e claro se viu o influxo que
essa incisiva folha fumegante de vida e tocando os assumptos locaes
com lúcida ironia, certo viria a ter na politica do sul da grande
provincia.

Jorge Miguel recebia em casa os jornaes da redacção, preparava o seu
artigo, fazia o noticiario e a correspondencia de Lisboa, e o resto
era arranjado em Beja por um alferes do 17, seu antigo commensal n'uma
republica de estudantes. Em pouco tempo o successo attingiu pela
provincia as proporções de uma victoria; choviam as assignaturas, os
annuncios pagos succediam-se, e em todas as questões locaes e
partidarias começou o jornal a fazer authoridade, o que o lembrou em
Lisboa, levando as attenções dos malignos para a espécie de furor com
que Jorge Miguel, jacobino medonho, ainda na vespera, defendia os
actos do governo. Eleições á porta: era o momento de ir a Lisboa,
jurar fidelidade ao gabinete. Atochado de missivas bejenses para os
magnates graúdos do partido, sahiu Jorge Miguel de casa uma manhã, com
o seu chapéo alto e o seu bahú de roupa, disposto a levar de
vencida as agruras da jornada graças a certa gallinha de recheio, mais
meio presunto que a mulher lhe embrulhou, para farnel, na folha de um
dos seus antigos pamphletos anarchistas. A viagem foi cabeceada de
somno n'uma segunda classe onde voltavam de férias tres alarves de
tres seminaristas, e só no Barreiro, quando a cidade começou a surgir
vaporisada nos azues violetas do horizonte, é que Jorge Miguel sentiu
tomal-o uma infinita e estranha nostalgia. Indo no barco atirou ao rio
os restos do presunto, para evitar o cheravisco aduaneiro, e com o
gallego do bahú veio a dar fundo nas _Duas Nações_, ante uma canja que
tinha todo o ar de um soluto de caspa em agua de lavagens. Sopeteou
como poude as vitellas flacidas com cenouras, um _roast-beef_ de
folha, e varios outros acepipes corneos d'aquella conceituada casa
alimenticia, e barbeado, de sobrecasaca fina, cheirando a agua de
Colonia, eil-o baixa do hotel á cóca de tipoia que o solavanque a S.
Vicente. Chegado á rua, os luzeiros da Baixa estontearam-n'o: via,
extasiado, uma multidão febril, pelos passeios, os carros cheios de
gente, e o indefinido rumor repercutíndo-se a distancia, entre pregões
de jornaes e silvos de comboyos. Mentalmente, com esforços
de memoria dolorosos, desemburrando-se da bisonheria de seis annos de
vida marital, tomava outra vez posse da cidade, buscando
familiarisar-se no dedalo das ruas, achar no asphalto outra vez o seu
_rail_ de _flaneur_ nocturno; e mulheres que surgiam de chapa nos
reverberos das lojas pintadas de branco, olhando os homens de lado,
como as gansas, tinham para elle o ar de apparições; nos americanos
pareceu-lhe tudo duques e duquezas, um deslumbramento as lojas, os
caixeiros uns personagens ideais; e a sua emoção subia n'um galopar de
antigas reminiscencias, á mercê das surprezas esgarçadas por qualquer
cousa, na volta de uma esquina, ante o estylo de um predio novo, um
novo monumento--emoção de provinciano fóra da moda, cego do gaz,
picado de ciumes, desesperado de já ninguem o conhecer, e que ao
apear-se em Santa Clara, á porta do «nosso glorioso chefe» levava já
tres ridiculos de aldeia a chateal-o: a fadiga dos calos, o remorso do
casamento, e pairando a tudo, um desejo frascario, exhaustinado, d'ir
rebentar a noitada ao baile de mascaras do Trindade. Seis annos de
provincia tinham liquidado n'isto o grande homem...



O JURAMENTO DA CONDESSA ESTHER


--Tenho consultado tudo, tudo! A homeopathia, o systhema Brugrave, o
Raspail, tudo! Mas os alivios poucos, nenhuns mesmo. É esta dôrzinha
vaga no peito, esta tosse secca, pouca vontade de comer, ventre
preso... Quando se chega á minha edade, é esperar pela morte, bem o
sei.

--Qual!

--Ah! eu não a receio, meu bom amigo. Somente me affligiria a saudade
dos que amo, e o amor da minha filha...--Baixava a voz para
dizer-me--Tem-me perseguido a ideia de consultar um enfermeiro. Ouço
que entendem muito de doenças... Morrer, deixar Esther, seria o ultimo
castigo.

Em resposta, eu ria. A condessa ia começar a narrativa de uma cura
estrondosa, feita n'uma senhora das suas relações, por um
dos taes.

--E está hoje gorda e alegre, que não faz ideia.

--Faço, faço.

--Depois, os remedios que me receitam os medicos, repugnam-me. Tenho
horror á magnesia, horror ao cheiro da camphora, horror ás pilulas,
que bem podem ser manipuladas por sugeitos pouco limpos. Alguns dos
medicamentos nem os tomo.

--Eis porque se não cura, condessa. As aguas de Loeches são suaves...

--Horriveis! E tão prosaicas...

--De certo, de certo. Tanto mais que V. Ex.a tira effeitos poeticos da
doença que diz soffrer, confesse.

--Ahi vem a sua má lingua, doutor. Na minha edade a poesia é o amor
dos filhos. Eu sofro muito, sofro, palavra d'honra. E se fosse um
aneurisma, meu Deus!...

--Ahi, está V. Ex.a poetando com hypotheses de martyrio, simples
achaques a que todos estamos sugeitos. Que diria então eu, que V. Ex.a
vê na flôr da vida e na apparencia da mais radiosa saude? O meu
estomago!

--E o meu, doutor, o meu?

--A condessinha Esther tem a paixão das begonias; a sr.a
duqueza de Serpa adora os cães d'agua; a sr.a marqueza de Valle de
Perdizes esculpe; a esposa do negociante Domingues trabalha em créches
e premios de escolas. E cada uma faz d'estas predilecções a sua
aureola de poesia, de que se circunda no mundo. V. Ex.a tem os seus
soffrimentos. É uma compensação.

--Já vejo que está hoje peor, Conde! gritou ella para a meza do jogo
onde quatro homens faziam _whist_, á luz d'uma serpentina. Um velho
calvo e magro severamente abotoado e de bigodes altivos, ergueu-se
respeitosamente e veiu junto de nós.

Por detraz dos oculos, luziam-lhe aguçadas as pupillas de miope:
andava com ares magestosos de ministro, gesticulando sobriamente.

--Que é? disse elle firmando as mãos nos gomos do divan da condessa
mãe.

--Pode fallar-me da sua pre-historia, porque o meu amigo doutor teima
em satyrisar os meus padecimentos. Vamos, sente-se aqui.

--Mas a partida...

--O doutor vae substitui-lo, sim?

--E a condessa assim me desterra tão cruelmente!--Ella
estendeu-me a mão dizendo:

--Será por pouco tempo.--Fui. Esther não viera ainda. As senhoras
começavam a chegar em pequena gala, com _bournous_ de casimira branca
forrados a setim e pelles. Eram os convivas certos d'aquellas
pequeninas _soirées_, tão intimas, tão aconchegadas e tão doces, que
os ditos e excentricidades da condessinha animavam, e a rabeca de
Zebedeu Kebler, israelita loiro como Jesus e tão casto como elle,
enchia de fremitos extranhos e infinitas harmonias. Kebler adorava a
condessinha com uma paixão supersticiosa e ardente. Estava sempre onde
ella estava; em São Carlos, a sua cadeira era defronte da friza
d'ella; apparecia nos bailes a que ella ia, melancholico e pallido,
uma elegancia fina de _gentleman_; e nas conversações mais frivolas,
em podendo, mettia, sem quasi dar por isso, o nome d'ella. Esther era
trigueira e alta, de uma distincção unica e de uma elegancia sem
rival. O esmalte dos seus dentes destacava fresquissimo no vermelho
das gengivas, como um adereço rico num estojo de velludo cereja. Nada
mais explendido que a linha do seu busto nervoso e cinzelado, e a
redondeza das suas espaduas reaes, surgindo de espumas de
renda na fervilhação opulenta dos bailes. Fui ter com o judeu. De pé,
junto da banca de jogo, elle olhava sem vêr cousa alguma. Tomei-lhe o
braço e fomos para o vão d' uma janella. E antes que eu fallasse, elle
disse:

--Já penetrei no mysterio.

--Qual?

--O da condessinha.

--Vamos a vêr como.

--Ella é muito supersticiosa. Não admira, sangue judeu...

--Sangue judeu! Ella?--Kebler baixou a voz e contou-me:

--Que certo vendedor de tamaras, freguez assiduo de uma hortaliceira,
chegára a amar esta. Do amor dos dois, fermentou um garoto que se
metteu cambista, d'onde mais tarde surgiu uma obesidade millionaria
que um governo individado fez barão e par.

--Que perspicacia audaz empregou o meu amigo para saber tanto?
Caramba!

--Ouça: implantada por esta fórma, a nobreza foi subindo de um grau de
filho para filho. Até que um dia, o pae de Esther appareceu conde.

--A esposa era muito formosa então, para poder alcançar
tudo. Seria duqueza até, se o houvesse querido, disse eu sorrindo.

--Lingua damnada!

--Adeante. É então supersticiosa, hein?

--Não imagina.

--Eis o meio de sustar-lhe a golfada de sarcasmos de que ás vezes nos
cobre. Em ella me ferindo, quebro um espelho da sala, verá. Mas vamos
ao mysterio. Creio que foi _mysterio_, que disse.

--Foi. Esther teve uma grande paixão!

--Como a da hortaliceira gollegã, sua avó, pelo vendedor de tamara e
sabonetes. _Fermentou_ alguma cousa de?...

--Olhe que me zango sériamente, e fica sem saber nada.

--Está bem; estou já calado.

--Uma paixão fatal! Amou...

--Essa reticencia traz um padre ou um trintanario.

--Infelizmente. Amou um primo, doutor em theologia, que já dissera
missa.

--Bem dizia eu!

--Dizem que bella figura.

--Não me custa a crêr, pois que o affirma. E o primo amou a prima?
Sacrilegio no ultimo acto, suicidio ao cahir do panno. Adivinhei?

--Quasi. O primo era um homem digno; além disso não chegou a
saber toda a verdade da bocca d'ella. Desconfiou apenas que era amado
e fugiu para as missões do ultramar.

--Oh incomparavel levita! Eu não fugia para tão longe. E ella?

--Ella jurou que não amaria mais ninguem na vida.

--E como não lhe fosse permittido professar...

--Não seja leviano. Esther adora as begonias, como sabe.

--Paixão que acarreta ao meu amigo uma despesa séria. Cada dia lhe
traz uma especie nova, numa _corbeille_ admiravel.

--Essa adoração tem a seguinte historia. Á hora da partida o
missionario mandou á condessinha num vaso da China, uma explendida
begonia _rex-isis_, especie do mais bello effeito decorativo. É um
vaso amplo, de figurinhas em relevo e pequenas azas de oiro,
representando dragões engalfinhados.

--Conheço bem essa preciosidade! Vale a olhos fechados cem libras. E
depois?

--A begonia durou pouco. A estufa para onde a transportaram, e a
convivencia das mais plantas abreviaram-lhe os dias. Já
entrou na estufa da condessinha?

--Muitas vezes. O vaso está ao centro, sobre um pequeno pedestal de
marmore branco e debaixo de uma redoma de crystal em gomos.

--É isso, com a begonia sêcca.

--Tal qual! Muitas vezes perguntei á condessinha a historia d'aquelle
esqueleto de planta. E agora me lembro--ella ficava triste e
suspirava. Era a theologia do primo adorado.

--Hontem vim visitá-las de manhã. Trazia-lhes um euforbio raro do
Mexico, que os francezes chamavam _Poinsettie_, exemplar soberbo.
Conhece?

--Dos livros. A minha clinica modesta não me permitte dispender sem
proveito o que elle custa. Folhas oblongas bordadas de verde,
envernisado e vivo. Centro canario raiado de verduras sanguineas.
Envolvendo as flôres, uma corôa de grandes bracteas ovaes, do tamanho
de folhas, e do mais bello escarlate, dando o effeito duma grande
flôr. Uma opulencia, em resumo.

--Pois bem. Eu mesmo fui collocá-lo na estufa, permissão graciosa da
condessinha.

--Os perfumes aphrodisiacos perturbaram os sentidos de ambos
e... amor do judeu das tamaras com a...

--Mau!

--Está bom: curvo a cabeça. Venha o resto.

--Quando nos achámos na estufa e em meio das folhas de mil desenhos
que alli ha, ella tomando-me as mãos, disse-me commovida:

--Como hei-de eu agradecer a sua sollicitude, Zebedeu?

--Ella disse: _Zebedeu?_

--Disse.

--Meio caminho andado, então. Mais dois minutos, e tinha-a pendurada
no pescoço. Que gata, essa trigueira tentadora!...

--Eu nem podia fallar!

--Oh castidade loira de vinte annos!

--E apertava-me tanto as mãos...

--Sim? Depois, um beijo... ou dois... ou tres...

--Falle com franqueza, disse-me ella. O senhor ama-me.--Eu estava a
tremer como um poltrão.--Ouça, tornou Esther; fiz um juramento.

--Qual? perguntei em voz baixa.

--Que não amaria ninguem mais. A não ser...

--A não ser?...

--Que aquelle vaso de pedestal apparecesse em pedaços um dia, sem
ninguem lhe tocar.

--Mas isso é impossivel.

--Então veja se posso amá-lo. Ella estava tão triste!... Talvez não
creia: chorei!--Callamo-nos, porque n'aquelle instante, uma voz fresca
deu uma risadinha á porta, e as senhoras correram para uma rapariga de
branco, que vinha entrando. Era Esther.

--Zebedeu Kebler, meu incomparavel artista, um pouco da sua rabeca,
disse ella em voz alta, antes de beijar ninguem.

--Bom sinal! resmunguei ao pobre rapaz.

O judeu deixou-me logo, alegre por ser lembrado, e foi abrir o estojo
do instrumento.

--Que ridiculos são estes sentimentos! pensava eu. Apertam-lhes as
mãos n'uma estufa e a sós, muito e muito, e desatam a chorar.
Grandissimo tolo! Não o pode amar? Fez ella muito bem. Amar um homem
que em logar de cobrir de beijos uma mulher lindissima que se rende,
fica a tremer, seria uma vergonha: apre! Fui ter com a condessa,
enfastiado e murmurando:

--Fosse a cousa commigo...

No dia seguinte, tinha eu acabado a consulta quando chegou Kebler.

--Vem acabar-me a historia de hontem?

--Venho sollicitar a sua presteza de atirador.

--Chegou o theologo? desafiou então um ministro do altar? Barbaro!
Cruel! Desalmado!

--Qual! Tenho um projecto.

--Acceite este charuto, aqui tem lumes, sente-se e conte-me o
projecto.

--O alvo do irmão de Esther fica perto da estufa; pois não fica?

--Creio que sim.

--O senhor vae alli exercitar-se muitas vezes, segundo me disse o
Alvaro.

--Vou.

--Ouça. Eu levanto um caixilho da estufa...

--Mas é preciso a chave que abre todos esses caixilhos. Talvez não
pensasse em tal?

--Tenho-a aqui; roubei-a agora mesmo. Posso guardá-la por estes dias.
O tempo está chuvoso e frio, de modo que não ventilarão a estufa por
agora.

--Então?

--Aberto o caixilho, o senhor fingindo apontar ao alvo,
aponta ao vaso da China e...

--O senhor ganha o premio, e eu fico a chuchar o dedo.

--Que? Ama a condessinha?

--Eu amo toda a gente; que diabo!...

--Estou esperando a sua resposta.

--Que eu parta aquelle vaso da China porque daria tudo? Está louco!

--Olhe para mim. Se o não fizer...

--Dá um tiro no craneo; dá?

--Qual! fico solteiro toda a vida.

--Bem, essa simplicidade enternece-me. Esteja amanhã aberto o
caixilho, e a bala esmigalhará o vaso. Mas como entra o senhor no
jardim?

--Saltando o muro que o separa da casa em que habito.

--O senhor é o diabo.

--Se a adoro!

Na noite seguinte, havia reunião em casa da condessa. Os grupos das
mais noites. Ao fundo do salão, a banca de _whist_, onde o cultor da
pre-historia se notava de lunetas altas, sob que as pupillas
fuzilavam. No divan amarello, a condessa queixando-se-me da falta de
apetite e de tosse sêcca. Esther radiosa, no meio das suas
amigas. Zebedeu Kebler muito pallido e muitissimo preoccupado, ferindo
de um modo inteiramente magistral as cordas da rabeca.

--Meus senhores, disse a condessa em voz alta, erguendo-se. Tenho a
honra de lhes annunciar o casamento de minha filha Esther com o senhor
Zebedeu Kebler.

Ouviu-se o estalido de uma corda de rabeca, subitamente quebrada. O
conde das lunetas erguera-se, aprumando a alta estatura. Esther
confessava ruborisada que... _Deus o queria._ Tinha apparecido em
pedaços o vaso da China, sem que lhe tocassem. E de mais amava aquelle
rapaz, tão elegante e tão distincto, de cujo braço seria um encanto
pender coroada de flôres de larangeira.

--És meu padrinho! disse-me com um abraço de reconhecimento, o judeu.

--Já agora... respondi.

O meu presente nupcial, foi um vaso chinez inteiramente igual ao que
apparecera esmigalhado. Crescia n'elle um _hibiscus_ do Japão,
trepadeira da mais rendilhada contextura, folhas exoticas e flôres em
grinaldas.

--Eis porque eu daria tudo pelo vaso quebrado, disse a Kebler, com uma
vaga saudade de amador. Se o conseguisse adquirir, completaria o mais
bello par europeu. Guardem esse vaso no logar do pobre esmigalhado, e
que elle seja o talisman de um amôr, fecundo em _bébés_ de olhos
azues, menos romanesco que o amôr do primo, e mais durador por isso
mesmo.

Um frou-frou de saias fez-me voltar a cabeça; á porta, a cabecinha de
Esther assomára curiosa, e os seus dentinhos brancos de gata contente
brilhavam, sorrindo de um modo encantador.

Nunca fui piegas, palavra de honra--mas inda hoje tenho calafrios
pensando nos dentes d'aquella mulher.



CORONADO


Ha sete ou oito annos vinha eu do Poço do Bispo no electrico, quando
nas alturas da Mitra entrou um meu velho amigo e camarada, Dr. P.,
clinico da localidade, com quem vim conversando até á Baixa.

Trazia na mão um numero de revista litteraria, e abrindo-o no sitio
d'uma peça poetica, impressa, perguntou-me se eu ouvira alguma vez
fallar da Coronado. Fiz com a cabeça que não, e elle, explicando que
era o médico da casa, em duas palavras fez o elogio sumário da sua
cliente. Mez e meio havia que esta senhora, já então de oitenta a
oitenta e dois annos d'edade, mas completamente em plena validez
mental e muscular, se fôra por uma escada de pedra, quebrando um braço
pelo terço inferior do cubito e do rádio.

Poucas esperanças tinha o clinico, dada a edade provécta da
paciente, de se virem a soldar os topos da fractura; senão quando, ao
lhe ser tirado o aparelho, se viu como os ossos quebrados tinham
adherido, e a cura se fizera completa e ás maravilhas!

Emquanto imovel no leito, a doente, cuja nervosidade frenetica
espantosamente sofria de estar preza, para enganar o tempo e distrahir
o espirito volitante, ideára e compuzera em quadras endecasylabas, uma
poesia festiva ás suas mãos.

E aqui o médico estendeu-me a revista para eu lêr.

Uma das mãos da Coronado estivéra mez e meio entrapada nas ligaduras
do aparelho de fractura, sem vêr a outra, e a poetiza figurava-as como
duas amigas ou irmãs gémeas afeitas a comunicarem no seu dia a dia
impressionista, a imitarem-se os gestos, a procederem por sentimentos
e instinctos identicos, e que uma tão longa separação lançára no
desespero e na saudade.

A alegria do novo encontro fazia-as exultar em caudaes de ternura e
hossanas de prazer. Os versos eram ricos, nem farfalhudos, nem ôcos,
com significados precisos, frases de bronze sonoro, imagens
faiscantes, claras, simples, dando uma ideia de riqueza sóbria, e
mostrando uma artista experiente e um pulso de homem. Não havia
hesitação nem cançaço, nem essa pulverisante banalidade dos velhos que
vivem de restos e, perdido o séstro construtivo e inventivo, fazem
litteratura de toadas e sandezes. Qualquer Fernandez Shaw ou Eduardo
Marquina, Santos Chocano ou Manoel Machado, Ruben Dario ou Francisco
Vilaespesa, poderiam ter assignado esse texto de bravura, doce e
intenso, vivido e sentido, verdadeiro cantico d'uma alma unindo a
transcendencia lyrica á precisão. No tempo da Coronado os poetas ainda
eram só romanticos ou classicos...

O individualismo hysteropatha não tinha creado os grupos de _cabaret_
e as patrulhas maniacas de symbolistas, instrumentistas, decadistas,
ideologos, esthetas, neo-mysticos e magnificos, que depois inçaram a
poesia de brochuras pathologicas, dando a impressão d'uma casa
d'orates com mais exhibicionismo que estro, e menos inspiração que
maluqueira.

A poetiza desde 1874 ficára isolada, pela tristura claustral da sua
vida, das correntes poeticas que agitavam o mundo, vindas dos
altos de Montmartre, té aos centros d'insurreição de Madrid
e de Lisboa. Poetava á antiga, com um gesto nobre e a palavra fluida
da velha escola hespanhola, que tinha em Espronceda, seu conterraneo
tambem d'Almendralejo, um dos mais altos e orgulhosos paladinos.

Despertou-se-me então o desejo de, senão conhecer de perto, pelo menos
entrevêr uma vez sequer a singular creatura que aos oitenta e dois
annos rimava com uma pujança feraz tão bellas coizas. O visconde de
Castilho e o dr. Souza Viterbo a quem algumas vezes fallei na
Coronado, depois d'elogios enlevados ao talento e viveza de
conversação da illustre enclaustrada, evitavam pormenorisar detalhes
que me ajudassem á creação d'um retrato physico ou moral, justaponivel
ao indeciso perfil que a leitura dos versos me acordara.

Pouco a pouco porém outros informadores foram surgindo, ao acaso das
apresentações e das palestras, e agora um, outro ao depois, pequenos
traços de luz vieram vindo, á força d'indiscrição, devo dizer, que
talvez pareça violar o recato da vida intima, mas que pelo significado
ultimo d'exaltação admirativa, estou que m'o perdoarão aquelles que
como eu não pódem examinar uma obra d'arte, senão tocando-a
e palpando-a, primeiro que se enthusiasmem da sua rareza e possam
comungar da sua singularidade e formosura.

       *       *       *       *       *

Com os informes de todos esses confidentes anonymos, pela mór parte
amigos e para assim dizer vassallos graciosos, pude alfim reconstituir
da gran senhora a estatua arcaica, entrevêl-a como atravéz dos veus
d'um santuario, e do lado esquerdo do peito acender-lhe uma luz, que
póde ser não seja alma, mas que servirá para marcar o sitio onde bateu
um coração.

Morto o marido em 1891, Carolina Coronado não consentiu, por mais que
a lei portugueza insistisse, em separar-se do cadaver. Veio a policia,
vieram os magistrados, veio o ministro de Hespanha, veio o ministro da
America, e deante de todos estes symbolos de força irrevogavel, a
varonil mulher opôz a razão absurda da sua paixão esponsalicia, a
aflição das suas saudades, e a ofegancia romantica dos seus zelos
mortuarios. Não queria que a terra do cemitério provasse o corpo
amado, e os adorados restos deixassem um momento d'estar sob
a impressão dos seus cármes dolorosos, ouvindo-lhe todos os dias a
voz, como se sob o encanto d'ella o drama da podridão custasse menos
ao morto, e, sucessivamente exaladas do seu féretro, _odes_[1] vitaes
pudessem vir impressionar e envolver de sugestão passional, o espirito
amoroso, supersticioso, solitario e monjil da abandonada.

[Footnote 1: Fluidos telepaticos, animicos, que se desagregam dos
_mediuns_ em somno hypnotico, chegando a tomar formas fotografaveis.]

Como Joanna _a doida_ ella acompanha, da casa de Paço d'Arcos para o
palacio da Mitra, o cadaver de Justus Perry, e á força de teimosia
imperiosa, de soluços, de suplicas, consegue alfim que as autoridades
fechem os olhos, movidas talvez pelas imposições dos diplomaticos;
quem sabe mesmo se pela feitiçaria dramatica do feito, deixando vêr
n'essa estremenha uma alma do _Romancero_, de grandiosa esculptura e
anormal poder de sugestão!

Desenove annos, n'um simples caixão de chumbo, envolto em madeiras de
cedro ou d'ebano, o corpo de Justus Perry permaneceu na
capella da Mitra, sob o fulgor perpetuo da lampada alumiando as
estatuas dos nichos e os icones dos altares: até ha poucos dias irem
os dois, marido e mulher, caminho do pantheon de familia, em Badajoz,
onde como na vida as suas nupcias seguirão, na paz do nada.

       *       *       *       *       *

Esta casa da Mitra foi não só mausuléo de Justus Perry, como tambem da
Coronado, pois, salvo uma ou duas vezes que teve d'ir a Hespanha por
motivos de familia ou d'interesses, nunca mais a illustre mulher
deixou aquella estancia melancholica, que foi realmente o seu claustro
e o seu mosteiro.

Quem passava na estrada d'aquelle laborioso e popular Poço do Bispo,
em plena turbulencia dos carros de carga, dos silvantes comboios, do
martelar das oficinas, do fumegar das altas chaminés, dos grupos de
gente tisnada e arremangada, certo não poderia supôr que por traz
d'aquellas cantarias altas e d'aquellas podridas janellas, uma
creatura rara sofria e meditava--uma creatura d'alma heroica, da raça
das Virgens d'Avila e das Donas Marias de Molina, e que aos oitenta e
dois annos deslumbrava os amigos com a sua lucidez desconcertante, a
sua verve picaresca, a sua eloquencia de homem, a sua belleza de
rainha, e tal poder de ressurreição e recordação, que todos os
fantasmas da sua mocidade viviam e existiam _reaes_, a cada simples
apêlo dos seus dedos e estranha palavra dos seus labios, como as
ressurgiria o _medium_ Egglinton, ou Eusápia Palladini, n'alguma
sessão de hermetica e telepatica.

Fechada completamente para as menores sugestões e aparições
contemporaneas, não recebendo senão dois ou tres velhos amigos que lhe
fallavam do passado, não chegando sequer á janella, por uma especie de
horror aos inventos modernos e aos aspectos da multidão grosseira e
circulante, Carolina Coronado vivia como se ha trinta annos a tivessem
fechado n'uma caixa, tapando-lhe os ouvidos e os olhos para não sentir
as evoluções e reviravoltas do mundo alheio e exterior.

D'aqui resultaria o que geralmente sucede aos cegos e a certos
surdos-mudos perspicazes, que á mingua de sentidos proprios que lhes
desdobrem a attenção sobre o de fóra, vêem para dentro, _com
força décupla_; d'onde uma hyperacuidade d'imaginações, visões, uma
vida febril de sonhos e quiméras, uma sagacidade felina para induzir
de pequenas causas, efeitos mysteriosos e longinquos, que explica em
muitos, por exemplo, suas faculdades de poetas e de musicos, de
calculistas e filosofos, e na Coronado esse fulgurante poder de, em
meia hora de palestra, nos abrir perspectivas profundas, de
historiador e psychologo, sobre os meios sociaes e a gente illustre,
ou simplesmente anedótica, que ella conhecera e tratara em tempos
idos.

Graças a essas faculdades cydoramicas, a esse instincto artista da
escolha de traços com que rhembrantizar e exprimir o mais intenso das
personalidades e das almas, Carolina Coronado fazia-nos viver com
emoção profunda quadros das tormentosas ou desvairadas epochas do
reinado d'Izabel II, entre 1836 e 66.

Era o corregedor Pontejos, uma especie de intendente Manique, que
elegantisou e saneou Madrid com requisitos de benemerencia e energia
eguaes aos d'este, mas sem o sobrecenho despotico que a historia lhe
atribue.

A aristocracia e a elegancia representando-se pelas casas
ducaes d'Ossuna, de Liria, de Vistahermosa, de Gor, de Rivas, de
Fernan-Nunez, d'Alba, de Medinacelli, de Dénia, d'Abrantes, de Frias;
pelos marquezados de Miraflores, do Socorro, de Casa Riera, de Santa
Cruz e de Pover; pelas casas condaes de Oñate, de S. Bernardo, de
Guaqui, d'Altamira, Torre Muzquiz, etc., cujos paços disseminados pela
cidade velha, verdadeiros museus d'artes sumptuarias e riquezas, se
abriam d'inverno para sucessivas festas e saraus, e cujas mulheres
faziam ás tardes, nos desfiles do Prado e da Castelhana, nas soirées
do Theatro Real, ou nas recepções do Palacio do Oriente, revoadas
esplendidas de bellezas que as memorias do tempo deixaram celebradas.

Era o tempo das primeiras emprezas d'irrigação, navegação e
ferro-carris, que acordavam em todos os paizes, na ancia de renovação
trazida pelo constitucionalismo, como um reverdecer de novas estações;
o tempo dos grandes emprestimos para expedições coloniaes e guerras
politicas, quando argentarios como Caballero, Salamanca, Ceriola,
Perez-Sevane, Calderon, Benisa y Lafont, floresciam na finança
hespanhola, como nas cathedraes os _monagillos_ encarrégues,
d'entreter o oleo das lampadas, para que a fé se não extinga, e os
deuses se não vejam abandonados.

Politicos e estadistas como Arguelles, Mendizabal, Martinez de la
Rosa, Calatrava, Olozaga, Herros, Narvaez, O' Donell, Espartero,
Serrano, Prim.

Homens de letras como Lista, Gallego Breton, Gil e Zarata, Lopez
d'Ayala, o poeta Quintana, o poeta Zorrilla, Mariano Larra (_El
pobrecito hablador_), Vega e Hartzennbuch, Mezoner Romanos, Pedro
d'Alarcon, Fernandez de los Rios, Cambronero, Juan Valera... Artistas
como Ventura d'Aguilera, os esculptores Llaneces e Solá, Marinas (o
autor da estatua de Velasquez), e nos seus doces _recuerdos_ de
Sevilha, os dois Becquer, mortos de fome; Valeriano o pintor, e
Gustavo Adolfo, poeta d'estirpe grega, d'essencia olympica com a
delicadeza e a graça d'um Hegesipe Moreau, na fantasia lunar d'um
Nathaniel Hawtorne ou d'um Bret Hart.

Ouvil-a descrever, comentar, caricaturar toda esta gente, desenhando-a
em dois riscos, caracterisando-a com duas anecdotas d'escolha,
relampejantes sempre, e sempre finas, lançando-a na _melée_ social,
depois de que esquissava sumariamente as essencias directrizes e as
paixões tendenciosas, era um d'estes cursos de historia fallada, uma
d'estas delicias cerebraes que davam da narradora a impressão mais
assombrosa, e induziam o ouvinte a ficar alli a escutal-a eternamente.

       *       *       *       *       *

Ha quatro ou cinco annos que sob pretexto de notas para uns artigos
sobre azulejaria artistica, consegui da residente illustre da Mitra
licença para percorrer rapidamente a escada e alguns salões. De
combinação, alli me esperava um amigo da dona da casa, e meu, o qual,
fingindo surpreza no encontro, me apresentaria á Egéria, ao tempo
sósinha em palacio, pois sua filha estava em Badajoz. Das riquezas
patrimoniaes da Coronado, e das acumuladas pelo marido durante as
vastas emprezas comerciaes e industriaes em que fallei, grande parte
devia ter cahido em sorvedoiro, pois tudo na residencia denotava,
senão estreiteza de meios, pelo menos um estado de finanças bordejando
de perto a derrocada.

Em 1891 a casa e quinta da Mitra tinham já sido vendidas por
54 contos a certo advogado artista de Lisboa, cujas consultas então se
pezaram a oiro, e que a Coronado trouxera ao seu serviço em não sei
que trapalhadas juridicas, demandas, pleitos, que levariam parte dos
caudaes. A escriptura de venda estabelecia a clausula de residir na
Mitra a vendedora, até final de vida, e certamente o preço da
propriedade fôra para liquidar os honorarios do causidico, e
provavelmente cobrir compromissos ou dividas que tirariam o somno á
escriptora. Ella não podia fugir á lei fatal que põe os cerebraes do
ramo artista na contingencia d'ignorarem, pela mór parte, o valor do
dinheiro, e a arte judenga de o fazer frutificar em especulações e
trafegos rendosos.

A morte de Perry, pondo ponto na tutela sensata e escrupulosa gerencia
dos fundos do casal, não teria precavido a viuva, par e passo, contra
os futuros perigos de gastar sem contar, mórmente ficando as contas
entregues ao zelo incerto e enganosa honradez d'administradores e
feitores, que são bons ou máus conforme a fiscalisação a que os
sujeitam.

Está-se a vêr o mecanismo porque, morto o marido, a Coronado
transita da fartura cómoda para a escassez molesta e tragica.

É sempre o mesmo, n'estes navios onde o piloto falta, e onde a
tripulação perde o respeito. Corro pois uma gaze sobre este lance da
historia, que de resto só entristeceria o leitor contra as injustiças
da vida, e passo a dizer que a minha apresentação foi captivante, e a
illustre escriptora, em quatro palavras d'aquella cordealidade
hespanhola que em cortezia familiar nenhuma eguala, pôz a minha alma
rendida deante do gesto infinitamente nobre da sua mão d'abadessa e
imperatriz viuva, que pude alfim beijar, mui reverente.

Com um vestido de velludo preto, de cauda, branca de neve, os imensos
olhos de velludo molhado, que o fulgor do genio rejuvenescia no leve
engêlho das póchas orbitarias, Carolina Coronado aos 82 annos era uma
mulher alta e direita, de talhe esbelto, por ter ficado magra, e com
dois bandós nas fontes, frizados e nevados, como esses que os retratos
dão á rainha Izabel II nos seus ultimos annos de Paris.

Fallava um hespanhol claro e castiço, florido de modismos
que pela graça rebuscada tinham um oloroso sabor de lingua velha;
hespanhol de provincia classica e de convento, que seria o fallado
entre a gente bem educada de ha meio seculo.

Ás minhas palavras de saudação, ella, certo para atalhar o discurso, e
evitar talvez que eu me estendesse, perguntou-me se era de Lisboa; e
conhecida a minha origem transtagana e a terra de charnéca onde eu
nascera, acrescentou que então eramos quasi vizinhos, pois Villa de
Frades distaria talvez uma duzia de legoas d'Almendralejo e La Serena,
a patria da sua familia, em cujas parochias tinham banco fechado os
Romeros Tejadas e os Coronados Cortez d'aquellas terras. Envaidecia-a,
de resto a sua origem estremenha sem mistura. Ha dois sitios de
Hespanha que imprimem caracter proprio aos naturaes: Estremadura e
Aragão. D'alli teem sahido artistas, guerreiros e politicos
d'excepcional fragor e intensidade.

--Se eu tinha viajado em Hespanha?

Todo o hespanhol é sedentario e bairrista, porém o portuguez quasi que
o excede... De resto, para um portuguez viajar em Hespanha, é
percorrer um pouco a sua terra. «Hespanhoes, resumiu ella,
somos todos nós, os peninsulares».

E de repente, voltando-se para mim--Se eu era iberico?

Cuido ter feito um gesto que, imperceptivel embora, contudo a minha
interpelante colheu, _al primer vuelo_, medindo n'elle a patriotice
chocada em leituras da _Filippa de Vilhena_ e outros canastrões
theatraes archisandeus.

--_No se moleste usted. No es mas que hablar_, contraveio logo com o
mais gracioso gesto d'acalmia. E foi dizendo:

--Tinha sido o erro de Filippe II, tão grande politico, não transferir
logo para Lisboa a capital do reino unido. Se assim tem feito,
Portugal e Hespanha estariam hoje abraçados n'uma nacionalidade unica
e pujante, o que evitaria a ambos a decadencia funesta que durando vem
té ao presente. De mais que, segundo as datas da historia fidedigna, a
perda da independencia não foi tão dolorosa a Portugal como se diz nos
manuaes para as escolas. Em toda a parte os povos mechem-se
principalmente por interesses, e os primeiros passos da dominação
hespanhola em Lisboa foram até sympathicos á população,
sobre quem Filippe II exerceu uma atracção benevola e singular...

Um erro deploravel! Os nossos dois paizes reunidos ficariam na carta
com uma massa de territorio maior que a França, e as suas colonias
somadas dariam um dominio colonial superior ao da Inglaterra.

Tinhamos tomado assento na ultima de tres salas que formam a parada de
recepção da residencia, e que com quatro janellas de varanda sobre a
rua, e duas janellas-portas ao terraço, tinham luz deslumbrante, em
grandes resteas de sol primaveral.

Tudo no mobiliario velho e desbotados tons das braçadeiras, cortinas e
alcatifas, chorava a tristeza pudica das coisas de luxo que a penuria
assedia, e teem de morrer em serviço, como os cavallos velhos nas
carroças. Cadeiras modernas de Vienna alternavam com esplendidas
poltronas e sofás, cuja seda o sol e o roçar das cabeças fanára e
mesmo tinha esgarçado em certos pontos. Nas _carpets_ de preço, gusano
e pés tinham já consumido a lã das flores e dos desenhos apparecendo a
trama em séries de cordas varicósas.

A alguns moveis artisticos faltavam-lhes ferragens, precisavam ser
refrescados e envernizados; jarras da India, sobre columnas,
voltavam para a parede os buracos e as rachas dos desastres; casaes de
pombos, livres pela casa, tinham feito ninho sob um bufete, borrando
tudo; e até, n'uma estante lindissima, os proprios livros amigos,
confidentes de dores e desalentos, até esses tinham um ar d'exilados,
e o geito de nos dizer que o seu tempo passára, e lhes doía a velhice
e as suas imensas saüdades de Madrid...

De pé, na sala, a illustre senhora mostrava pela janella aberta
aquella enseada morta de tres leguas que o lisboeta chama _mar da
palha_. A outra margem silhuetava no azul sua paysagem terna e
esfumadiça.

--Diga-me se isto não é a rada d'uma cidade de dois ou tres milhões de
habitantes, chave do comercio atlantico, e capital soberana da Iberia
una e congraçada.

Eu por mim não queria saber da tal Iberia una, reconhecendo entretanto
que o erro de Filippe II impedira talvez a realisação d'um bello sonho
de nacionalidade formidavel, enquanto na hora presente, com dois
paizes egualmente preguiçosos e incapazes, loucura fosse ajuntar
misérias que já dolorosas eram, separadas.

A enseada do Tejo é que verdadeiramente prendia os meus
olhares, vasta, amorosa, em azul pallido, listrada de correntes, e com
placas espelhadas d'agua morta. Algum vaporeto passava para
Aldegallega ou Barreiro, fumando distrahidamente o seu charuto; alguma
falúa ou barco de pesca desfraldava a véla de guião, quadrada,
vermelha com a latina á pôpa, e aquelle gesto airoso, ideal, gaivotal,
de fender a agua, patinando. Aquillo lembrava em Veneza as travessias
para o Lido, sob os esverdeados céus do Adriatico, por uma tarde assim
primaveral.

Entanto, por uma escadaria de balaustres, tinhamos descido ao jardim,
do seculo XVII, todo em meandros e porticos de buxo, que de resto ha
muitos annos ninguem tosquiava, e canteiros adentro mantinha uma
desordem d'arbustos sem trato, e hervas bravas crescendo á doida, como
nos pouzios da devêza, ao Deus dará.

--E de leitura hespanhola, como vamos? Aventurei varios nomes de
modernos: Pio Baroja, Benavente, Rusiñol, Felippe Trigo, Antonio
Palomero, Anton del Olmet, Lopez Barbadillo, Ciges Aparicio, Isaac
Muñoz, que ella pareceu escutar sem conhecer.

--E Juan Valera? interrogou.

--Conheço.

--Lopez d'Ayala?

--Sim.

--Campoamor, Nuñez d'Arce, Menendez Pelayo...

--Um pouco, um pouco.

--Pereda, Galdós, La Pardo...

--Sim, sim, tudo isso li.

--_Hombre_, exclamou ella com uma acerada ponta ironica. _Es usted un
portugués mui sabionado._

--Que quer! A lingua hespanhola tem para mim um prestigio e uma musica
que me não canço d'ouvir e de gostar. É uma lingua de guerreiros e
d'oradores, para hymnos e para suplicas, compativel com a expressão de
todos os estados emotivos. Ella sorrindo, repetia o proloquio:

--Falla francez ao teu cozinheiro, inglez ao teu cavallo, alemão ao
teu cão, e hespanhol á mulher que mais te agrade...

Tinhamos vindo ao cabo do jardim, e por uma porta de ferro chegamos a
um grande trecho murado de floresta ou bosque, onde a vegetação
deixada ao esbracejar liberrimo de vint'annos, apagava o torcicollo
das ruas, emaranhando para todos os lados, labyrinthos de
folhas e de ramas.

Aquillo lembrava o _Paradou_ da FAUTE de Zola, com a noite glauca dos
macissos, as lucarnas das cópas deixando feixes de luz zebrarem
d'esmeraldas liquidas os fundos. Uma aluvião de melros silvava, uma
guarda de honra de passaros respondia.

Era recolhido, intimo, profundo, e ouvia-se, não sei onde, um tenue
telingar d'agua corrente. E eu lhe disse erguendo a vista áquella
intensa ablução d'asas e folhas:

--Aqui se vive em plena natureza.

E ella tornou:

--Não. Aqui se morre em plena soledade.



A EMINENTE ACTRIZ


Cahiu o panno entre chamadas ovantes, gente de pé nas cadeiras,
debruçada dos camarotes, e em chusma junto ás portinhas de sahida,
acotovelando-se, clamando, _bravo! bravo!_ A geral estava deserta, um
grupo ao meio da sala berrava, _fóra o auctor_.

E quando elle veio de casaca, agradecer com aquelle seu geito modesto,
muito risonho e de rosa amarella na botoeira, a sala aqueceu ainda,
houve bravos, e o Moreira das magicas, enfiando o _pardessus_, disse
para um desenterrado de luneta, com a sua bella emphase de auctor
laureado:

--Vae longe, este camello, sim senhor, vae longe.

--É possivel, opinou seccamente o desenterrado, e a cabecita em
pyramide, com pellos de rato sobre a testa, pendulava-lhe
para um lado e outro, desengonçada sobre o gasnate côr de moka. E
puxando amigo Moreira de parte, olho acceso em iras biliosas, o
_plastron_ descosido, disse alli que a peça não tinha fundo, que o
estylo era rocambolesco, e toda a litteratura devia mirar um intuito
critico, sem o que ficaria um brinquedo de gaiatos. E que se em
Portugal o publico desprezava litteratos, e podia passar sem o que
elles exgregavam nas gazetas, a razão era taes litteratos serem mais
ignorantes, ou menos intelligentes, que a multidão a que se pretendiam
impôr.

--Que damnada lingua me sahiste! dizia Moreira das magicas, com
pancadinhas d'applauso no hombro do desenterrado.--Baixava a voz para
insuflar, que em parte assim era. Todavia exceptuava muita gente. Ahi
está o José Maria, por exemplo. O nosso Mendes Leal, tão conceituado
lá fóra. E este, e aquelle...

--Eu creio bem, argumentava o da luneta, que no meio d'esta sucia, por
engano, ha talento uma ou outra vez. Mas diabo! Não estamos já nos
_soláos_ do Serpa, nem no _Conde Alarcos_ do Cunha. Dêem alguma coisa
mais do que phrases ôcas, meus senhores! A formula litteraria é
apenas vehiculo da ideia, e não pode tornar-se em preoccupação, como
ahi estamos vendo. Mais! Quer-se em toda a obra um ponto de vista
elevado e philosophico que a domine. Eis o que não ha n'essas
mioleiras, meu filho! Veja-me vossê o Pimentel, que esses localistas
parvos andam a proclamar nas gazetas. Idiota! E vou-lhe ás ventas;
vou! E o menino Felix de Macedo, mais o cretino Fernandes! Ocos que
nem uma cabaça, immortaloides de redacção, sem testa, nem estudo, nem
officio. Que tenho eu que vêr com tal romance ou tal drama, com tal
phenomeno scientifico ou tal processo de pintar, se estas coisas me
apparecerem abstractamente, sem uma orientação que as filie e
correlacione n'uma dada corrente--não sei se me faço entender?

Com o largo aceno de quem trunca pela base a tolice humana,
estabelecia--que tudo vinha sob dependencias e condições, facto moral
ou facto physico. Tal livro é effeito do livro anterior, e causa do
posterior, como tal estado politico ou mental, derivam do estado
anterior, e preparam o que depois vier. E desgraçada a geração que por
sua anarchia psychica não sabe fazer progredir um systhema,
assimilar um código de doutrinas, desenvolver e tornar perfeito
qualquer ideal em arte.

Ás vezes, é o povo que por ignorancia repudia a lei nova; cabe aos
escriptores, aos homens politicos, e aos artistas, uma lucta sem
treguas em prol da conversão ao credo ambicionado. Eis o naturalismo
expulsando da arte os romanticos, em meio das repugnancias geraes.

Mas acontece--e o desenterrado levou á parede o Moreira das magicas,
enfiando-lhe um dedito successivamente pelas diversas casas do collete
branco--acontece um bello dia, haver mais illustração na massa que no
grupo dirigente d'artistas e pensadores. Em tal caso, a massa vota
legitimamente ao desprezo aquelles nigromantes. É o que se está dando
entre nós co'a politica e litteratura. A corrupção dos partidos dá de
si...

Moreira escancarava a queixada num bocejo desopilante: quando uma
rebanhada de talentos da geração novissima furou por entre os
conversadores, ao tempo do desenterrado citar Beaumarchais, Ben
Johnson, e aquelle pobre Molière, coitado! No entanto o theatro
esvasiava ao de manso. A ribalta extinguira-se, os da orchestra
enfiavam os instrumentos em saccos de chita e erguiam as golas para
sahir. Aqui e além, nas ultimas ordens, um arrastar de cadeiras soava
ainda, vozes chamando, risos altos, e um deserto fazia-se na sala, sob
a agonia do lustre, e o cynismo do relogio que marcava cinco horas,
havia mais de sete annos.

Fôra a primeira representação dos _Dois Rivaes na Côrte_, quatro actos
de capa e espada escorrendo phrases feitas n'um entrecho infantilmente
pavoroso, onde as personagens se davam o _vós_ comparando-se ao
systema planetario, e reforçando os lances de effeito, com allusões
aos phenomenos atmosphericos e biblicos mais assustadores... o raio em
sua furia indomita, o diluvio, pragas do Egypto, miseria de Job...
havendo um monologo sobre a capa de José, que os _fauteuils_ tinham
mimoseado com surdos bravos d'adhesão. A peça era estreia de Rogério,
Rogério Vasques, primo da Alcina, moço que por tão raro trabalho
tomára definitivamente logar _na phalange dos nossos mais talentosos
escriptores, pelo que felicitamos o nosso amigo_, diziam os jornaes.
Um triumpho completo, os _Rivaes na Côrte_! Critico Borbas, do
_Seculo_, tão exigente em coisas de palco, parado no camarim
da Velledo, recitára com voz lacrimejante, no fim do acto, aquelle
bocado da separação--_parto, o coração me fica suspenso n'estas
paredes, testemunhas de tanto perdido amor! Só vós, ó Conegundes de
minha alma, conhecereis a fundo este báratro d'angustias, que como o
universal diluvio_...

Ah, mas como o Taveira dizia aquillo!

Dias antes, toda a litteratura em evidencia recebera do joven
dramaturgo um amavel convite de ceia na sala grande do _Central_, á
hora de acabar a primeira representação. Tinha sido um regosijo
fremente. Aquelle Vasques, bello moço, que talento maleavel, e tão
instruido! Com que então Champagne fino? Um pouco prejudicado em
preconceitos d'escóla talvez.

Genial Pirralho, todo cheviote amarello, bigodeira mephistophelica e o
grande ar de Paris, tinha mesmo dito--é um temperamento. E o _menu_
passava de bocca em bocca.

       *       *       *       *       *

Deixando Alcina, Rogério não foi mais o bonifrate de provincia com
preoccupações de Chiado, ares de saude camponia, e ingenuidades
de primeiro amante. Gastára no convivio d'actores, janotas,
litteratos, cocheiros, e femeas avariadas, toda a bruteza sincera e
boa que na educação caseira adquirira. E hypotecando as ultimas
migalhas de herança, dormindo fóra, bebendo e jogando ás noites,
tornava-se pedante, depravado, amarello e pulha.

O theatro d'opereta em que primeiro Alcina estivera escripturada,
tinha sido para ambos a melhor escóla pratica de malandrice e usura.
Alli, cada figurante de scena ou frequentador de camarim, dir-se-hia
passar os dias na cogitação de explorar quem apparecesse á noite com
cara de tolo. Apenas Rogério, tendo a prima por amante, começou de
acompanhal-a ao theatro todas as noites, e a fazer na ausencia d'ella,
a quem chegava, as honras do camarim, viu-se logo rodeado por uma
série de ratos de bastidor e polvos de redacção--gente faminta,
intrigante, educada a comboiar boatos, cartinhas, subscripções,
pequenas calumnias de casa d'um para casa d'outro--que ia girando
n'uma baixeza d'inveja á roda dos charutos fumados, das correntes de
relogio, impingindo bilhetes de beneficio, offerecendo-se para
alcovitar, com pormenores de creada sobre as pernas d'uma,
os amigos d'outra, os seios d'esta e os cabellos d'aquella... todo o
arsenal de canalhice exigido em curso para tão equivoco mister.
Desengalfinhado d'esta tropa á custa de generosidades forçadas,
desprezos, empuxões, até soccos, Rogério teve de rechaçar depois uma
ciganagem d'outro genero, amabilissima, risonha, com emphases altivas,
articulando as palavras musicalmente, pondo luvas frescas todos os
dias, e tendo o nome a ouro nos annaes das lettras e das artes. Eram
os grandes actores da cidade, todos os generos e theatros, paes
nobres, ingenuas, galãs, graciosos--tenores tysicos, barytonos sem
voz, e essa variedade neutra de comediantes cognominados entre nós de
_conscienciosos_ ou _diseurs_, que serve para tudo e goza a estima dos
auctores, em razão do merito reles que exhibe, de jámais _desmanchar o
conjuncto_.

Eram tambem escriptores intermedios, _amanuensando_ das onze ás
quatro, fazendo jornal das quatro ás onze, finorios chouteando na
esteira dos gabinetes corrompidos, em faro de boa posta, louvando aqui
a vaidade dos ministros, além atirando lama ás ventas dos adversarios,
em eternos clamores contra a decadencia dos costumes, mas
rindo por dentro de tudo, tudo ouvindo, sabendo tudo, explorando com
tudo, e exhibindo-se em publico os ares de grandeza impeccavel, que
Vautrin recomendava aos Rastignac e de Marsay que lhe sahiam do
ventre. Rogério amou esta camaradagem nova, que nos seus annos de
provincia tanto admirára atravez das hyperboles dos diários. E por
influencia de contacto, relações, letras assignadas, condescendencias
d'Alcina, jantares, e uma bicharia d'assignaturas para publicações que
falliam ou não chegavam a ver a luz, acordou tambem litterato certa
manhã. Entrado na imprensa fez subir Alcina, que sem voz a esse tempo,
debandava para o drama, já tão magra e lombricoide, que não era
senhora d'engulir uma pilula, sem os jornaes a dizerem gravida de
cinco meses. Esta ligação d'Alcina com o primo durou pouco, vindo a
ser truncada apenas apresentaram Rogério á Velledo. Alcina era
ciumenta e teimosa; um nadinha infiel além d'isso! Não resistindo ás
furias de prazer exigidas pelo seu temperamento frenetico, a sua
franzina e pobre organização murchava e cahia. De manhã estava côr de
morta, seios sorvados, olheiras á bocca, olhos imbecis, e um ar
de prostração assustador, casado com uns reflexos glaucos,
que raiando-lhe das fontes, aos cantos das orbitas, iam terminar n'uma
_griffe_ de ruga.

E vinte e quatro annos apenas!

--Não bebas, muitas vezes lhe dizia Rogério, vendo-a engulir entre
chavenas de café e charutos fortes, uma quantidade de calices de
cognac. Mas ella sempre gostando. Ora adeus! Até punha fortaleza, voz
mais alta, o espirito vivo como um passaro. Depois tão petulante a
beber!... A viveza com que molhava a linguinha rutilante no licôr
esbraseado, revirando aquelles extraordinarios olhos pretos, humidos,
audazes, cheios de ganas secretas, que a salvavam ainda pelo fluido
calido em que ardiam, e de grandes que eram lhe faziam a cara
pequenina!...

--Não é tudo, disse-me Rogério uma occasião no Aterro. Beber é mau,
mas perdoava-lhe, que diabo! Com o cognac porém, vieram os vicios
supplementares, que de resto não aprecio nas mulheres, nem estava para
subsidiar em proveito dos devassos que iam lá por casa. Entende vossê?

Escrevia elle folhetins na _Gazeta do Sport_, chronica da alta-vida
segundo a testada, e bastante mal escripta para se crer que
assim era. Esses folhetins fizeram-no celebre, secretario d'um gremio
d'escriptores, successivamente premiado de Mont-Real e irmão dos
terceiros. Centros de litteratura amena e critica austera, livrarias
com cavaco e sociedades com bilhar, brindaram por elle. Deitou
almanach com bocadinhos democraticos, e um juizo do anno em que era
ameaçado o throno. Lindôso, que era quebrado, e ás bancas do Martinho
maravilhava localistas myopes e uma quantidade d'aspirantes,
abraçava-o em publico com palavras de pompa. E por duzias, os albuns,
os semanarios e jornalecos de districto, reclamavam trechos d'essa
penna hilariante que gottejava sol peninsular, ortographia sonica, e
mesmo asneiras, querendo Nosso Senhor. Discutiam-no. Já lhe davam
escóla e processo de factura. Era um moderado, um joven ecletico, meio
romantico, meio positivista, com predilecções d'assumptos doces e a
ambição das finas coisas mundanas, cheio d'imagens originaes,
chispando mordentes graças, vigoroso e probo, tendo os nervos
irritaveis d'uma mulher. Na frente, como chocas, os jornaes iam
conclamando unisonos:

--O talentoso amigo e brilhante escriptor...

Uma das bellas organizações da Peninsula...

Erguiam-no em rival de Lindôso, que a tantos se afigurava um prodigio
além de toda a espectativa. Festejado Peres nem dizia sim, nem não.
Deixar vêr! E o colossal Pirralho advertia que não era bom thuribular
debutantes, que podiam perder-se de vaidade, imaginando-se deuses.

E n'uma vocalisação emphatica:

--É o defeito dos homens do Meio-Dia, onde os temperamentos são
cálidos, e os modelos a seguir não abundam. Quando encetámos a nossa
publicação critica, era notoria a esterilidade litteraria em
Portugal...

Mas Horacio fazia um passo no grupo, armado dos seus oculos de ferro,
nisa curta, um pigarrinho erudito. E cuspilhando:

--Systematisemos a these, conforme o proceder do meu Comte!

       *       *       *       *       *

Os convidados por Rogério tinham ordem de reunir no _foyer_, findo o
espectaculo. A peça acabára tarde, duas da noite; e primeiro que
a Velledo apparecesse, tiveram d'esperar boa hora e meia.
Emtanto falava-se da peça. Estava o melhor da litteratura e da arte. E
faziam-se apresentações. Festejado Peres trinta annos de dramas
historicos com applausos freneticos, rapoza velha em coisas scenicas,
conforme corria, apresentou a Rogério o grande Aurelio, uma _gloria da
scena_, interprete das suas creações, de quem Doux dissera n'um
atonismo absorto:

--_C'est un petit prodige, ce marmot là._ E a phrase ficára celebre.
Aquella apresentação penhorára Rogério, que muito commovido, voz mansa
agradecia com ar modesto. Além o pensador Horacio que fazia as
primeiras carambolas na cervejaria e continuava virgem de contacto
impuro, definia a arte segundo Comte ao Moreira das magicas e
sainetes, emquanto Pirralho dizia a vida na _Comédie Française_, o
ceremonial d'entrada no _foyer_, e como Croizette era a musa dramatica
moderna. Bulia em volta a ninhada _d'esperançosos_ côr de cidrão,
ganymedes que se davam ares, corcovando a espinha e rindo alto das
facecias do mestre, com o faro na ceia offerecida. E o mestre
esfogueteava pela sciencia em citações vehementes, fuzilando,
causticando, vibrando a nota heroi-comica, que na sua proza
fazia o delirio dos discipulos e a admiração do publico. Reinava
grande cordealidade. Pae nobre Tiburcio, que desde o desastre da
_Filha Roubada_, não falava ao inflexivel Borbas, veio lacrimoso
abraçal-o pelas costas. E em volta acharam bonito, e houve beijos como
entre damas. Rogério ia radiante por todos os grupos, abraçado,
elogiado, n'uma effusão d'intimidade que lhe punha o coração nas mãos.
Não se ouvia á sua passagem senão palavras quentes, bocados de critica
enthusiastica: a maior vocação, o mais extraordinario dramaturgo entre
os modernos, um dos maiores da Peninsula--e explendidissimo,
scintillantissimo--e como Sardou, e como Dumas filho, e como o velho
Augier... Os famintos tiravam o relogio, chamavam-no de parte,
davam-lhe tu, relembrando que tinham andado no mesmo collegio, muito
amigos sempre, não te lembras? Mas quem diria! Rogério, o 34, tão
enfezadito de cara, cheio de zeros em _portuguez_, e sahir-se agora um
escriptor d'aquella alçada! Elle a todos dava uma boa palavra, pedindo
opiniões em separado sobre a peça; o que esperava era franqueza, visto
não arder nos orgulhos balofos de certas sumidades. Moreira
tinha-lhe achado grande fundo historico, côr local como o diabo--sim
senhor--e que pena terem cortado o sarau do terceiro acto! De resto
afigurava-se-lhe D. Fagundes o seu tanto herético para uma plateia de
damas. No theatro, na escóla e no templo, a religião primeiro que
tudo: já Garrett o escrevera. Bem sabia que o espirito moderno... E
muitos parabens.

Mas festejado Peres, saracoteando a nalga roliça:

--Meu Rogério, disse elle cingindo o dramaturgo, has-de conceder-me,
conceder-me, que tenha a sciencia do drama historico... drama
historico... tão descurada pelos rapazes de hoje, rapazes de hoje...
Já o fiz saber no prologo da minha _Duqueza de Bragança_... de
Bragança. Eu cá, escrupulosissimo no theatro. Será casmurrice, eh! eh!
casmurrice... mania de velho; deixal-o ser!... Hein? deixal-o ser.
Missonier, antes d'algum quadro militar... quadro militar... até
estudava os botões dos fardamentos... eh! eh! dos fardamentos. Eis
onde eu levo o escrupulo tambem... E o publico dá palmas... dá palmas.
Posto isto, e como teu amigo que sou... teu amigo... sempre
direi que commetteste um crime de lesa historia... eh! eh! lesa
historia... pondo compota de pecego no festim de Januario de
Mendanha... compota de pecego.--E de chapéu alto para a nuca, as
orelhas despegadas do craneo, o grande homem recordava um d'esses
burros com mitra, arrancados ás _festas dos doidos_, nas cathedraes da
Edade Média.

--Pelo correr do seculo quatorze... seculo quatorze... proseguiu elle,
não era conhecida no reino aquella doçaria, conhecida no reino... que
só remonta ao ultimo quartel do seculo dezeseis, eh! eh! seculo
dezeseis... Consulta Viterbo, fr. Bernardo de Brito, o abbade Castro,
abbade Castro... Este pormenor não é futil, como parece, futil...
porquanto é da compota de pecego, da compota... que sáe a grande scena
do terceiro acto, a grande scena... aliás magistral, sem favor,
magistral! Linguagem vernacula, linguagem Herculano... lá isso sim,
meu velho, isso sim... Falta talvez o fundo historico, eh! eh! fundo
historico... vacillações na côr local, hein? côr local... Mas és novo,
coisas d'estas só veem na minha edade... na minha edade. E aqui para
nós, hein? para nós. Vão sendo horas de manducar uma bucha,
manducar.

Rogério ardia por ouvir Borbas, e sobre todos o desenterrado, Lindôso
de nome, critico d'altos processos, por muitos calumniado de precoce e
viridente genio das raças modernas, o manitanço! Mas sentiu-se um
_froufrou_ de sedas no escadim doirado do _foyer_, e uma voz argentina
e alta em que dominava o grave, disse duas vezes ou tres,
risonhamente:

--Boas noites, boas noites!

Era a Velledo. E atraz d'ella pelo braço d'actores, maridos ou coisa
parecida, outras actrizes se mostraram, a Laura, a Elisa, a Maria
Freitas... Os trens esperavam á porta do theatro. Falando ao mesmo
tempo, n'uma alegria de boa gente que alarga o coração, essa sociedade
foi abandonando o _foyer_. Havia de todos os generos, modestos,
espirituosos, eruditos, familiares, calemburistas, os de má lingua, os
de má fama, e trambolhos lyricos, gente infeliz ao jogo e fanada de
orgia. Aprumado e grandioso, ia Pirralho no meio dos seus discipulos,
citando descobertas e ramos de sciencia que mais peso causavam no seu
caco de homem celebre, pelo arrevezado das designações,
forçando os contrastes, e querendo achar a nota original das coisas
por um burlesco d'encomenda. No alarde d'erudição e individualidade
que o preocupava, as citações saltavam-lhe aos magotes, desordenadas,
occasionaes, n'um fogo d'artificio a duas côres. Ás vezes calava-se
interdicto, circunvagando as lunetas, na desconfiança de haver sido
vulgar como a outra gente. Mas rodeavam-n'o para algum paradoxo
applaudido, farejavam-n'o os discipulos por todos os lados, inquietos,
com a gargalhada prestes, tendo nos olhos piscos o deslumbramento das
gravatas do grande homem, os seus sapatorros inglezes, e o largo gesto
que parecia ceifar de roda as mediocridades que de longe vinham
recolher palavras da sua bocca de semi-deus.

De seu lado, o desenterrado Lindôso abotoava modestamente o casaco de
botões recomidos e cotovellos surrados, não tendo ainda _coterie_; e
humilde, olho aceso, faulhava d'inveja sobre os que iam de braço com
femeas, sentindo as primeiras seccuras do amor vicioso. Então foi um
movimento alegre de partida, um borborinho de risos e vozes que já não
procuravam entender-se. As senhoras carregavam sobre a fronte os
capuzes das _sorties-de-bal_, rendas de froco, ou simples tules
picados de abelhas de oiro; e pela escada, apanhando os vestidos n'um
desleixo provocante, mostravam meias de seda bordadas de lado, e esses
primeiros lineamentos da perna, que lembram contornos de jarra
etrusca, pela expansão esvasada e alta das curvas. Laura, uma loira
redondinha que findava o primeiro amante, borboleteava pelo braço do
festejado Peres, cujos sessenta mantinham pretensões ainda de
galanteria e elegancia. E a cada passo ella deitava-lhe a cabecinha no
hombro, mostrando os dentes miudos. Maria Freitas era uma grande
morena, esqueletica e muda, a quem davam papeis de velha, para que
sempre tivera vocação. Não tinha amor permanente, e como quartos
d'estalagem, alugava a quem vinha, o seu coração hospitaleiro. Entanto
as collegas toleravam-na, porque apesar de tudo era util, e pelo
contraste fazia as outras virtuosas. Declinando nos quarenta e cinco,
os olhos de Elisa começavam a turbar-se, cercados de pequeninas rugas
nas palpebras, como os dos papagaios moribundos: e apenas lá longe,
nos dias de crise frenetica, se incendiam ante collegiaes frescos,
d'ar timido e riso doce. Era uma gorda pintada de branco, cheia de
signaes, grande talento de comedia, e tendo pelas mulheres o desprezo
d'um homem. E o cortejo ordenava-se, desfilando direito á rua. Rogério
deixára-se ficar, na esperança de dar o braço á Velledo, que tambem
aguardava o quer que fosse. E quando ia offerecer-se, viu-a voltar-se
contra o brasileiro, pôr-lhe no hombro a mãosinha calçada em luva de
canhão molle, a dizer-lhe com a bella voz de scena:

--O meu amigo será bastante bom para me deixar o seu braço?

Ficou attonito a semelhante desfeita! Quanto por ella tinha feito era
sem preço--a ceia, o drama, as _toilettes_ d'apparato... E enxotado!
Mas jurou alli mesmo uma desforra estrondosa. Quando chegou á rua, já
toda a sociedade se estava armazenando nos trens. Elisa abandonára os
velhotes que a tinham comboiado escada abaixo, para n'uma velha tipoia
se enroscar entre os seus ricos frangãos da geração moderna, aos
empurrões em pae Tiburcio, e mandando á fava a historia brejeira que
elle insistia em contar-lhe. Maria Freitas installou-se nos joelhos de
Moreira, n'um pequeno _coupé_ d'aluguer, á direita do festejado
Peres, e á esquerda d'um revolucionario côr de melão, que
insubordinava Alcantara com discursos socialistas. No meio da rua,
mordendo o bigode com melancholias de birrento, Rogério procurava
companhia de mulher, olhando quem se ajoujava nos trens. Viu Borbas
estender os braços de dentro d'um carro, e puxar Laura, a quem genial
Pirralho, dizendo-se Hamlet, chamava a sua pallida Ophelia. De duas
carruagens ou tres, vozes chamavam brejeiramente a rapariga; e como
doida, ella ria de cabeça para traz entre os desavergonhados,
debatendo-se na furia dos abraços. Hirto como um lacaio, o brasileiro
escancarava a portinhola d'um bello carro de noite, servido por
cavallos claros, e moços de taboa aguardando de pé que ella entrasse.
A eminente actriz circunvagava a vista em procura d'alguem. Como
Rogério se tinha approximado um pouco, á semelhança d'estes cães
batidos que veem de rastos para o dono, ella, n'um rir cascalhado,
disse-lhe assim:

--Ouvi que não tinha gostado do meu desempenho no segundo acto. Um
homem difficil, o senhor. O monologo então, detestavel! Mas
podia ter-m'o ensaiado, com o seu ponto de vista.

--Mas, atalhou o pobre auctor balbuciante, eu não disse...

--Se a peça tem musica, foi ella dizendo com volubilidade, quem fazia
uma creação unica, por certo, era a prodigiosa Alcina. Sua prima! E a
proposito. Que faz _isso_ agora?

--É cruel o que está a dizer.

--Justiça ao merito e mais nada. Assim, prejudiquei-lhe o debute...
Que infeliz eu tenho sido com os genios d'incubação demorada! Talvez
inda arranje um remorsosinho por tanta incapacidade.

--Lá se lhe é agradavel fazer-me soffrer...

--Diga á Laura que tem logar aqui. Ella só--e como elle aventurava
desculpas n'um tom de collegial submisso:--mau! perdemos tempo.

Rogério foi chamar a ingenua, que parou logo de rir, e sem dar boas
noites aos que pensavam detel-a, veio lesta anichar-se no carro da
Velledo; e foi em surdina uma altercação entre as duas. O brasileiro
atirou a portinhola, e rodaram sem fazer caso de Rogério. Quando um
pobresinho gemeu ao pé do dramaturgo:

--E eu?--Era o pensador Horacio tiritando sob a nisa rapada,
com olhos de fome e gestos vasios de mãos.

--Que é? perdeu o capote? disse Rogério distrahidamente.

--Não acho logar, meu bom amigo.

--Pois enfie por ahi, grande massador.

--Ponhamos a questão nos devidos termos, ia começando o desgraçado.
Enfiar seria...--mas Rogério agarrou-o pelos fundilhos, ergueu-o do
chão vigorosamente, e arrumou com elle para a almofada d'um cocheiro.

--Nós cá, pronunciou Lindôso dando o braço ao dramaturgo, iremos a pé,
ha tempo de sobra. E venha de lá um charuto ao seu amigo, venham de lá
dois!

       *       *       *       *       *

--Não me dirás, começou elle, porque razão pouzam com tamanha filaucia
estas sirigaitas d'actrizitas, que segundo parece, fazem a honra de
ter por mim o mais tocante desprezo? Que diabo! Antinoüs não era
positivamente meu pae. Mas sinto-me bastante feio para ser sympathico
a uma mulher; e a lingua em que solicito d'ellas algum favor
pequenino, pequenino, é um portuguez todo metaphoras côr de
ceu, e com o agridoce das ginjas garrafaes. Já digo, é-me odiosa a
meia mascara. Mulher completamente honesta, ou então mulher
completamente perdida. Nada de meios termos! Contempla agora tu o
monstrosinho defecante que se chama a femea dos nossos palcos, especie
de tatu dessorado e desgeitoso, que nem arte põe no prazer, nem teve a
coragem de se conservar intacta de culpa. Borbas garante, que nunca
alguem primiu polpa de actriz luzitana, donde não sahisse logo
algodão, palha de centeio ou cautchu. Olha que ha-de ser do clima.--E
depois de um silencio--Dize cá. De que ceu artistico choveu esta
Velledo, a quem dizem tanta coisa em superlativo? Mas tem o ar d'uma
maritornes, essa dona, meu filho! Hombros, talvez, não discuto... Mas
como artista, é uma tragica de feira. Mulher boa para sophá d'um
pernambucano. E concedamos-lhe que encha Alpalhão d'assombro. Mas
d'ahi ao talento, que insondavel abysmo vae!...

--Eis o que eu digo tambem, notou Rogério, picado.

--Pois meu filho, o asteroide dispõe do mais quantioso orgulho, que
tenho visto fazer teia em cabeça oca de mulher. O modo de
receber então. Lembra a rainha Dobrada, esposa de S. M. Termo tinto,
dando beijamão aos aguadeiros. Eu vivo retirado, e não tinha ainda
podido escutar tamanho obelisco dramatico. A tua peça arrastou-me, não
admira, arrastou-me. Pois querido, agradece-lhe, estragou-te a obra,
comprometteu-te, achatou-te. Cuidas que és ainda o Vasques? Mas não!
Estás feito n'um pataco macanjo.

E como o outro ria, o desenterrado proseguiu:

--O segundo acto então, fez-t'o ella em frangalhos. Que falta
d'intenção, que _gaucherie_ de piso scenico, que berros e que
tregeitos de maritornes! Castello Picão e Rua das Trinas _jouant la
duchesse_. E todavia ha n'esse acto um monologo, artificial como
reconstituição historica, porém habilmente instrumentado como
crescendo d'estylo.

--Ah, reparaste? disse o outro animando-se. Estragou-m'o ella. Imagina
que acaba de me passar uma sarabanda em fórma, só de me vêr frio no
fim do segundo acto. Sabe que me faz doido de desejos, abusa d'esta
fraqueza, e dia por dia, hora por hora, me tortura. Se lhe
vou dizer qualquer coisa, é capaz de não representar mais a peça.

--Eu a arranjo, deixa tu estar.

--Diabo! não lhe vás para ahi dizer...

--Homem, não ponhas a tua cubiça pela femea acima do teu amor pela
arte. Ou se é artista ao sacrificio, ou se muda de rumo. Zurzamos esta
corja, que ha tudo a ganhar com a campanha. Porque emfim! Dirigimos
nós ou não dirigimos a opinião? Sendo assim, não te parece crime sem
fiança estarmos tolerando a desmoralisação que ahi se vê por todos os
ramos litterarios? Mas onde vai isto parar? A nossa lingua acanalhada
d'estrangeirismos parvos e inuteis. O bello ideal de Garret, colhido
no elemento tradiccional, posto de banda. Um tropel de cavalgaduras
colligadas pelo rèclamo, tolhendo o passo aos talentos validos.
Litteratura ingloria, atravessadiça e somnambula. Litteratura filha de
paes incognitos. Peste! insistia, cuspindo, o desenterrado--e
animando-se:

--O quadro é flagrante, e não necessita de Taines nem Paulos Bourgets
para o tracejar. Basta vêr o que se passa. Por toda a parte jovens
espinafres nos declaram em sonetos e odes, como acabam de dissecar as
amantes, e deitar por terra as religiões e as sociedades. Na
mascarada dos poetas originaes (supponhamos) vão uns com dominó de
Byron, outros de Musset, Baudelaire, Heine ou Coppée. Sahem do
collegio já desesperados, blasphemantes, com o _fatal amor_, as
ambições e os cynismos dos caracteres opprimidos pelas ferocidades da
vida social, que á nascença lhes houvesse esmigalhado os rompantes.
Alguns deitam-se a interrogar a historia, philosophias, podridões de
sepulchros...

Pensadores que não pensam nada: archeologos capazes de reconhecer
etruscos nos cacos que os barris do lixo patenteiam á porta das
escadas--e apenas um ou outro nome clareia na bancada onde esphacelam
uns de cachexia, e idiotisam outros na adoração da propria _chateza_.
Necessario pôr em armas um forte cordão de tropas, que preserve d'um
tal contagio o resto da gente limpa. Por mim, insurjo-me ámanhã: os
valentes que me sigam! O theatro sobretudo, ergamol-o da bestificação
em que jaz. Se não ha quem produza bom, resuscitemos os velhos, como
em França. A _Comédie_ dá Molière, Racine e Corneille duas vezes por
semana. O mesmo nas _matinées_ do Odéon. Não prestam os artistas? É
derribal-os, reconstruil-os, ou educar artistas novos. Forçados a
dezenas de papeis differentes no espaço d'uma _season_, os actores não
profundam papel nenhum. Os nossos escriptores de theatro, por outro
lado, entretidos a esquissar palhaçadas sem graça nem coherencia,
estão inaptos para traçar um typo de fortes linhas e energia
contornadora, que o comediante revista e agite co'a sua personalidade.
E chegamos a isto--Borbas empunhando o sceptro da critica dramatica, e
o borrachão do Peres arvorado em, galvanisador da historia no palco
portuguez. A culpa teem-na vossês--distinguindo actores que nem sabem
virgular o papel, formando _traine_ nos camarins das estrellas faceis,
indo de rastos para os comicos lhe representarem as peças: tolerando
n'uma palavra, o jugo dos idiotas coifados de pontifices. Inda mais. O
espirito das plateias está grosseiro: pouca vibratilidade, nenhum
prazer ante as finuras do dialogo, emoção n'uma só corda... D'onde
resulta que a _ficelle_ mais decrépita, um berro d'imprecação, um
esgare terrifico no fascias, qualquer mutação vocal ou passo enfatico
contra o tyranno, alarmam a turba e tocam a rebate no sino grande da
ovação. Tudo que fôr delicado, nervoso, reconditamento ironico,
escapa a essa frandulagem _d'arrière-boutique_. Eis o resultado de
trinta ou quarenta annos d'arte roubada aos dramalhões da
_Porte-Saint-Martin_, mal traduzida, mal representada, mal criticada;
elaboração sezonatica d'escrevinhadores que não souberam comprehender
a obra inicial de Garrett, e continual-a, muito menos. Em França, o
theatro romantico, brilhante e fecundo, inda agora impera, e está
truncando a via ao naturalismo no palco, attenta a persistencia do
gôsto publico pelas violencias dramaticas, pelo talho geometrico dos
actos, e essa rara habilidade no _savoir faire_ que caracterisou
sempre a escóla, desde Casimiro Delavigne a Feuillet e Dumas pae. Não
dá a impressão d'um trabalho de genio, esse theatro, mas é cheio
d'arte e vigor, e comprehende-se a febre que o incende, e lateja-se na
incoherencia e na furia que o convulsionam. Sardou e Dumas filho
representam a transição, inda dubia e pallida, para o naturalismo
continuador de Molière e Ben Johnson, d'onde brotará talvez o jacto
arterial que avivente a scena, decadente em nossos dias.

--Mas os novos... tornou Rogério afagando na mente o drama que fizera.

--Entre nós levaria a palma quem soubesse continuar Garrett.
Somos um povo sem drama intimo no presente, um povo cuja vida não tem
caracteristicos, e onde os temperamentos fallecem d'originalidade.
Quadro de natureza morta. Por conseguinte, o nosso theatro terá de
viver do passado. E que passado! Artista que o assimile e insculpa
sobre a scena, precisa ser ao mesmo tempo colosso e homem de genio,
pois tem de crear figuras mais altas que a flexa de Strasburgo. Queres
a verdade? Palpei hombros de titan no teu talento, esta noite. Só tu
poderás resuscitar o nosso palco.

Rogério tinha-lhe logo cahido nos braços, lacrimoso, dizendo coisas
commovidas.

--Mas que trabalho de cem sabios e vinte artistas, se quizeres levar a
cabo essa incontestavel vocação! Terás de estudar a historia pedra a
pedra, ruina a ruina, figura a figura, pergaminho a pergaminho;
critical-a, sentir-lhe o lado artistico á luz d'uma philosophia
profunda; insuflar-lhe a alma, calor, pulsação; e ir pelas ruas
depois, em busca de comediantes, a arrancal-os d'onde elles estiverem,
pelas officinas, pelas prisões, cavando batatas na courella d'um
padre, ou vendendo agulhas com o pregão d'um belfurinheiro.
E educal-os por tua conta, á tua vontade, sob o teu ponto de vista e o
cyclone da tua inspiração. Para que ao vermos em scena as tuas
figuras, rei, conspirador, frade, princeza e pagem, não tenhamos de
berrar--bem vos conheço, heroes de tal seculo! Esse ahi é o Miranda,
que tem varizes nas pernas e bebe aguardente na tasca do _Ferra
Moscas_; essa altiva rainha esmagando o cofre de perolas d'el-rei de
Castella, é nada menos que a Joaquina, que leva pancadas do amigo, e
ata as meias com uma guita, a meio da barriga das pernas. Passa fóra,
ó reinadios! Mas sem lisonja, sem a menor lisonja, a tua peça respira
enormissimo ta... pois esqueci-me de pagar os juros na _Exactidão_
esta tarde, disse o desenterrado subitamente, quando iam a voltar para
o Alecrim. Leilão amanhã.

Perco tudo, nao tem que vêr.--Era a roupa branca da mulher, o seu
vestidito de sahir, coitada!... e chailes, um prussiano acabado de
fazer... Tudo para pagar remedios de botica. Terrivel coisa a miseria!
Dias de jantarem café. Se emprestasses quatro libras até amanhã...

A assaltada fôra um tanto brusca, pois Rogério parecia lento em
esportular a quantia implorada. Então começou o desenterrado
uma cantilena gosmada entre o cuspilhar do charuto, que ora se perdia,
em divagações lyricas, ora habilmente voltava a frizar certos detalhes
de intuito prático. E disse as duras precisões do seu lar, essas
grandes batalhas tenebrosas da miseria que não pede esmola, e os
frenéticos sacrificios do talento amordaçado pelas conspirações do
silencio. Rogério inda duas vezes fez--homem, é que... homem, é
que...--mas engasgava-se, achou-se somitego, considerar-se-hia odioso
se recusasse aquella miseria a um amigo; e ao fim de dez minutos tirou
a bolsa.

--Quatro é que tu dizes, não?

--Ou cinco... ou seis... ou sete... ia dizendo Lindôso, e Rogério
deixava cahir cada moeda por sua vez--talento, muito talento expendido
a mãos plenas pela tua peça. Lá isso! Selvageria, furias
shakesperianas, sim! A vertigem da execução prejudica sempre a lucidez
do problema. Cinco... seis... É o sonho tenebroso e dantesco, com
sobresaltos e recahidas, que sacode pelos hombros os personagens do
Hugo. Um positivista, juntava elle n'um riso pallido de caloteiro,
deve proceder com mais sangue frio. Sete... obrigado, salvaste-me.

--Vê se queres mais, menino...

--Não. Outra vez. De todo me tinha esquecido pagar esta
insignificancia. Deita mais esses meudos. Os pequenos precisados de
botas... Diz que querem vêr a tua peça. Oh a infancia! E fechou a mão
que estendera ao dinheiro.

--Verás o meu artigo. Comparo-te aos mestres, não has-de ter razão de
queixa. E subiu á casa de prego, que era na sobreloja, á esquina, com
a sua lanterna de tres gumes, dizendo: _Exactidão, penhores, juro
modico_, emquanto Rogério esperava mordicando o charuto.

       *       *       *       *       *

Dias e mezes correram, sem que realmente as relações de Rogério com a
artista adeantassem muito. O pobre auctor sentia-se exhausto de
ceremonial, perdia tempo em declarações, não largava o camarim com
presentes de flôres e versos da melhor fabrica; mas fitando a grande
Velledo nas pupillas, não via n'ellas fuzilar essa scentelha brusca
com que a mulher reclama a intimidade de um homem. E dia a dia, como
ella lhe escorregava dos braços, como uma cobra, cada vez mais
astuciosa, o desejo d'elle parecia congestionar-se d'infrenes
ardores, a cada repulsa soffrida. Ia sendo tempo de se pôr á vontade
com ella, de se conhecerem de perto--Rogério tinha pouco geito para
lunatico. O amor platonico era irrisorio á sua alma de provincia,
positiva em negocios, e acostumada a satisfazer de prompto os apetites
que lhe vinham. Por mais porém que fizesse, para aos frequentadores do
camarim parecer na intimidade da artista, não ouvia rosnar em volta,
da supposta ligação. Ella via-o chegar como aos outros, apertava-lhe a
mão com um pequeno riso, fazendo telintar os braceletes.

--Bem, meu caro?

E continuava a palestra interrompida. Depois a correcção exigida ao
penetrar n'aquelle camarim. Vinha-se de cabeça descoberta, cortejal-a
com grandes reverencias. Os homens não fumavam. Uma palavra familiar,
uma graça mais núa, transmutavam na côr as iris da divindade. E
nenhuma familiaridade antes de se ter sido apresentado com as formulas
mais puras do estylo. Porque era de saber que se tratava com uma
mulher superior, a primeira actriz portugueza, astro, deuza, musa do
drama, Rachel, Sarah, M.lle Mars, e as mais chapas consagradas n'este
genero d'apotheoses. Depois, mulher do mundo, espirito de duqueza á
Balzac, leituras finas, e seriedade de porte, dizia-se, não vulgar
entre lonas pintadas. Era d'estas mulheres de scena afinal,
corrompidas d'espirito e gastas de sensibilidade, pelo habito de
fingir, representar ao vivo, e pintar tudo, labios, cabellos,
sentimentos. O abuso de cosmeticos, estragando-lhe a epiderme da face,
prohibira-lhe as transparencias do rubor, que na mulher mesmo velha,
são a juventude eterna da alma--ao tempo que os papeis violentos,
embotando a sua vibratilidade, lhe não deixavam já sentir as coisas
originalmente e por si proprias, como se cada sensação sendo um
dedilhar de corda eolea, ficasse impossivel, estando esta corda
partida. Como todo o artista fatigado, a Velledo só obedecia agora aos
moveis extremos, o interesse, o orgulho, um vicio, um desejo, sentindo
desprezos pelo mais. Tudo era n'ella preparado scientificamente,
ensaiado, solemne, feito de cór--um papel, um sorriso, uma
generosidade, um cumprimento. Aos trinta annos percorrera já tudo na
vida, os cimos e baixos fundos torvos, onde as podridões são
pictorescas; bambochas de fabrica; mancebias d'acaso, em aguas
furtadas, com estudantes e carpinteiros; fomes de palmo, pantomimas de
feira, noites sem leito... todas as escoriações do vicio caloteado e
baixo. Teve um filho aos quinze, de que já não sabia aos dezoito. E
pancadas, figurou no livro das prisões, foi bailarina e creada de
hospedaria. Agarrada para povo n'um dramalhão de apparato, uma noite
em que vagueava á busca de homem, entrára a crescer. O ponto levou-a
para casa, o ensaiador achou-lhe geito; dois ou tres noticiaristas
entraram com referencias á _novel artista_. E engrossou, encheu de
hombros, fez-se mulher; e este viver a fôra curtindo, ficando-lhe o
frio olhar calculista, que farto de se vêr explorado e cuspido, tudo
agora revertia em proveito proprio. A sua belleza, embryonaria aos
quinze, eflloresceu após o primeiro filho em exhuberancias mimosas e
brancas, e delicados tons de face. Aos trinta annos, levando uma
existencia tranquilla, boa meza, dois cavallos, o palacete da Graça, e
brasileiro para _argent de poche_, Velledo era uma mulher alta,
branca, sólida, admiravelmente moldada. Isto dava aos seus grandes
gestos de drama, pomposos á força de convencionaes, uma soberania e
relevo que eram o furor do corpo commercial, brasileiros de volta,
provincias e ilhas, todo o paiz inda rançado em banhas lyricas e
sentimentaes tradicções. Nenhuma d'esse tempo possuia olhos, hombros e
braços como a Velledo. Gentes decahidas por edade ou excessos, iam
ouvil-a de rainha, princeza d'isto ou d'aquillo, Fernanda, Magdalena
de Vilhena ou Morgadinha, a galvanisarem-se e readquirir tom, pela
excitação ou deslumbramento da sua voz dizendo tiradas pomposas, ou
d'essa extraordinaria carne extravasando em maravilhas plasticas.
N'uma cidade como a nossa, onde as mulheres filiformes e glaucas
lembram bichos de seda na muda, aquella magnifica e authentica mulher
fazia imperio e dava cubiça, mesmo assim fria de mascara, e parecendo
viver fóra de scena a eterna insomnia das estatuas. Não era muito
talento, mas os gestos salvavam-n'a, depois de se haverem salvo pelos
braços. Os amantes tinham-n'a feito distincta, linha de princeza, uma
graça real a receber os que promettiam, nenhum, titubiamento em
_tête-à-tête_, e esse vestuario esmanchado, cheio d'exquisitice, um
pouco doido e pictoresco, que as aborrecidas inventam para se
distrahir.

Succedia andar ás aranhas n'uma peça, não tendo percebido
palavra do papel, gaguejando se o lance queria vehemencia, rindo se
exigia dolorosa gravidade, avançando em vez de recuar, partindo as
tiradas, surripiando phrases ás outras personagens, e compromettendo
os collegas, na espectativa de fazer quebrar a empreza.

Apesar do fanatismo pela diva, o publico esfriava, torcia-se na
plateia com bocejos somnolentos, errando a vista pelos camarotes, com
tossinhas de gato, errantes, communicativas, e esse leve rojar de pés,
que perturba de morte os actores, e tem feito o _de-profundis_ de
muito drama e comedia. Contra inanição semelhante, era conhecido no
palco o efficaz revulsivo. Dos bastidores, o emprezario mandava á dona
Eulalia trouxesse o corpete depressa. A costureira vinha a correr com
elle, emquanto o emprezario, baixinho, para dentro de scena:--_sss_...
giralda!--Signal para a Velledo desertar de scena, mesmo cortando a
situação, e fazendo falhar o pathetico do lance. E mesmo alli a grande
artista mudava de trajo, envergando o famoso corpete azul, uma nudez
como qualquer outra. Reduzia-se n'um cinto applicado a Bruxellas
finas, e servindo nas occasiões desesperadas, desde que
estava eminente o fiasco. Applicava-se no publico como um sedenho ou
um caustico, no intuito de suppurar ovações. Apertada n'elle, a grande
Velledo ficava pouco menos de núa, contando bem da cinta para cima.
Corpete de fatal origem e luctuosa historia! Tinha-o inventado o
octogenario marquez das Berlengas, um galante da _sociedade do
delirio_, que pelos modos se enfeitava, quando certa madrugada nos
braços d'ella se sentiu esfriar como burro morto. E indo a
vestir-lh'o, mais animado e banzeiro, cahiu com o aneurisma rôto, em
fralda de camisa, como estava, o _desdichado_!

Esse collete, justo atraz por um cordão de seda lasso e cruzado,
recordava uma _corbeille_ d'onde espumasse a radiosa floração da sua
carne, musical e superabundante--e seios turgentes gottejando rubis
das mamellas; braços torneados, á Clodion, desde o punho até aos
hombros; garganta e espaduas resplendendo essa polida brancura que o
frio marmore nunca dá, e vem talvez da circulação juvenil e do azul
aponevrotico, coados por uma epiderme vibratil e sã.

E apenas ella entrava assim eloquente e vil, um rumor corria por toda
a banda, e em ondas, sentia-se ir aquecendo a sala. Já das varandas
vinham estalos de lingua, e a velhada ia esfregando uns contra os
outros, febrilmente, os seus joelhos carcomidos. Gradual, a tempestade
de bravos ia-se encapellando, agglomerando, contundindo. Havia no
ambiente podre revoadas de _sss_... E a excitação, como uma cheia,
afogava tudo, derrancando pela raiz os impulsos da bestialidade
humana, e pondo á mostra a torpeza physica dos mais graves
funccionários. Era então que se viam velhitos da mais austera
prudencia, curvando em gestos macabros sobre os vizinhos--juizes,
antigos ministros, conspicuos directores de banco, e chefes de
secretaria--furiosos d'amor canino, e dando a sua opinião d'olho
esgazeado. Ella, na scena, parecia uma bella estatua reanimada, tão
nobres as linhas da sua anatomia esplendente. E quasi núa, corria-lhe
na carne um arfar d'emoção radiosa. O pescoço era maravilhoso de
finura; ria-lhe uma sensualidade no modelado do queixo; emquanto a
narina n'um frémito, dir-se-hia seguir o rolar d'olhos reaes que ella
pela sala deitava. Erguia o braço n'um movimento afadigado; e viam-se
cabellitos na axilla, muito pretos. O arco das duas sobrancelhas,
quebrado em accento circumflexo, exprimia maravilhosamente o desdem. E
suspensa, a sala aguardava que ella fallasse.

--_Senhor! Ousa insultar uma mulher que se não defende? Perigoso me
tinham dito que era; cobarde nunca!..._--e ao meio da scena, n'uma
colera de deuza, a cauda em serpente, um dos seios espreitando a
tourada de focinho sobre a orla do corpete, bramia a terrivel
sacerdotisa:

--_Saia!_

Sublime! Sublime! era a palavra de toda a gente.

       *       *       *       *       *

Precisamente n'este remoinho de celebridade e de gloria, depois da
grande scena do terceiro acto, uma noite, Rogério declarou-se a
Velledo, n'um portuguez que a actriz não usava escutar lá muitas
vezes. Fôra n'um escaninho do palco, durante a mutação de scenario.

--Palavra, adora-me, o senhor? disse-lhe ella escarnecendo.--Elle
compunha uma attitude fatal, como se quizesse magnetisal-a de paixão.
E despiam-n'a, os seus olhos faiscantes de vicio.

--Dizer-m'o não basta, tornou a eminente actriz. É necessario
que m'o prove.

--Mas como? disse elle surdamente.

--Isso não é commigo.

E depois d'uma pausa:

--Ha talvez um meio de principiar. Porque não começa a ter talento?

Rogério não respondeu, mas os seus olhos, como brasas, na pelle branca
do colo d'ella, redondo e nú, chamuscavam-n'a, mordiam-n'a,
apalpavam-n'a, servindo-a como um goso arrancado á força. E n'um
desvairamento, agarrou-a pelos dois braços sifflando, engasgado de
furia.

--Cala-te estupor, cala-te diabo!--Era n'uma sombra de panno de fundo,
que vinham, de correr. E a Velledo debatia-se, aterrada do escandalo,
cahida do respeito usual por semelhante violencia. Rogério tinha-a
cingido pela cintura, e apertado contra o peito, nas agonias d'um
toiro; e aos beijos por toda ella, na bocca, na garganta, nas
espaduas, sobre o peito, percorria, babava-a, delirante, horrivel de
desejo, deixando-lhe vermelhidões por toda a parte, signaes de dedos
crispados, babugens de raiva lubrica, que no pó d'arroz deixavam
listrões nojentos de vêr. Enxovalhada da brutalidade, a
Velledo chorava, gaguejando:

--Infame! Infame!

Despenteara-se na lucta, tinha-se aberto o colar, um dos colibris da
túnica cahira, violentamente roçado. Rogério ficára a resfolegar n'um
canto. Mas ouviu-se o contra-regra chamar para a scena do jardim; e
com a voz musical de quando estava elegre, a Velledo desatou a rir
alto entre os bastidores. E mal o galã disse--_é ella, conheço-a, o
coração m'o diz!_--entrou em scena radiante e magnifica, monologando
para si:

--_Elle prometteu-me que viria. O seu amor é leal. Virá de certo_--e
n'uma expansão d'amor:--_adoro-o, sim, adoro-o!..._

--Has de cá cahir, cegonha! fez Rogério esfregando as mãos. E ao outro
dia foi-lhe pagando as contas da modista. Mas já entravam a rosnar. Os
ganymedes de palco, gentinha disposta a explorar, intrigar, levar e
trazer segredinhos, bilhetinhos, cobriam Rogério de perguntas sobre a
tristeza em que o viam, com subtis allusões á actriz. Nos camarins não
se fallava n'outra coisa. Sabia-se que elle hypothecára as ultimas
propriedades, perdia ao jogo, e mandava á Velledo todos os
dias, uma grande _corbeille_ de camelias e rosas confeccionada no
Neves. De quando em quando, presentes de galantarias antigas que ella
colleccionava com paixão, _bibelots_ de Sèvres, pratos e _netskés_ do
Japão, aguarellas, bronzes e moveis delicados, pequenas peças
vasculhadas nos adelos e casas de penhores, com paciencia de santo,
regateadas durante horas, e muitas vezes adquiridas por preços
escandalosos. Como amador de _bric-à-brac_, Rogério era uma besta,
chegando a pagar por libras monos de loja de chá, fallidos de todo o
merito. Velledo encolhia então desdenhosamente os hombros, mirando a
bugiganga. E com irónica piedade:

--Decididamente tem o gosto caraíba. Vê-se logo que é da provincia.
Foi do leite. Obrigado. Ou era uma fayança repetida, qualquer peça que
ella pedia para lhe comprar, e Rogério já não encontrava no bazar
indicado. A actriz impacientava-se então, fazia momo com o seu
beicinho vermelho, batia o pé vendo-o chegar de mãos vasias.

--Se elle é um desastrado! Fosse quando eu lhe disse.

E predilecções de momento, ambições por quanto via nos armazens, e
logo tédios pelo que ia adquirindo. Em dias de nervos quebrava,
mordia e rasgava tudo para se vingar, na epilepsia dos que tendo feito
das impressões violentas um habito abusivo, desesperam por fim, se
acaso em vão apoz ellas correm. Tão raras as horas de bom humor, que
Rogério, se alguma surprehendia, dir-se-hia gosal-a como recompensa
disputada. Esse homem altivo cahia aos pés da sua gata sabia, em
pieguices de collegial, deixando-se explorar por prazer. E sobre a
posse tão ardentemente implorada, nem rastro d'esperança! Se ia
beijal-a com mais furia, se a queria enlaçar pela cinta, ou a
respiração cortada n'elle trahia alguma ideia occulta de deleite, ella
logo de pé, faiscante e sarcastica, para o repellir com desprezo.

--Olhe que me não esqueci d'aquella canalhice do theatro, hein?--ou
fazendo saltar o _lorgnon_ Regencia:

--Ora filhinho! Deixa-te d'asneiras. Isto é do brasileiro.

Mezes passavam assim. Se por um lado Rogério não adeantava com a
actriz, recebia por outro, do brasileiro, provas de deferencia e
familiaridades em cada dia mais profusas. Tinham começado as relações
por uma polidez reservada, que parecia occultar as mais cathegoricas
antipathias. Dopois, aquella crosta d'indifferença estalára
aqui e além, n'um cavaco mais vivo, n'um accordo ou outro d'acaso.
Rogério sondava os gostos do brasileiro, lisongeava-lhe os ridiculos,
punha-se ao lado das suas opiniões, aturava-lhe as estopadas, ou
conseguia rir das graçolas d'elle. Era um pobre homem, limitado e
benevolo esse brasileiro, que todo entretido a enriquecer-se, na
mocidade, mal tivera tempo para gostar d'uma mulher--e assim
conseguira embarcar na velhice, conservando intactas, pudicas quasi,
as intimas juventudes do seu coração, uma singeleza timida e crédula,
uma especie de convicção da sua inferioridade, como animal, em face
daquella grande rainha da scena, e pequenas attenções balbuciantes
para os caprichos d'ella, torturas soffridas sem revolta, e
humilhações inda por cima agradecidas, n'uma effervescencia de
lagrimas.

Esse mudo velho de olhar ardente e mãos de cavador, de continuo
enluvadas, alto, negro, com uma barba branca de negreiro, e uma
gravata de coleira á volta dos collarinhos molles, esse mudo velho,
parecia marchar somnambulo na sua idéa fixa, dolorosamente algemado á
sua paixão como a um cepo de patibulo, para toda a gente
affavel, dizendo _muito obrigado_ á creadagem, orgulhoso de ter em
casa da Velledo o ar d'um intendente, desolando-se em suspiros que a
edade já fazia grotescos, desdenhado, repellido, porém fincando sempre
nas derrotas de cada dia, a coragem para insistir nos dias seguintes.
Emquanto o pobre suspeitou que as denguices de Rogério viessem a ter
resultado, foi sempre mantendo á vista d'elle, uma reserva polida,
quasi fria. Os cumprimentos que trocavam, traziam, mesmo de longe, um
asco a desconfiança. Os risos d'elles, ao toparem-se, no serão da
tragica, eram um espremer de beiços seccos, com distillo d'amargura.
Mas breve o nababo concluiu que não viria de Rogério o vento mau de
desgraça, que lhe varresse a Velledo, como uma _nau dos quintos_, do
mar banzeiro em que elle a trazia balanceada e repreza. Uma magua
identica, parece, lentamente os conduzira a uma sorte de camaradagem.
E vieram jantares, pequenos conselhos ditos na meia intimidade d'um
segredo, favorsinhos que se calculam e estão prestes ao primeiro
signal. Por fim deram o braço, trocaram brindes, começaram a
sympathisar; e havia quatro mezes que o brasileiro já não
passava sem Rogério, e Rogério se afizera a procurar todas as tardes o
brasileiro. Velledo espiava aquelles manejos, deixava-os consolarem-se
um no outro, e ia-os explorando systhematicamente. Era o tempo em que
a fortuna de Rogério via o começo do fim, e Lisboa lhe ia notando as
primeiras joelheiras, as luvas safadas e as golas russas. E os beiços
d'elle enlivideciam, uma magreza patibular fazia-lhe duro o perfil; e
enfastiado, mãos febris, não dava palava a ninguem. Em volta ao caso
ria toda a gente. Apenas o grupo sério de Pirralho, philosopho
Horacio, festejado Peres, e a ninhada de fedelhos positivo-publicistas,
lia n'essa fronte sulcada, n'esse olhar fixo e interior, a gestação
laboriosa d'algum grande livro. Actores, já o tratavam de resto, não o
sentindo como outr'ora, generoso d'emprestimos, e tão prodigo
d'alegres ceias no _Gibraltar_. A primeira vez que appareceu sem
relogio, fumando cigarros de mendigo, quasi todos, achando-o pulha,
lhe voltaram as costas.

Por esse tempo revelava-se Alcina, que passára da opera-buffa ao
theatro de declamação, prima de Rogério e sua primeira amante. Fôra na
Suzanna do _Demi-Monde_, papel de prova, cheio de movimento
e finura, em que por confronto a Velledo tinha dado um estenderete
medonho, e que Alcina fez com distincção surprehendente. Sobre o caso,
a critica fez-se ouvir muito acerba contra a Velledo, mau grado as
supplicas do brasileiro e de Rogério, a que fosse poupada a grande
sacerdotisa. Em quasi toda a linha jornalistica, de repente, as
hostilidades romperam com violencia brutal, bipartindo-se os criticos
na hoste dos que bradavam--Velledo!--e na dos que punham Alcina na
mais brilhante evidencia. A prima de Rogério, por conseguinte, passou
a synthetisar a escóla nova, como a Velledo era a expressão da antiga
arte. Pirralho e o magreirão Lindôso, macacos-pontifices da alta
critica moderna, saudaram a musa nova em rutilos artigos crivados de
referencias picaras á antiga primeira actriz portugueza, na qual tudo,
segundo elles, era convencional. A historia do corpete fez escandalo
de morrer a rir. E dois ou tres _distinctos escriptores e nossos
amigos_ estiolavam-se a calcular os annos que ella teria d'edade, o
que esbanjava em cabellos postiços, e da composição chimica d'aquelles
seios esculpturaes...

A actriz Alcina, não! Era a mocidade maleavel e viva, a
intelligencia sagaz que tudo penetrava sem esforço, o genio
desprezando artificios, e dando-se á plateia em relampagos--e como
mulher, uma nympha de Clodion, elançada e viva.

--É necessario derribar os falsos deuses, escrevera Lindôso. A arte é
constantemente evolucionista. Quem não progride, não a acompanha, e
elimina-se pelo esquecimento ou pelo desprezo...

--Isso é forte, homem...

--Qual forte! Uma velhaca que nem bilhetes manda para o jornal! E
d'ahi põe recusas ás nossas mais ternas blandicias. Póde-se lá
soffrer!

No entanto crescia o desespero da Velledo, que chorava dias e dias
accusando o emprezario, não querendo estudar os papeis, cobrindo a
imprensa d'insultos, Rogério e o brasileiro de repellões. Uma manhã,
apenas aquelle veio, ella resolutamente:

--Essa creatura que elogiam por ahi, é sua prima, e foi sua amante, já
sei. Porque não accedo ao que o senhor pretende, move-me guerra nos
jornaes.

Rogério ia protestar. Ella disse--canalha! e mais
rapido:--em todo o caso, oiça. Se a peça nova fizer reviramento
completo na imprensa, expulso o velho e entrego-me a si. Ha uma
condição de que não abdico, note bem. Que essa bebeda seja posta de
rastos, fóra do theatro em que eu represento. O resto é com o senhor.
Acceita?

Elle poz o chapéu na cabeça, disse:

--Não!--E sahiu como doido.

       *       *       *       *       *

Chovia, e elle sem guarda-chuva, pisando a lama com sapatos de baile,
seguia alagado ao longo dos predios. Dois ou tres amigos chamaram-n'o
de dentro de trens, para que viesse abrigar-se. Olhou-os com ar vasio
e foi andando. A sua paixão pela actriz, avolumada pela resistencia,
obstruia-lhe a livre esphera da deliberação, da acção, e desvairava-o.
Que havia de fazer? A pobreza fizera-o mesquinho: e vinha-lhe com
teimozia a ideia do dinheiro gasto com essa mulher, sem reserva, sem
egoismo e sem calculo, n'uma boa vontade de rapaz. E nem mulher nem
dinheiro!... Então recrudescia-lhe o desejo d'ella, e era uma febre
bestial d'amor que o espicaçava a todo o instante e lhe fazia
delirios. Foi pelas ruas de mãos nas algibeiras, flanando ao
acaso na lama. Vendo um antigo freguez, os cocheiros paravam
fazendo-lhe signal--e era uma humilhação para Rogério ter de recusar,
ou virar a cabeça fingindo não ver. As ruas surprehendidas por essas
primeiras gottas de chuva hibernal, tinham sobresaltos e gritos de
vida que procura abrigar-se, a um tempo frenetica e contente...
mulheres apanhando os vestidos, homens erguendo as calças até á origem
das polainas, chamando os trens, ou entrando á pressa nas escadas.

O ar frio dava ás epidermes das mulheres um côr de rosa mais pudico.
Era a hora do Chiado, e os trens desciam para os armazens de modas, em
cujas _vitrines_ se encontravam já densos estofos, chapéus e capotas
do ultimo modelo. Lisboa, que voltava das praias e estações d'aguas,
procedia á sua installação, buscava nos livreiros as ultimas edições,
lia os cartazes dos theatros, escolhendo a sua noite, dictando a sua
_toilette_, familiarisando-se com os aspectos das ruas e o rolar das
carruagens. E a cada instante, Rogério tinha de fazer um signal aos
conhecimentos antigos, actrizes dos pequenos theatros, jornalistas,
_dandies_, horisontaes; toda a mascarada elegante passeando
os primeiros paletots estofados, no giro da evidencia e da moda. E
intimidades que roçavam pela fadiga do seu casaco um velho dito
maldoso, desdens que lhe acenavam de longe co'as pontas das luvas
amarellas, piedades vis que o lastimavam, ou peccadoras que lhe riam
pela ferida dos beiços pintados, tendo partilhado outr'ora o luxo dos
dias aureos de Rogério. Parece que tinha combinado cruzar com elle
hombro a hombro, essa tarde, toda a revoada de doidas sereias avivadas
de chic!--Primeiro Laura, a _condessa_, uma soberba rapariga que
explorava um club de velhos, e era gosada por acções. E as mais:
Annita, que surprehendendo a primeira sombra na face, ia casar com um
judeu capitalista; Hermine, o vampiro, de cujo leito phosphorejavam as
monstruosidades dos harens da Asia; Luiza, alta, morena, sã, com os
seus eternos grandes sapatos de homem, e os seus modos decididos de
_commis-voyageur_... E o pobre auctor de preoccupado, nem reparava no
espanto e na commiseracão com que o fitavam. Uma patifaria sem nome,
quererem voltal-o contra Alcina, rapariga de talento afinal, cuja
carreira difficil ella percorrera toda, sem auxilio nem reclame!
Doida, boa, sincera de mais, e por isso mesmo enganada sem
rebuço. Eil-a ahi na celebridade, chegando ruidosamente ao pinaculo,
musa de um grupo de artistas. Promover-lhe a queda, expulsal-a do
primeiro theatro--que negra infamia pretendia então a outra d'elle?
Chegara ao jornal do Lindôso sem dar por isso. Subiu. Inda não tinham
sahido das repartições, e a redacção estava deserta.

--O snr. Lindôso, disse Rogério para o gerente.

--Primeiro gabinete, á esquerda.

Estava lá. Ora viva! disse Rogério.

--Sei a que vens. Não posso pagar-te inda hoje. Sê benevolo uns dias
mais. E volubilmente:--Então sabes? Os constituintes venderam-se.
Estou aqui a rachal-os de meio a meio. A que chegámos! E mostrava os
linguados escriptos--Lisboa vae vêr o bom.

--Eu cá, disse Rogério, vinha para outro negócio. Janta hoje commigo.
Tenho lá baixo um trem.

--Demonio! pois sim. Ao _Central_?

--Em minha casa. Descobri uma cozinheira incomparavel. Pulcheria se
chama. Então a mais acrisolada sciencia nos molhos! Tenho um Murillo
no quarto, que outro dia, sentindo o olor d'um bacalhau
confeccionado por ella, sahiu á casa de jantar acceso em fome.

--Raio de cozinheira!

--Vens d'ahi?

--Dois minutos para terminar a demolição d'um partido politico. E como
se porta na lebre ensopada, essa tal Pulcheria?

--N'isso então! Imagina um d'estes acepipes tenros, alpestres,
perfumados, extranhos... A pastoral de Beethoven com tubaras de
recheio. Homem, no Algarve estava um defunto no esquife; vae ella,
chega-lhe ás ventas carneiro com batatas--e o morto pega a bailar no
meio da casa.

--A caminho, fez o outro espicaçado pela fome de quarenta cães sem
dono.

A casa de Rogério era perto, e em dez minutos faziam elles a sua
entrada no escriptorio. Rogério fechou a porta da escada e metteu a
chave na algibeira.

--Ah diabo! exclamou Lindôso com uma palmada na testa. De todo me
esqueceu falar da tua peça. E que tinha planeado uma coisa magnifica!
Artigo para o publico, está claro, coisa d'arrombar ahi tudo. Entre
nós, franquezinha. Deves deixar o genero: o teu drama, aqui para nós,
era quasi infantil.

Rogério, surpreso, nem falava. Que exhuberancia de malandro!
pensava elle.

--Nem admira, continuou Lindôso. Tu, o que ha de mais moderno no
estylo ligeiro, de mais elegante, de mais parisiense, cahes agora na
monomania de fazer viver sobre a scena os assumptos historicos!?
Primeiro, não és um erudito. Segundo, não tens a corda dramatica. E
olha que influe alguma coisa, a gente não se chamar Walter Scott ou
Shakespeare, menino.

--Sopra-te o vento d'outro lado, esta manhã, tornou o dramaturgo com
os beiços brancos. Em todo o caso, ouve. Eu li o que escreveste sobre
a Alcina...

--O artigo para amanhã é superior. Vaes vêr que maravilha d'analyse e
graça humoristica. A sagacidade do Taine na fórma irisada do Wolff.
Ah, meu caro Rogério, meu bem! Ponho a Velledo em picado. Dez annos de
lucta, e regeneramos o theatro portuguez.

--Trazes o artigo?

--Vou lêr-t'o. Ficas assombrado.--Mas onde foi elle buscar este vigor
de linguagem, este conhecimento do assumpto, esta chuva de sarcasmo e
pedras preciosas? dirás tu. Ah, Rogério! Nasce-se.

Enfastiado, risonho, o dramaturgo fez-lhe signal para que
lêsse. O artigo era uma catilinaria habil, gradual, bem deduzida, e
feita com esse sarcasmo sereno, quasi limpido, de quem não receia lhe
tomem contas. Definia a arte nova em termos firmes, historiava-lhe a
evolução rapidamente, frisando-lhe os intuitos, explicando-lhe o
destino e o nivel philosophico. Cahia em seguida sobre os actores, no
tom desdenhoso de quem trata subalternos--e uma vez alli, tocava na
Velledo. Desde esse instante, uma furia explosia no artigo, e as
ironias eram um crivar de balas no corpo d'um fuzilado. Segundo elle,
não era possivel mais tolerar sobre a nossa primeira scena, uma actriz
cheia d'artificios e ronceiras manhas; cantando, se declamava; e não
tendo mais a voz maleavel, nem vivaz o gesto, nem a _pose_ esculpida
na proporção da figura que reproduzia. Desmemoriada, envaidecida,
tola, velha, quasi feia...

E no final, em palavras metallicas, enthusiasmadas, relampejando
fundos d'apotheose, entrava a dizer que Alcina era o astro do dia novo
na arte, subindo tocado de flammas, com a grandeza d'uma redempção
pronunciada de ha muito, pela critica imparcial...

--Admiravel, hein?

--Pois sim, fez Rogério retesando as pernas. Quanto ganhas tu por essa
canalhice?

O outro, embasbacado! Quanto ganhava?

--Ora essa! Eu não trafico com o sacerdocio. É convicção.

--Sabido! O artigo de hontem trazia as tuas iniciaes. Publica o de
hoje com o nome todo; tens dez libras.

--Hein?

--Sómente onde estiver Alcina, porás Velledo, e onde Velledo, Alcina.

--Que quer dizer toda essa cantiga?

--Nada de scenas. Entre pulhas, o descaramento é a alma dos negocios.
Dez libras para virares d'opinião. Recusas? perdes o dinheiro e
quebro-te as costellas. Tão certo!...

Lindôso fizera-se verde, queria-se erguer, não podia; e tudo era olhar
para a porta, calcular a retirada.

--De maneira que o teu jantar era isto? E a cozinheira Pulcheria...
Traste!

Rogério nâo respondeu.

--Mas tu? a ferro e fogo com a Velledo, porque te voltastes á ultima
hora? Arranjos! A corja que se entende e se harmonisa.

--Faz as emendas que te disse, tornou Rogério docemente.

Mas o desenterrado hesitava.

--Com quem imaginas tu que estás falando? aventurou-se elle a
perguntar.

Rogério agarrou-o pelo pescoço, como as cozinheiras fazem aos gatos
lambareiros.--Anda! Senão desfaço-te! Senão atiro comtigo da janella!

--É violencia. Protesto! ganiu o desenterrado debatendo-se. Mas a voz
de Rogério rebentou n'um estampido.

--Olha que eu estrangulo-te. Escreve!

Fez-lhe pegar na penna.--Emenda!--E roxo d'asphyxia, cyanosado,
humilhado, escorrendo suor, o outro emendava. Rogério agarrou no
artigo, leu tudo minuciosamente, e inda apontou um ponto ou outro para
Lindôso corrigir--Agora assigna!

O miserável em soluços, arquejando horrivelmente, assignou.

--Tratante! Eu me vingarei. Ai de ti! Rogério ria freneticamente.

--Amanhã peça nova, ajuntou elle n'um sarcasmo tranquillo. Quatro
actos d'Augier, alguma coisa de fino e superior. Alcina lá vae
enrodilhada n'um papelito quasi de comparsa. O melhor papel
para a Velledo! Ella que até agora só fazia os pezados centros
dramaticos, _Joanna a doida_, a _Mulher que deita cartas_... entra
n'uma phase nova, quer mostrar que conhece a escóla moderna. Eh! Eh!
que diz a isto o scintillante Lindôso? O publico tel-as-ha na mesma
noite, as duas, face a face. Elle é imparcial. Julgará.

E emquanto a raiva branca epileptisava o outro--Amanhã os jornaes
saudarão a eminente actriz, pela penna dos mais festejados
escriptores. E na noite da peça, enchente á cunha, bilhetes a libra,
uma chuva de corôas. Ah, desforra estrondosa! Triumpho como ninguem
viu outro! E alcançado por mim. Não que eu admire a Velledo. O que
escrevem contra ella é verdadeiro. Mas apraz-me esmagar essa tropa de
canalhas vendidos, a começar por ti.

--Sim! Ainda hontem a querias derribada, essa Velledo, já hoje lhe
advogas a victoria. Quanto paga o brasileiro por esse enthusiasmo? És
dos meus. Vendeste o que te restava, entras a viver d'expedientes. Eu
cá fui sempre pobre, ao menos. Seguia o meu caminho bem ou mal, sem
pão muita vez, oito dias n'um quarto alugado, oito n'outro,
expulso quando não tinha com que pagar, desempregado, mal visto,
esbarrando com a antipathia de toda a gente. Queriam no meu porte a
nitidez d'um cavalheiro? Dessem-me de comer. Rogério, inflexivel,
chamou o creado.

--Isto ao jornal.

--O jornal não publicará, disse Lindôso.

--O teu não. Mas o meu... Agora vamos a jantar.

--Obrigado. Acabemos com isto. Abre-me a porta!--Era quasi noite.

--Nao. Dormes cá hoje, tornou Rogério.

--Vou gritar, n'esse caso.

--Hum! Não cahirás em semelhante tolice. Ao primeiro berro,
amordaço-te, e passas a noite n'uma camisa de forças.

--Mas isto é inaudito!

--Creio que sim.

--Hei-de tirar uma desforra.

--É da ordem.

--Mas quando me deixam sahir então?

--Quatro da manhã. Hora em que a tiragem dos jornaes está toda feita.
E coração ao largo, anda jantar. Conversaremos como bons camaradas.
Isto aqui não é agora nenhum carcere; podes circular pela casa toda.
Hein? Não me arreceio das gavetas: vendi as pratas, e não ha
vintem por cima das mesas.

--E promettia-me dez libras, _isto_!...

       *       *       *       *       *

Quem hasteava a Velledo era um grupo d'escriptores de pulso (como
então se dizia) feito do pae nobre Tiburcio, critico Borbas, festejado
Peres, Rogério, Moreira das magicas e os inimigos d'Alcina. Uma
espécie de cenaculo, que receando a decadencia da scena, se impuzera
alumiar o gosto da turba, com a luz dos seus talentos _conspicuos
quanto experimentados_. Esta tropa de massadores, quasi todos carecas,
decidira pôr dique á sedição de Pirralho e Lindôso, creando o
_Binoculo_, semanário que definiria a missão do theatro, pondo em
relevo as regalias dos auctores, e encarregando-se de catalogar os
comediantes pela ordem e genero dos meritos que patenteassem: quem
havia de ser o primeiro, quem havia de ser o segundo...

A convite de Borbas tinha-se o conclave reunido n'uma botica da
rua do Amparo, com penna e tinta para tracejar das resoluções
adoptadas. E houve logo disputas sobre o titulo da folha.--_O
Binoculo_, dizia festejado Peres.--_Arte de Talma_, opinava pae nobre
Tiburcio.--_Diabo Verde_, era o parecer do Moreira das magicas. Porém
Borbas, um auctoritario que tinha o culto das civilisações antigas,
disse logo: _O Capitolio!_ Cada qual então pediu a palavra afim de
justificar o seu titulo. Engalfinharam-se uns nos outros, á
descompostura. Como estava vivo de vespera o artigo de Pirralho
exaltando Alcina, urgente se tornava fazer sahir resposta bem
official, bem da _mestrança_, que trancasse as doutrinas da escóla
avançada. Suspensa a sessão por vinte e quatro horas, cada um foi
estudar para casa o que havia d'escrever no jornal, com promessa
d'assembleia no laboratorio da botica, ao dia seguinte.

No outro dia, eil-os de volta arrastando as passadas, beiços lividos,
olho morto, tendo perdido a noite sobre os melhores auctores. Varios,
seguidos de gallegos, tinham feito conduzir annos inteiros da _Revista
dos Dois Mundos_. Borbas, em casaca e tira branca, solemne,
convencido, radiando uma vasta auctoridade, appareceu com a sua resma
d'apontamentos. Aberta a sessão, palavra a um, palavra a outro,
combinaram-se notas, organisou-se o plano d'ataque... resultado, duas
columnas de sandices e a ideia do jornal posta de banda. Foi o momento
de Rogério fazer a sua entrada na sala. Inquiriram todos: então?--Era
na manhã sequente á detenção de Lindôso.

--Sanou-se tudo, ganhamos, exclamava o dramaturgo n'um jubilo. Lindôso
nosso. Vem o artigo na _Gazeta do Sport_.

--E viva!

--Quasi todos os jornaes fallam da Velledo em quatro columnas e cinco.
Grandes letras, titulos d'arromba... _Um genio! A primeira tragica da
Europa. Continue progredindo..._

Já vinte mãos cresciam ávidas para os jornaes que elle trazia.

--Venha de lá isso. Venha de lá.

Estendiam as folhas por cima da mesa, tumultuosamente, vangloriando-se
dos artigos como d'obra sua, dizendo alto as passagens flammantes.
Gritava um:

--Isto soprei eu ao articulista. Outro:

--São as minhas ideias escriptas e escarradas.

--Escarradas sobretudo, insinuava um terceiro.

Nenhum d'elles escrevera uma virgula, mas procuravam enganar-se,
dizendo:--é como se os artigos fossem escriptos por nós,
visto que demos a substancia.

--E pagos por mim, suspirava Rogério arruinado, auctor e victima do
triumpho que elles se attribuiam. Mas Borbas, esfregando o nariz como
um botão de campainha, rosnava com entonos de leão:

--Tiveram medo. Inda valho alguma coisa.

_D. Maria_, essa noite, offerecia o mais bizarro e pictoresco aspecto.
Uma furia revolvia a turba na plateia; havia conclaves pelos cantos,
palavras altas; gestos doidos sahiam dos grupos, accentuando alguma
affirmativa audaciosa--e os decididos declaravam que havia d'ir tudo
raso! Já os informadores de jornal, correndo os olhos pelos camarotes,
de carteira aberta, tomavam nota dos nomes e _toilettes_. Aqui e além,
pelas ordens caras, faziam-se ruidos vagos, arrastar de cadeiras,
risinhos cantados de senhoras: um _bournous_ desacolchetado no fundo
d'uma frisa, distrahia subito as palestras, e luminosas espaduas
gottejadas de diamantes, vinham á luz do gaz espanejar brancuras
exoticas de magnolia. Toda a galante guarda de semi-mundanas,
destacava pelos logares de honra, os seus estapafurdios
couraceiros, todos os typos, trajos e côres de cabellos. Laura a
_condessa_, em pellucia verde pavão e rendas pretas, tincta de loiro
essa noite, punha um bonnet de pennas delicioso. Luiza em escarlate,
bordada de vidrilhos, admiravelmente grande e bem feita, dir-se-hia
brotar d'um cacto com a rebeldia d'um génio de volupia e ruina.
Hermine, de damasco branco, decotada até ao ventre e coberta de
geraneos pallidos, soberba de carne, divina d'impudor, affixava o seu
riso de bacchante, vago, inquietador, sem ponto de mira, como essas
estatuas d'Egino que riem ceifando cabeças.

O sport era feito de figuras bassas, estranhas, espigadas, bonitas
algumas, e com um tom d'elegancia doentia. Uma especie de figurino
geral corrigia os typos, dava o rythmo dos cumprimentos trocados,
parecia decretar do entono da pronuncia, e haver stereotypado das
boccas, o mesmo modo de rir altivo e frio. E apontavam-se as figuras
salientes--o marquezito de Selmes, imberbe, loiro, quasi ideal, com
vicios perversos e um geito cynico na bocca de cherubim: tão
predestinado a gommoso, que apenas parido, entrára a pedir cognac e
vinte libras, afim de se abalar _chez Tata_. Junto d'elle, o
visconde de Palhalvo, de craneo em pera, com bochechas immensas que
lhe esmagavam a bocca e o nariz, mostrava nos olhos ternos, genero
carneiro morto, a todas as ricas herdeiras, o seu joven coração
devoluto. Alberto M., poeta insonso, tortulho ultimo da epocha
romantica, muito estimado nos salões, e causador dos mais finos
adulterios, debruçava-se todo para uma viuvita loira que vinha
d'aliviar o luto. E a phalange alegre das ceias nos gabinetes do Matta
e do Augusto: mulheres fugidas aos maridos, actrizes sem theatros,
filhos de banqueiros, vergonteas fidalgas afundando os ultimos contos
d'uma antiga opulencia, medicos em voga, personagens alvares vivendo á
sombra d'um nome de familia, janotas pagos por uma velha.

Barão de Murtede tinha-se installado mais a franceza, n'uma frisa de
bocca, mesmo em face da esposa e das filhas, que estavam ouvindo
contar ao Alfredinho torto, o Alfredinho dos _cotillons_, uma scena de
sopapo nos corredores de S. Carlos, por causa de não sei que bailarina
americana. A franceza, muito desengonçada, d'olhos pardos, irritante
de magreza, quasi diaphana, coberta de signaes postiços,
ouvia-lhe distrahidamente uma tolice qualquer, abrindo e fechando o
leque, com as suas mãos cobertas de pelle de Suède, que rescendiam
heliotropo. A espaços:

--_Oh, que c'est charmant! Oh, que c'est charmant!..._ e fitava com
provocação a frisa fronteira, d'onde a baroneza de Murtede fazia
olhinhos doces sobre um delegado de barba sedosa, um _vello vaicharel
da Veira_, recem-chegado á côrte, que a compromettia na plateia, á
vista de toda a gente. N'outra frisa, ao fundo da sala, as Simas, mãe
e filha, davam audiencia, antes de subir o panno, a uma multidão
turbulenta e esfaimada de _viveurs_. De longe, Hermine lhe fazia
signaes, affixando á sala a sua familiaridade com senhoras d'aquellas;
emquanto mais circumspecta toda rigorista no seu programa de senhora,
Laura, apenas de leve respondia aos cumprimentos que ellas de lá lhe
mandavam, por entre macaquices de beijos, nas pontas dos dedos. Na
frisa das Simas, aquella noite, era uma algazarra de metter medo;
tinha-se installado alli o quartel general da má lingua, e o centro
expedicionario das frescatas para depois do espectaculo. A mãe, uma
gorducha quasi nova, com dentes chumbados na frente, e o ceu
da bocca de platina, branca, myope, dando-se um tic de palpebras muito
impertinente, esposa d'um general, e sobrinha, dizia-se, do senhor D.
Miguel, tinha começado vida na melhor roda lisbonense, entre os
explendores das festas e a convivencia das grandes familias. Habitos
de grande vida, tão funestos ás pequenas fortunas, deram-lhe com a
casa de bancarrota em bancarrota. Já por fim, ellas mesmas faziam a
cozinha, e cortavam os seus vestidos de sahir, convidando as amizades
a um chá, todas as terças-feiras, com piano e castiçaes de cristofle,
n'um casebre apalaçado ao Bairro Alto, em cujo rez-do-chão, por signal
que viera installar-se uma typographia socialista.

Para vir a casa d'ellas, em principio, inda era de rigor ser-se
apresentado--mais tarde, o general, intercedido, fez concessões, como
era bom homem... pedia então sua meia libra, dez, quinze tostões, e a
cada conviva, além do chá, revertia o direito de tratar por tu a dona
da casa. O general fôra rico em solteiro, o jogo porém tinha-lhe
comido tudo, e a mulher esbanjára-lhe o resto. Uma filha mais nova,
Fernanda, toda mimosa na sua figurinha etherea de Gretchen, inda
chegou a ser pedida em casamento, mesmo assim pobre e mal
educada, por um guarda-marinha que, a adorava, e depois a repudiou,
sabendo a vida crapulosa da mãe e da outra irmã. Desolada, e
desconhecendo outro caminho que não fosse o da sua singela
honestidade, sem vocação para _cocotte_, e sem coragem para
costureira, a pobre pequena atirou comsigo ao fundo d'uma cisterna que
havia no pateo.

Entanto, já a vida as apertava d'urgencias, dia a dia insaciaveis--o
luxo d'um lado--do outro lado a penhora--do outro ainda o general...
em termos que a mãe, tomando as redeas da casa, durante o _delirium
tremens_ do marido, entrou a dar bailes de mascaras no casebre
armoriado, abrindo as suas portas a toda a casta de rodilhões e
torpezas. Alli debutaram muitas raparigas na vida galante,
costureiritas que os devassos encommendavam á mãe Simas; filhas de
pequenos empregados, que entravam no baile em musselina branca, sem
brincos, nem colar, accedendo ao appello d'uma amiga de collegio;
noivas que vinham ganhar o enxoval de casamento, n'uma prostituição
secreta e cheia de rancores; hespanholas retiradas da má vida, por
algum amante que as desejasse gosar mais por detalhe... algumas
ingenuas, lindas algumas, e outras simplesmente irritantes,
pela virgindade physica que traziam, esculpida em desejos, mal
sazonados ainda, nos meios limões erecteis do peito.

Durante o dia, era frequente encontrar-se a mãe Simas por todas as
ruas da cidade, offegante, enrodilhada no fundo d'uma tipoia, fazendo
adeusinho aos caixeiros, rindo para os ociosos das tabacarias,
apeando-se á porta de todas as escadas sem guarda-portão. Ia em
serviço.--Até á noite, até á noite, dizia ella, apanhando as saias a
molhe, por baixo de cujas barras, não raro badaleavam penduricalhos de
lama immunda. E esquecida da mala por todos os cantos, voltava atraz,
esbarrava n'um taipal, ouvindo sem pestanejar, no seu _aplomb_ de
condessa, os apropositos mais desavergonhados...

Dentro de pouco, a casa foi creando fama, pelo expedito das suas
encommendas e gosto fino das suas requisições, creando fama sobretudo
na provincia, no Brasil, e por essas possessões d'Africa, d'onde
annualmente chegam a Lisboa, os mais tenebrosos, os mais acerbos
apetites de homem, recalcados na solidão, e centuplicados de força
pelos delirios côr d'absintho da abstinencia. Á chronica da
casa mesmo, no livro de oiro dos escandalos mais reconditos, tinham
vindo jungir-se muitos nomes da nobresa, sangues de mil castas,
fibrina dos Gamas, materia corante do mestre d'Aviz, soro e saes de
Nun'alvares, Miguel de Vasconcellos, ou algum sapateiro da
Bairrada--todas as elegantes ociosidades patricias e dinheirosas, que
por Lisboa entreteem o fogo da luxuria, nas saturnaes nocturnas da
cidade baixa. A policia, tão meticulosa para com outros gyneceus de
menos alcandorados brazões, guardára sempre ante o alcouce das Simas,
um mysterioso receio ennastrado de deferencia, alguma coisa como a
protecção da lei aos grandes monopolios. De grandes personagens se
dizia, que nas dobras d'uma capa andaluza, altas horas, alli vinham
beijar, entre duas taças de Champagne extra-secco, velludosas covinhas
de barba, divinas de mocidade, surprehendentes de frescura,
pacientemente rebuscadas, negociadas, cathechisadas, pelas Simas, mãe
e filha, durante uma alcovitice de semanas e semanas; através dos
viveiros mais bem fornidos de caça, bairros pobres, casas de modista e
bastidores. Os melhor informados, frizavam precisamente, as jerarchias
e nomes dos grandes freguezes, apontavam os cocheiros de
noite, muito em segredo commissionados para este serviço deshonesto; e
outras historias lugubres... gritos de virgindades laceradas, rumores
surdos de luctas no socego tragico da casa, sombras correndo em negro,
de cabellos soltos, na brancura dos stores illuminados por dentro...
Até d'uma vez... emfim, a instituição das Simas, entrada nos habitos
lisboetas, fazia-se agora tão necessaria á cidade como os albergues
nocturnos ou a Escola Polytechnica.

       *       *       *       *       *

Farejando a sala, o frequentador habituado, teria podido adivinhar uma
especie de plano de campanha na ordenação dos espectadores da plateia,
plano sabio traçado por algum grande claquista envelhecido nas
barafundas do proscenio. Cada ala de _fauteuils_ tinha o seu chefe. Ao
pé da cadeira d'um espectador indifferente, viera installar-se um
espectador comprado. Nas primeiras filas, destacando a sua linha
temivel de luvas brancas e faces terrosas, installara-se a escóla que
protegia a Velledo, na pessoa de dez ou doze escriptores cambados, e
uma tropa de conselheiros e velhotes de bom tempo, por cujos
leitos a actriz espargira os perfumes talvez do seu banho matinal.
Festejado Peres e Moreira das magicas, inquietos, encasacados,
cavalleiros de Christo, profusos d'adeuses e abraços, tinham-se
postado ás portinholas da sala como duas fuinhas, passando palavra aos
que iam entrando, distribuindo poesias, pedindo applausos
descaradamente. E ao passo que o brasileiro cuidava da ceia, com
profusão de flôres e philarmonicas, Rogério levára ao Monte-pio os
ultimos penhores que pudessem pagar um brinde a essa mulher que o
entontecia e deslumbrava. No momento de descer a escada da Velledo,
ainda o dramaturgo estava decidido a romper com ella. Porém cá fóra, a
sua indole cobarde, amollecida de desejo, perdidos uns restos de
pudor, tinha concebido possuir a todo o transe aquelle bello corpo de
espuma e rosa, custasse o que custasse, uma só noite que fôsse--e
assim organisára a reunião de criticos no laboratorio de pharmacia, a
detenção de Lindôso, o chuveiro de panegyricos em todos os jornaes, e
emfim a bella enchente d'aquella noite. A imaginação de Rogério fôra
de tal ordem e presteza, que Pirralho e os adoradores d'Alcina apenas
tinham encontrado cadeiras nas ultimas filas, e camarotes
das ultimas ordens. Desterrados para tão longinquas paragens, perdidos
por escaninhos taes, facil seria suffocar a pateada que elles
intentassem. Lindôso, desacreditado pelo artigo d'essa manhã, não
tinha julgado prudente apparecer. Pirralho voltara-lhe as costas, os
amigos d'Alcina ameaçavam esbofeteal-o em publico. Já o calor
aljofrava as calvas susceptiveis, e as asas dos leques, por centenas,
faziam no ambito como um borborinho de pombal.

Á hora de subir o panno, o triumpho negociado por Rogério era coisa
decidida ou quasi; e os animos pareciam propensos a victoriar, _mais
uma vez, a nossa primeira actriz_. A peça, retalhada a dialogos
scintillantes, era alguma coisa no genero Sardou e Dumas filho,
estapafurdia como senso dramatico, mas irritante d'ironias e perfumada
de gentilissimas graças--um adulterio desculpado por theorias de
folhetim, em cuja imoralidade ninguem fizera attenção. N'essa comedia,
toda sublinhada com uma rara finura, esfuziando os paradoxos por
jorros e as mordacidades por turbilhões, sem entrecho quasi e profunda
não obstante, combinando argucias de gentil-homem com sahidas de
garoto, imagine-se o que faria a Velledo, quasi gorda, chegada aos
quarenta, com gestos atufando-se na plastica sólida dos braços, e não
possuindo já a nervosa vida de scena, inspirativa, momentanea, nem já
podendo facetar pelos entonos da voz, as mil intenções e subtilezas de
dialogo, d'uma peça toda intellectual como aquella. Em compensação, as
_toilettes_ de rigor, os setins roçagantes, os _pufs_ d'estofo
adamascado, bordados de flôres, plumas, franjas e peitilhos de contas,
iam direito á fascinação das burguezas. E apenas ella appareceu, foi
na sala um borborinho atufado--_sss... sss..._--alguns tacões bateram
ainda, e houve nas torrinhas um bocejo em voz alta, intencional. Mas
estava calculada a reacção. De varios pontos, subito, ao mesmo tempo,
sahiram palmas destacadas, quatro ou cinco vezes gritando:--bravo!--e
uma formidavel salva revoou no theatro, louca, ensurdecedora, como
nunca se vira. Vibrado o centro emocionavel da turba, podia a peça ter
corrido como quizesse, bem, mediocremente ou mal; o resultado tinha de
ser uma victoria. Foi assim que no segundo acto as chamadas eram já
tantas, que Velledo fatigada, resolveu, desmaiar em scena. As flôres
enchiam completamente o palco e choviam sem conta dos camarotes. De
pé nas cadeiras, debruçadas lá cima das torrinhas, centenas de figuras
batiam as mãos; e Rogério achando ainda uma scentelha dos juvenis
enthusiasmos d'outr'ora veio á scena offerecer-lhe um volumoso cofre
de sandalo.

Disse-lhe rapidamente:--a peça nova fez successo. Cumpri a minha
promessa. Espero não esquecerá a sua.

--Obrigada, disse ella, estendendo-lhe a mão, e a sua voz commovida,
dir-se-hia fluctuar n'um lago cerulo de promessas d'amor.



INDICE


  Aves Migradoras,                     5

  O Sineiro de Santa-Agatha,          71

  Pequeno Drama na Aldeia,           117

  A Provincia,                       171

  O Juramento da Condessa Esther,    195

  Coronado,                          209

  A Eminente Actriz,                 231





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